Único jornalista do Brasil a entrar no Irã em guerra, Caco Barcellos detalha viagem e novos planos para o 'Profissão repórter'

 

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Uma lesão na vértebra L5, na região da coluna lombar, tirou Caco Barcellos de campo. E, por campo, entenda-se os de futebol mesmo — porque ele continua firme e forte na reportagem, sua maior paixão depois da bola. As dores não o impediram de viajar ao Irã em plena guerra, no fim de março, para uma série de reportagens para o Fantástico, da TV Globo, veiculadas em meados de abril. Ele e repórter Thiago Jock foram os únicos jornalistas brasileiros autorizados pelo governo local, um dos mais fechados do mundo, a entrarem no país.

De bengala, Caco circulou pela capital, Teerã, durante oito dias, entre a destruição infligida por americanos e israelenses — que atacam o país desde 28 de fevereiro — e a resistência do povo iraniano, que todo dia “vai para a rua normalmente”.

— Se você sai e não está bem informado, pode achar que nada anormal acontece no país — diz o gaúcho de 76 anos, autor dos livros-reportagem de sucesso “Rota 66” (1992), sobre a violência da tropa de elite da polícia militar de São Paulo, e “Abusado” (2003), sobre um traficante do morro Dona Marta, na Zona Sul do Rio.

Depois da viagem, já em São Paulo, onde mora deste os anos 1980, o repórter conversou sobre a experiência na guerra e a nova empreitada, o “Profissão repórter procura”, quadro do Fantástico com estudantes de jornalismo, derivado do projeto que completa 20 anos em 2006.

Acesso ao regime

“Quando o presidente americano Donald Trump começou as bravatas de atacar o Irã, resolvi ver qual seria a possibilidade de entrar no país e mostrar o outro lado, caso ele concretizasse os planos. Eu e as repórteres Danielle Zampollo e Sara Pavani (da equipe do Profissão Repórter) começamos um processo de aproximação, sobretudo com alguns embaixadores do passado e com o atual. Foram muitas conversas, que duraram de novembro até o final de março, época da viagem. Esse processo foi o mais demorado. Sugeri que eles fossem atrás do meu trabalho, é o que fala por mim. Lembro que eles queriam muito saber saber o que eu achava do conflito, do país. E respondi: ‘guardo comigo as minhas opiniões, o meu trabalho é essencialmente a reportagem’. Tentei convencê-los disso, e eles foram atrás do que já fiz e constataram que realmente vou aos lugares para mostrar a realidade, conversar com as pessoas. Independentemente de quais sejam suas tendências ou preferências.”

Guerra invisível

“Se você sai e não está bem informado, pode achar que nada anormal acontece no país. As pessoas vão às ruas normalmente. Quando eu estava lá, Trump prometeu não só bombardear, mas destruir o Irã, usando a expressão ‘voltar à Idade da Pedra’. Nesses dias, imaginei que as pessoas fossem levar as crianças para casa, ninguém iria para a escola, mas absolutamente não. Houve até uma certa tensão à meia-noite, hora do deadline que ele marcou, mas nenhuma bomba caiu. No fim de semana de um feriado, quando estivemos lá, crianças, adultos e idosos, todos estavam na rua, como se nada estivesse acontecendo.”

Caco Barcellos no Irã

Divulgação

País jovem e educado

“Fui com o espírito obrigatório do repórter de ver a coisas pelas experiências próprias e não ficar só com as informações prévias. Já sabia da luta das mulheres, um processo gradual e contínuo e vi que, nos últimos anos, houve conquistas significativas na área de costumes. Tivemos (o tempo todo) a companhia de uma produtora, que era uma jovem professora de inglês. Ela representa um perfil de parte importante da sociedade iraniana, que é formada, majoritariamente, por uma população muito jovem, que estuda e se dedica. Uma das questões positivas desse governo tão controverso é a educação de qualidade. Há excelentes jovens engenheiros, essenciais para essa resistência de guerra.”

Diferenças à parte

“O conflito deve ter silenciado a oposição (ao regime teocrático dos aiatolás, antes Ali Khamenei, morto na guerra; agora seu sucessor e filho, Mojtaba Khamenei). Ou eu apurei mal. Passei todo o tempo na rua, circulando, e não houve nenhum protesto, só manifestações anti-guerra. Mas, por isso, tenho vontade de voltar. Não me conformo quando não tenho respostas. Quero, pelo menos, a oportunidade de perguntar para as pessoas com posições diferentes.”

De bengala na TV

“Fiz uma cirurgia que causou uma lesão na vértebra L5, que se estende até o pé. Estou numa luta para recuperar, com muito exercício e vários tipos de tratamento. Viajei com dor, mas a vontade de ir foi mais forte. Minha filha não queria, mas eu disse: ‘realmente, posso ficar aqui, mas a dor vai continuar’. Com dor aqui ou lá, melhor continuar meu trabalho. Ela entendeu. Mas é relativamente suportável. Uma lesão de futebol dói mais.”

Delícias da experiência

“Tenho 76 anos, mas a oposição diz que aumento para impressionar (risos). A idade me ajuda a interpretar as coisas, a estudar com mais foco. Lembro de, mais jovem, ficar ansioso na busca da informação. Hoje, vou direto ao ponto. Tenho a sensação de estar mais em paz, mais tranquilo e mais investigador.”

Profissão repórter

“Na nossa turma, somos movidos por paixão mesmo. Sou suspeito para falar, não sei como as pessoas veem o nosso trabalho. Só sei a reação da rua. Brigavam muito comigo, inclusive, dizendo: ‘você me obrigou a dormir tarde’ (risos). Realmente, o programa ficava meio escondido na madrugada. O público se queixava bastante. Por outro lado, muitos falavam positivamente sobre a garotada e eu entrarmos na casa das pessoas. Adoro ouvir, sobretudo nas favelas: ‘E lá vem aquele pessoal que gosta de entrar na casa da gente.’ Adoro ser recebido por todas as classes sociais. Acho que as pessoas gostam também de serem visitadas. Sem dúvida, o programa não existiria se não abrissem suas casas”

Profissão procura

“Vou para a rua com estudantes de jornalismo. A ideia é usar a reportagem para discutir a profissão e contratar alguém (ao final da série).”

A língua das redes

“Todo indivíduo tem alguma coisa de repórter, sempre, né? E quando vejo isso sendo reproduzido, seja em que veículo for, acho uma grande novidade. Graças à revolução digital, sem dúvida, todo mundo pode ter acesso à informação de qualidade mais facilmente, mas também criar sua própria pequena ou grande plataforma para reproduzir o conhecimento. Fico encantado com isso. E, claro, que aumenta também a nossa concorrência, muito grande agora. Mas quando eu vejo que a juventude das áreas mais pobres do país, fazendo o seu próprio veículo, acho maravilhoso. Não precisam nos esperar, os praticantes do jornalismo tradicional, profissional. Eles não dependem mais da gente. E isso é bom para todo mundo. Não sou a melhor pessoa para analisar, fico observando apenas com encantamento, até com uma certa inveja: ‘caramba, deveria ter nascido agora’.”

I.A no jornalismo

“Duvido que uma máquina, um robô vá, por exemplo, para um front de guerra e faça uma operação com a devida sensibilidade e abrangência.”

Foco no papel

“Fui procurado para escrever sobre a vida de repórter e fiquei interessado. Mas estou com um certo medo de sair das ruas. Sou muito influenciado pela rua e me apaixono escrevendo também. Estou meio dividido.”

Bola no pé

“Eu tentava jogar futebol duas vezes por semana. Tenho times em São Paulo, Porto Alegre, Rio. Mas estou há muito tempo parado. Meu time (de SP) me ligou dizendo: ‘ gente nunca mais perdeu o jogo, então continue aí se recuperando” (risos).

Comunicação com o Brasil via emojis

“Persistência, persistência, persistência” é um mantra de Caco Barcellos que a repórter Danielle Zampollo repete ao contar sobre as negociações com o governo do Irã para que ele e Thiago Jonk fizessem reportagens no país durante a guerra com os Estados Unidos e Israel. Ela e a colega Sara Pavani estiveram no front brasileiro de luta para conseguir o visto de imprensa de sete dias de um dos países mais fechados do mundo — ainda mais nesse momento de conflito.

— Na nossa profissão tudo é acesso — diz Danielle. —Se você consegue isso, sabe que pode fazer uma baita reportagem. Começamos a insistir e foi mais do que mandar e-mails. Viajamos para Brasília e tentamos muito. Foi uma baita conquista.

Caco, Thiago Jonk e Danielle Zampollo na Índia em fevereiro de 2025

Divulgação

Ela e Sara não embarcaram para o Oriente Médio (“precisava ser uma equipe reduzida e foram só Caco e Thiago), mas ficaram na base, comunicando-se de forma cifrada com os colegas por mensagens, já que o governo iraniano monitora os aparelhos celulares dos jornalistas.

—Não dava para falar sobre o que estava sendo feito, sobre o conteúdo. E estava todo mundo preocupado porque o Trump vinha fazendo muitas ameaças. Então, combinamos alguns códigos bobos, com emojis — diz ela, detalhando a linguagem de corações: a figurinha na cor vermelha tinha o significado de “tudo bem”; o amarelo era uma alerta; e o preto sinalizava “precisamos de ajuda”. — Esse não usamos.


Nova geração

A trajetória no Profissão Repórter, iniciada há 14 anos, foi o primeiro emprego de Danielle como jornalista profissional depois de se formar. Algo que pode acontecer com um dos seis estudantes que serão selecionados pelo Profissão Repórter Procura, quadro do programa, exibido no segundo semestre dentro do Fantástico durante cinco domingos, em parceria com a Academia Led.

Funcionará assim: até o dia 10 de maio, alunos de faculdades de jornalismo (ou comunicação social com habilitação em jornalismo) de todo o Brasil, com formatura prevista para o primeiro ou segundo semestre de 2026, podem se candidatar para uma das seis vagas. O site de cadastro é inscricoes.led.globo/login. Os selecionados, então, passam temporadas nas redações da TV Globo no Rio e em São Paulo, ao lado de Caco Barcellos, aprendendo sobre todas a etapas do ciclo noticioso na TV: pauta, apuração, reportagem, edição.

—A ideia é que esse grupo faça atividades inspiradas em diferentes jornais e produtos da casa — conta Julio Molica, parte da equipe do Profissão Repórter e idealizador do quadro. —Todos seguem os mesmos princípios editorais, mas há características diferentes. O “Profissão” é mais focado na cena, na reportagem. A GloboNews na cobertura ao vivo, imediata.

Ao final, os estudantes e o público vão descobrir qual deles será contratado para o time fixo da emissora a partir das avaliações de Caco.

O Profissão Repórter —como programa durante a semana a que o público está acostumado — terá uma temporada reduzida em 2026, segundo a TV Globo, por causa dos impactos na grade de programação das “transmissão e a cobertura da Copa do Mundo, das Eleições Presidenciais, e dos realities, no ar de janeiro a outubro e sempre após a novela das nove”. A emissora complementa que, além do “Profissão procura”, há outro quadro especial programado para o Fantástico nesse período, sem, no entanto, entrar em detalhes sobre o conteúdo.