Única figurinista brasileira votante do Oscar 2026, Claudia Kopke celebra trajetória profissional de mais de 40 anos

 

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Neste domingo à noite, quando o Oscar estiver mobilizando cerca de 19 milhões de espectadores em todo o mundo, uma niteroiense estará comemorando também o êxito de uma trajetória profissional de mais de quatro décadas. A figurinista Claudia Kopke, de 66 anos, participa, pela primeira vez, do corpo de jurados da premiação mais importante do cinema mundial. Atualmente, cerca de 60 brasileiros integram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas com poder de voto — nomes como Fernanda Montenegro, Fernanda Torres, Wagner Moura, Selton Mello e Kleber Mendonça Filho. “Sou a única figurinista brasileira”, orgulha-se Claudia, com um quê de modéstia. “Alguém olhou meu trabalho em filmes como ‘Ainda estou aqui’ e ‘Casa de areia’”. Olhou mesmo: tanto que ela foi convidada para assinar o figurino do próximo filme do cultuado diretor norte-americano Brian De Palma, “Sweet vengeance” (“Doce vingança”, em tradução livre). “Estou muito animada.”

Para dar conta da função Oscar, passou meses submersa em tramas e narrativas. “Criei um caderninho para me organizar. Tentei ir ao cinema, mas acabei assistindo na plataforma on-line da premiação”, conta. “Optei pela categoria Melhor Filme Internacional. Depois, passei a votar em diversos quesitos, como direção de arte, figurino, maquiagem, ator... Foi uma trabalheira”, comenta. E quais são as apostas? “Acho difícil o Wagner (Moura) ganhar como Melhor Ator, mas estou torcendo muito.”

Inquieta, a figurinista tem como marca registrada o apego ao naturalismo, exercido com maestria em “Ainda estou aqui” (2024). Mas brilha em outras linguagens. Prova disso são as criações lúdicas que vestem o elenco do espetáculo “Fala sério, mãe”, de Thalita Rebouças, e a assinatura de cerca de dez mil figurinos da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016.

A figurinista se recorda com entusiasmo daquele período. “Montamos um ateliê de costura em pleno Maracanã”, conta. “Para o Paulinho da Viola, realizamos três provas de roupa com um alfaiate italiano. Escolhi o Alexandre Herchcovitch para o vestido de Gisele por fazer questão de um nome nacional na festa.”

Autora do best-seller “Fala sério, mãe”, que virou musical, Thalita Rebouças sempre foi “muito fã”. “Ela tem de ganhar todos os prêmios. É muito legal ver de pertinho a sua sensibilidade. Percebe o detalhe do detalhe e ajuda os atores a contarem melhor as histórias”, observa a escritora, que fez o début como atriz no espetáculo em cartaz até o dia 29, no Roxy. “Ainda por cima, é superpresente e quer ver todo mundo feliz. Não quero largá-la nunca mais.” Claudia retribui: “Thalita é uma pessoa maravilhosa que resolveu encarar mais um desafio na vida. Parte do figurino é uma explosão de cores, mas há looks em preto e branco. Criamos peças pintadas à mão.”

Formada em Letras, desde criança era afeita a linhas, moldes e invenções estéticas. “Sempre gostei de moda”, admite. “Sou da época em que as roupas eram feitas por costureiras de bairro. Já na década de 1970, acompanhei o surgimento das primeiras marcas cariocas para o público jovem, como Smuggler e Company”, emenda. No cenário atual, elenca rápido algumas de suas grifes favoritas: “Lenny, Misci e João Pimenta”.

Na adolescência, aos 14 anos, teve uma experiência fashionista radical. Partiu para Europa numa excursão da Aliança Francesa. Em Londres, se deparou com o fenômeno Biba, butique revolucionária fundada por Barbara Hulanicki, nos anos 1960. “Sabe quem foi minha companheira de viagem? Emília Duncan, que mais tarde também se tornou figurinista de muito sucesso. Foi sensacional, a gente ficou enlouquecida.” Em “Ainda estou aqui”, mergulhou novamente na efervescência londrina por meio de Vera Paiva, filha mais velha de Rubens, interpretada por Valentina Herszage. A atriz destaca a firmeza na escolha do visual hippie-lisérgico da personagem: “Foi a primeira pessoa que conheci da equipe do filme. Tivemos que bater o figurino de Veroca antes de todos os outros. Na prova de roupa, já identifiquei o seu imenso talento e sua leveza”, afirma Valentina. “Aprendi muito com ela.”

A versatilidade exercitada ao longo da carreira — é dela o figurino de obras distintas, como os filmes “Dois filhos de Francisco” (2005) e “Tropa de elite” (2007), e os espetáculos “Cura” (2021) e “Sagração” (2024) de Deborah Colker — é constatada desde sempre. Em 1984, com Emília Duncan, passou a reformar roupas antigas com tecidos de Nova York: assim nasceu a marca Violante. Em 1985, a dupla surfou na new wave e teve uma etiqueta chamada Transfigura. “Totalmente anos 1980 (risos). Chegamos a ter um corner na Mr. Wonderful, de Luiz de Freitas, na Visconde de Pirajá. Fizemos um desfile apoteótico no Parque Lage. Montamos a passarela sobre a piscina”, lembra.

A estreia no cinema foi em meados da década de 1980, no filme “Estrela nua”, e nunca mais parou. Já as novelas... “Fiz apenas uma, ‘A dona do pedaço’ (2019). Parabenizo os profissionais que conseguem montar 70 figurinos por dia. Acho dificílimo”, confessa. Também brilha em filmes publicitários. Começou na agência Artplan, ao lado do publicitário Nizan Guanaes e do diretor de arte Jair de Souza. “No Rock in Rio, em 1985, e sigo até hoje nesse mercado. Na época, fazíamos na garra. Até hoje é meio assim. As pessoas entram nesse mundo achando que é só glamour. Só depois veem o nível de exigência”, pondera ela, que “formou” nomes como o stylist Antonio Frajado e a designer Julia Gastin. Frajado ressalta sua influência: “Refinou meu gosto e compartilhou comigo todas suas referências para que eu pudesse explorá-las. Nunca conheci uma pessoa tão generosa em toda minha vida”, derrete-se.

Amiga de Claudia há 35 anos, a atriz e apresentadora Regina Casé a define como uma “potência”: “Costumo dizer que a quero no roteiro, no figurino, na iluminação, na direção. E é tão boa amiga quanto profissional. Merece todo reconhecimento”.

Mãe de Luc Athayde-Rizzaro, de 37 anos, do relacionamento com o apresentador Marcelo Tas, e da artista multidisciplinar Helena Araújo Cebrian, de 25 anos, da relação com o produtor Rodrigo Cebrian, Claudia diz ter se visto em algumas cenas de “Fala sério, mãe”: “Luc mora em Nova York e Helena, em Londres. Tem uma passagem na peça que mostra os filhos saindo de casa. A gente torce para dar tudo certo, é claro, mas o coração fica apertado”. A transição de gênero de Luc foi feita em paz. “Quatorze anos atrás, era mais novidade. Não se viam muitos transmasculinos”, comenta. “Na época, muita gente me perguntava: ‘Será que isso não é moda?’. Respondia com firmeza: ‘Não’. Antes, ele era ensimesmado. Tornou-se uma pessoa muito mais feliz. E eu também”, conclui.