Ney Matogrosso, Rita Lee, Carolina Maria de Jesus... Enredos na Sapucaí dão aula de história e cultura popular

 

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Atenção, Brasil! Aulas de história e cultura popular estão confirmadas para os próximos dias, acessíveis pela tela da TV, do computador ou do celular, a todo e qualquer interessado, país afora. Elas acontecem no maior espetáculo da terra: o carnaval das escolas de samba.

Em uma das reuniões que fizemos para organizar a cobertura dos desfiles da Marquês de Sapucaí, pensei que muita gente provavelmente não dimensiona o privilégio que temos de conhecer grandes histórias — e a nossa própria —, como nenhum outro povo do mundo. Independentemente de gostos ou crenças, um olhar mais atento para o cortejo das agremiações revela o quanto essa festa também ensina sobre quem somos, de onde viemos, para onde estamos indo. Ela joga luz sobre temas ou personagens que nos formam como sociedade. E, em 2026, considerando apenas as concorrentes do Grupo Especial do Rio, há enredos para diferentes perfis.

Carnaval é rock and roll, e a Mocidade Independente de Padre Miguel pode provar. Primeira a desfilar na segunda-feira (dia 16), a Verde e Branco homenageará ninguém menos que Rita Lee. Antes dela, no domingo (15), a Imperatriz Leopoldinense passará pela Passarela do Samba contando a história de Ney Matogrosso. Desde que foi anunciado como enredo, o artista tem participado de perto dos preparativos da festa, sem esconder sua satisfação. Ele, que já viveu tantas emoções ao longo da carreira, parece bem consciente da importância desse momento.

Prova de que a música popular brasileira é de uma riqueza sem fim, a Grande Rio levará para a Avenida, na terça-feira (17), a história do manguebeat, movimento que nasceu em Pernambuco e tem como um de seus maiores representantes o saudoso Chico Science. Mas os grandes personagens biografados por alas fantasiadas e alegorias não ficam restritos ao universo musical. Provocando auê antes mesmo de acontecer, o desfile da Acadêmicos de Niterói, primeira a se apresentar no domingo (15), contará a história do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da infância em Pernambuco e São Paulo ao Planalto, em Brasília.

A lista segue com grandes personalidades. A escritora Carolina Maria de Jesus é tema da Unidos da Tijuca, última a passar pela Sapucaí na segunda-feira (16), enquanto o multiartista Heitor dos Prazeres é reverenciado pela Vila Isabel, que se apresenta na terça (17). Você tem noção do tamanho da contribuição desses dois nomes para a cultura brasileira? Caso não, o carnaval oferece uma oportunidade rara de descoberta.

E eu ainda poderia falar aqui da inesquecível Rosa Magalhães, carnavalesca que mais ganhou títulos na Sapucaí e que será lembrada pelo Salgueiro, fechando o carnaval carioca. Sem contar o Mestre Sacaca, na Mangueira — já ouviu falar? — e o Príncipe Custódio, enredo da Portela, conhece?

Eu também pouco sei sobre eles, por isso faço essas pequenas provocações. Ainda que outros países pelo mundo também realizem seus carnavais, como tive a oportunidade de ver de perto na província de San Luis, na Argentina, anos atrás, em nenhum outro lugar a festa popular é um acontecimento desse tamanho, feito por tanta gente e ao alcance de tantos outros. Para quem não pode presenciar in loco, do conforto do sofá há a chance de acompanhar não só um espetáculo visual bonito e colorido, um show de samba, uma explosão de alegria, mas histórias que são nossas. E que, de um jeito lúdico e compreensível, arrebatam tanta gente, independentemente de nível de escolaridade ou classe social.

Converse com alguém que vive os bastidores das escolas de samba e, não raro, você vai se deparar com mais conhecimento histórico do que em anos nos bancos escolares.

O carnaval dá aula!

Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br