Nevou no Grammy 2026: o que o loiro das celebridades diz sobre luxo, imagem e protagonismo
Lady Gaga cruzou o tapete vermelho do Grammy Awards 2026, neste domingo (1), em Los Angeles, com cabelos loiro-platinados e sobrancelhas quase apagadas, criando uma imagem que parecia suspensa entre o humano e o digital. Antes mesmo do início da cerimônia, o visual da artista já circulava nas redes sociais como um dos mais comentados da noite. Não era um caso isolado. Ao longo do red carpet, artistas de diferentes estilos, gerações e etnias, como Sabrina Carpenter, Zara Larsson, Rosé e Adia Andrews, também surgiram com variações do loiro claro e extremo. Em meio a cabelos naturais, coloridos e cortes ousados, o tom se repetiu com força suficiente para levantar uma pergunta que ultrapassa a estética: por que o loiro voltou a dominar justamente um dos palcos mais simbólicos da indústria cultural global?
Sucesso na TV e nas redes: Glaura Lacerda avalia repercussão de Gisleyne em 'Três Graças' e comenta parceria com Grazi Massafera
Como estimular a mente do seu cachorro: 8 estratégias para deixar o pet mais inteligente e confiante
Desde os anos 1930, quando a atriz Jean Harlow surgiu com cabelos platinados no filme "Platinum Blonde", o loiro passou a carregar significados que vão além do embelezamento. “O impacto foi tão grande que o loiro platinado é até hoje associado à ousadia, presença, estranhamento e poder”, explica a pesquisadora e analista de moda Paula Acioli.
Grammy Awards 2026: Lady Gaga
Getty Images
Segundo ela, esse imaginário atravessou décadas e segue sendo atualizado pela cultura pop, sendo adotado por pessoas comuns e por celebridades, independentemente de sexo ou etnia.
O corpo como projeto estético
No tapete vermelho do Grammy, onde a disputa por atenção acontece em segundos, essa escolha ganha peso estratégico. “É uma cor escolhida quando a intenção não é apenas embelezar, mas impor presença, causar impacto e deslocar o olhar”, afirma Paula. Para ela, o loiro funciona como uma linguagem visual capaz de comunicar protagonismo em ambientes altamente competitivos.
Grammy Awards 2026: Sabrina Carpenter
Getty Images
O visual de Lady Gaga levou esse discurso a um nível ainda mais conceitual. Ao descolorir também as sobrancelhas, a artista reduziu traços expressivos do rosto e criou uma imagem quase etérea. “Descolorir é um ato simbólico. É apagar o natural e dar espaço para enfatizar outras emoções e narrativas, construídas de acordo com o contexto que se escolhe apresentar”, analisa Paula Acioli. Ela lembra que artistas como David Bowie, Madonna e a própria Gaga transformaram seus corpos em projetos estéticos. “São corpos pensados para além da ideia de corpo real”, resume.
Adia Andrews no Grammy Awards 2026
Getty Images
Essa estética dialoga diretamente com uma cultura visual marcada por filtros, avatares e inteligência artificial. “O loiro platinado responde muito bem à luz artificial e a diferentes tipos de maquiagem e looks, entregando efeitos impactantes em produções simples ou elaboradas”, observa Paula. Ainda assim, ela pondera que não se trata de uma estética única ou definitiva. “Em um mundo tão diverso, não podemos generalizar que o loiro seja a estética oficial de corpos que já não precisam parecer humanos para serem desejados.”
O loiro como código de luxo
Do ponto de vista técnico, o loiro também carrega um significado concreto de luxo. A cabeleireira Melissa Schlukebier, especialista em fios loiros, explica que o platinado costuma reaparecer em momentos de grande exposição justamente porque não passa despercebido. “Em um evento como o Grammy, onde imagem é linguagem, ele comunica força, atitude e protagonismo”, afirma. Segundo ela, o loiro atual é menos padronizado e mais conceitual. “É um loiro mais fashion, mais statement.”
A associação com prestígio vem da complexidade do processo. “O loiro ainda funciona como um código de luxo porque exige tempo, técnica, manutenção e investimento”, diz Melissa. Ela compara o resultado a um trabalho de alta-costura. “Quando bem feito, tem brilho, uniformidade e acabamento sofisticado. Não é só cor, é construção.”
Grammy Awards 2026: Rosé
Getty Images
Esse cuidado constante faz com que o visual também funcione como marcador de status. “O que encarece não é apenas a descoloração, mas todo o compromisso com qualidade e manutenção”, explica. Segundo a profissional, a busca atual é por um loiro que aparente saúde e refinamento. “A ideia de ‘loira cara’ influencia muito. O luxo hoje está no acabamento, não no exagero.”
Ao mesmo tempo, o loiro visto no Grammy também carrega camadas sociais que antecedem o circuito de luxo. O cabeleireiro visagista e maquiador Fred Silveira lembra que o visual conhecido como “nevou”, usado para definir os platinados extremos, nasceu nas periferias cariocas. “Foi um ato de rebeldia, de pertencimento, de mostrar que se está ali”, afirma. Segundo ele, o estilo ganhou força mesmo sendo marginalizado e hoje circula em eventos globais.
Grammy Awards 2026: Zara Larsson
Getty Images
Para Fred, a mensagem atual do loiro não se limita ao luxo tradicional. “Esse tom diz ‘sou livre e posso fazer o que quiser’”, resume. Ainda assim, ele reconhece o alto custo envolvido. “É um tom complexo, que exige muita manutenção. Estamos vendo mais adeptos porque essas pessoas têm poder financeiro para manter o cuidado.”
A presença do loiro extremo em artistas de diferentes etnias também amplia o debate sobre identidade. Para Paula Acioli, esse movimento não reforça necessariamente um padrão único. “Quando artistas de todas as etnias adotam o loiro platinado, reafirmam a recusa de categorias fixas e rótulos étnicos”, afirma. Melissa complementa que a personalização é essencial. “O loiro é para todo mundo, desde que respeite o tom de pele, o contraste natural e a saúde do fio.”
