Treinar a mente e estimular a reserva cognitiva são cuidados que podem trazer benefícios ao longo da vida. Segundo o neurocirurgião e doutor em neurologia pela Universidade de São Paulo (USP) Emerson Magno de Andrade, desafiar o cérebro com atividades como xadrez, jogos de cartas ou de tabuleiro pode contribuir para preservar funções como memória, atenção, raciocínio, velocidade de processamento e planejamento.
De acordo com o especialista, esse tipo de estímulo também ajuda a adiar manifestações do declínio cognitivo. Embora considere os exercícios mentais importantes, Emerson é enfático: manter hábitos saudáveis ao longo dos anos tem um peso ainda maior quando o assunto é saúde neurológica.
“O sono, atividade física e relações sociais pesam muito. É importante cuidar de fatores de risco que podem ser modificados: colesterol alto, baixa escolaridade, perda auditiva, pressão alta, tabagismo, obesidade, depressão, sedentarismo, diabetes, excesso de álcool, poluição do ar e isolamento social.
Se todos fossem controlados, quase metade dos casos de demência poderia ser evitada ou adiada”, comenta. Para o especialista, a qualidade do descanso e a adesão ao padrão de alimentação mediterrânea também merecem atenção.
“Os jogos ajudam, mas não são as ferramentas mais importantes”, frisa. Entre as opções indicadas por Emerson para estimular diferentes habilidades cognitivas estão xadrez, buraco, bridge, dominó e os treinos adaptativos de velocidade de processamento.
No xadrez, conforme explica, o jogador precisa planejar, prever os movimentos do adversário, guardar diferentes possibilidades na memória e mudar de estratégia ao longo da partida. “E nunca uma partida é igual a outra”, acrescenta.
Buraco, bridge, dominó e outros jogos de tabuleiro são outras alternativas ótimas para trabalhar memória, raciocínio e cálculo. Para Emerson, existe ainda outro ponto positivo quando essas atividades são praticadas em grupo.
“Essas atividades também colocam o indivíduo envolvido com outras pessoas. Essa relação em volta da mesa conta muito, porque o isolamento social é um dos fatores de risco para demência”, comenta.
Entre as alternativas citadas, os treinos adaptativos de velocidade de processamento são os que, segundo o neurocirurgião, apresentam algumas das evidências científicas mais interessantes atualmente. “São exercícios no computador ou no celular que ficam mais difíceis à medida que a pessoa melhora”, explica.
Para Emerson, cada modalidade exige habilidades diferentes. Por isso, variar os estímulos pode ser mais interessante do que se concentrar sempre na mesma tarefa.
“Não adianta escolher uma única função. Memória, atenção, raciocínio, velocidade de processamento e planejamento funcionam juntos, e o jogo deve mexer com várias delas ao mesmo tempo”, diz.
O especialista ressalta que a atividade precisa continuar oferecendo algum grau de dificuldade. “É preciso que se mantenha nova, exija esforço e que, com o tempo, se torne mais difícil.
O problema é quando o jogo passa a ser automático, sem esforço mental. Quando estamos no piloto automático, o cérebro deixa de ser desafiado e o benefício praticamente desaparece”, comenta.
Os jogos on-line são igualmente aliados. Segundo Emerson, uma das vantagens do formato digital é a possibilidade de adaptar o nível de dificuldade conforme o desempenho do usuário.
“O digital tem a vantagem de, algumas vezes, ajustar a dificuldade sozinho e manter a pessoa sempre no limite do que consegue fazer. Isso faz com que a atividade seja ainda mais eficaz”, explica.
Embora não exista uma receita definitiva sobre frequência e duração, o médico avalia que é possível incluir de 20 a 30 minutos de prática, de três a cinco vezes por semana, na rotina. “Desafiar o cérebro faz bem em qualquer idade”, conclui.
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