'Neoconservadores em conserva': petistas esperam pesquisas para tentar reverter desgaste de Lula com evangélicos
Lideranças petistas avaliam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será obrigado a fazer gestos aos evangélicos para se recuperar do desgaste provocado junto a essa parcela do eleitorado por causa do desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio.
Partidos e parlamentares, sobretudo os ligados à bancada evangélica, passaram a explorar nas redes sociais imagens de uma das últimas alas da escola, a “Neoconservadores em conserva”, que trazia famílias dentro de latas, algumas com adereço com referência religiosa. Nas redes, representantes da direita criaram fotos de famílias, com auxílio de inteligência artificial, para ironizar a escola, enquanto outros afirmaram que irão judicializar o caso.
O entendimento entre os petistas é que, num primeiro momento, será necessário esperar um tempo para as críticas esfriarem. Um aliado afirma que as reações são resultado do impacto do desfile que ocorreu no domingo na Marquês de Sapucaí e que, com o tempo, elas irão arrefecer. Esse mesmo aliado reconhece, porém, que haverá um desgaste mais cristalizado no segmento, que historicamente tem rejeição a Lula e ao PT.
Petistas entendem ainda que será necessário fazer pesquisas, dentro de algumas semanas, para medir exatamente quais as consequências do episódio. A partir desses resultados, o presidente e o seu entorno terão que pensar em ações voltadas aos evangélicos. Na campanha presidencial de 2022, Lula lançou, às vésperas do segundo turno e depois de ser pressionado intensamente pelo seu entorno, uma “Carta ao Povo Evangélico” em que reafirmava seu compromisso com a liberdade de culto e de religião no país.
Agora, com o presidente em viagem à Ásia, qualquer iniciativa mais concreta só deve ser tomada após a sua volta ao país no meio da semana que vem.
Dirigentes do PT descartam a responsabilidade do partido no caso e dizem que não se envolveram na definição dos detalhes do desfile da escola, que homenageou Lula.
Já o presidente da legenda, Edinho Silva, disse que não há sentido em tentar desgastar Lula por causa do episódio.
— O presidente Lula sempre teve uma relação de muito respeito com a comunidade evangélica. Os líderes das igrejas sempre tiveram no presidente Lula um aliado na construção de políticas públicas para o fortalecimento das famílias brasileiras. Tentar desgastá-lo politicamente por conta das escolhas de alegorias da Acadêmicos de Niterói chega às raias do ridículo. O povo brasileiro merece um debate político mais qualificado — afirmou.
Um outro aliado do presidente diz, sob reserva, que desde o começo foi contra a ida de Lula ao evento justamente por considerar que não haveria ganhos políticos com o ato. Ele afirma que mesmo sem a participação do governo na idealização do desfile, as mensagens passadas pelas alegorias serão atribuídas à gestão Lula e ao próprio presidente. Ele afirma ainda que o desfile deu munição para ataques da oposição.
Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada neste mês, o índice de desaprovação de Lula entre os evangélicos é de 61%, ante 34% que aprovam a gestão. No geral, a taxa desfavorável ao governo é de 49% a 45%.
O desfile da Acadêmicos de Niterói criou tensão no governo nos últimos dias. A escola homenageou Lula, que compareceu ao sambódromo e viu a escola do camarote da prefeitura do Rio. A primeira-dama Janja iria desfilar, mas desistiu em cima da hora.
Na segunda-feira, o partido Novo e o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, anunciaram que vão acionar a Justiça Eleitoral para pedir a inelegibilidade do petista. A alegação é a de que o PT utilizou dinheiro público para fazer campanha antecipada durante o carnaval.
