Nem Medicina escapa: após MEC aceitar mais de uma nota no Sisu, cresce sobra de vagas na 1ª chamada da UFRJ
O número de vagas não preenchidas na primeira chamada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das melhores e mais cobiçadas instituições de ensino superior do país, cresceu 35% em 2026 na comparação com o ano anterior — e até mesmo cursos disputadíssimos, como Medicina e Direito, foram afetados. Na avaliação de educadores, os dados não refletem desinteresse na instituição, mas são reflexos de uma mudança na forma com que os alunos passaram a ser selecionados em 2026. As vagas não preenchidas vão para os candidatos que ficaram na lista de espera, que passa a ganhar mais relevância a partir deste ano.
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Por uma determinação do Ministério da Educação (MEC), o Sistema de Seleção Unificado (Sisu) deste ano foi o primeiro a aceitar as três últimas notas do candidato no Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Em novembro, a pasta justificou a mudança alegando que, assim, o número de vagas preenchidas aumentaria — o contrário do que ocorreu neste primeiro momento.
Na UFRJ, 4,2 mil (44%) dos 9,4 mil aprovados na chamada regular de 2026 não fizeram matrícula mesmo após um concorrido processo seletivo. No ano passado, foram 3,1 mil. Em Medicina, não foram preenchidas neste momento 97 (49%) das 200 vagas e, no Direito, 235 (65%) das 360 — um ano antes, foram 47 e 181, respectivamente. Isso significa que, nesses dois cursos, houve um crescimento de 106% e 29% de vagas que ficaram para quem ficou na lista de espera.
Por outro lado, 21 mil pessoas se inscreveram para tentar uma vaga no curso de Medicina da UFRJ, em 2025. Isso significa uma relação de 106 candidato por vaga — um patamar que tem se mantido estável nos últimos anos. Os dados de 2026 ainda não foram divulgados, mas nada indica que isso tenha diminuído. De acordo com a UFRJ, a lista de espera deste ano tem 41 mil pessoas — 24% maior do que no ano anterior, quando tinha 33 mil.
Repetição do problema
Até 2023, o Sisu tinhas duas seleções por ano — uma em janeiro para o primeiro semestre e outra em junho, para o segundo. Nesse formato, em que um aluno poderia usar a mesma nota do Enem do ano anterior nas duas seleções, o problema se dava na disputa para o segundo semestre. Isso porque os melhores alunos escolhiam suas vagas no começo do ano e, depois, voltavam a competir mesmo sem intenção de matrícula.
Frederico Torres, mestre pela UnB que acompanha o Sisu todo ano por ser criador do curso Mente Matemática, analisou os dados de aprovação do curso de Medicina da UFRJ em 2023 e viu que 46 dos 50 aprovados para o segundo semestre já tinham passado em outros cursos ou universidades no primeiro Sisu daquele ano.
— É verdade que eles poderiam estar querendo mudar de curso. No entanto, só 43 dos 50 aprovados realizaram a matrícula. O restante ficou para a lista de espera — explica o especialista.
De acordo com Torres, esse problema havia sido resolvido com o fim das duas seleções no ano, mas foi agora potencializado em 2026 com a possibilidade de que alunos aprovados em anos anteriores podem concorrer novamente com as mesmas notas. Segundo ele, esses candidatos fazem isso para colecionar aprovações com o objetivo de se autopromoverem ou de beneficiarem cursos preparatórios para o Enem.
— Muitos vendem monitorias próprias e, para isso, se baseiam na quantidade de vezes que são aprovados. Além disso, os próprios cursinhos preparatórios estimulam ex-alunos a incluir suas notas para aumentar número de pessoas que passaram no Sisu — diz.
Impacto para o aluno
Apesar dessas vagas a princípio não ficarem ociosas, já que poderão ser preenchidas pelos alunos que não foram aprovados e manifestaram interesse em ficar na lista de espera, esse fenômeno acaba transformando a dinâmica da competição do Sisu. Um dos efeitos, segundo Ademar Celedônio, diretor de Ensino e Inovações Educacionais da Arco Educação, é que a nota de corte da primeira chamada pode parecer “inflada” — já que muitos dos candidatos aprovados não ficaram realmente com as vagas e elas serão preenchidas com outros alunos que tiveram desempenho menor. Isso, diz o especialista, assusta candidatos que, na prática, teriam chance.
— E aí aumenta a desistência prematura: gente que “acha que não dá” e sai do jogo — explica o educador.
Com isso, muda também a estratégia do aluno, que acaba tendo menos informação para tomar sua decisão — num momento de ansiedade dos futuros universitários.
— Fica mais difícil saber se o aluno pode ou não ser aprovado porque ele não sabe quantas pessoas incluíram suas notas, mas não vão fazer a matrícula. As prévias (notas de corte apresentadas dia a dia para balizar a decisão do aluno) formavam uma expectativa realista. Agora, não — diz Torres.
Com isso, algumas escolas já estão reforçando as análises da lista de espera. Com a nota de corte da primeira chamada não sendo mais um parâmetro ideal, é preciso saber quanto tirou o candidato aprovado até as últimas reclassificações.
— Acho pouco provável que acabem com essa regra de três anos, mas uma regra adicional que minimizaria esse problema é não permitir que alunos já aprovados na chamada regular em anos anteriores utilizem a nota do ano anterior no Sisu atual — avalia Torres.
Em nota, o MEC afirmou que o processo seletivo de 2026 ainda não foi finalizado, considerando que as convocações por lista de espera ainda estão acontecendo, e que depois disso fará uma análise para avaliar a política pública. Também afirma que o modelo de classificação do Sisu é baseado exclusivamente nas notas obtidas pelo Enem e nas regras previstas em edital, “não havendo mecanismo que permita manipulação artificial de pontuações”.
Já a UFRJ, que não define as regras do Sisu, afirmou que o processo de seleção ainda está em andamento e todos os anos são preenchidas 95% das vagas oferecidas.
