Nem Havaí, nem Austrália: conheça surfistas que enfrentam até -20°C para buscar ondas no Ártico da Noruega; vídeo
Quando se pensa em surfe, a imagem mais comum costuma ser a de praias ensolaradas, água morna e verão sem fim. Mas, no extremo norte da Noruega, a realidade é outra: gelo, neve, escuridão e temperaturas negativas fazem parte da rotina de quem encara o Mar de Barents em busca da onda perfeita.
Foi apenas depois de sair da água gelada e parar para observar a tundra branca ao seu redor que o surfista Dylan Graves percebeu a dimensão do frio que enfrentava. Em dezembro, numa praia isolada no norte da Noruega, ele estava cercado por neve e gelo, usando apenas um grosso traje de neoprene e tentando recuperar a sensibilidade das mãos e dos pés.
Veja:
“Parecia que estava em algum planeta de gelo de ‘Star Wars’”, contou Graves à CNN, ao relembrar a experiência, no mês de abril.
Naquele dia, ele e outros surfistas enfrentavam os efeitos de um vórtice polar, uma grande área de baixa pressão com ar extremamente frio em rotação. Em poucos minutos, a temperatura despencou de cerca de -5°C para algo entre -15°C e -20°C. O grupo ainda precisou caminhar por mais de uma hora na neve para chegar ao mar e, depois, fazer o mesmo trajeto de volta ao carro.
Graves, que vive na Austrália e apresenta a série de YouTube “Weird Waves”, especializada em explorar lugares improváveis para o surfe, admite que esteve perto de sofrer queimaduras provocadas pelo frio extremo.
“Pensei: isso provavelmente não é bom”, disse à CNN. Ele chegou a combinar com os colegas que, se não recuperasse a sensibilidade em 30 minutos, iria direto para o hospital. A sensação voltou durante a longa caminhada de retorno, já no fim das poucas horas de claridade que existem em Finnmark nessa época do ano.
Dylan Graves pegando onda no ártico
YouTube
O inverno como melhor temporada
Para o surfista sueco Tim Latte, no entanto, esse cenário severo é justamente parte do encanto.
Criado em Estocolmo, ele se apaixonou pelo esporte durante férias em Fuerteventura, nas Ilhas Canárias, mas passou anos acreditando que precisaria deixar a Escandinávia para encontrar boas ondas. Durante muito tempo, destinos como Austrália, Estados Unidos e Portugal pareciam obrigatórios para quem queria evoluir no surfe.
Com o tempo, porém, Latte mudou de ideia. Depois de explorar o Mar Báltico e passar mais tempo na costa norueguesa, terra natal de sua mãe, percebeu que havia ali um território praticamente intocado.
“Está tudo praticamente por descobrir”, afirmou à CNN. “Dá para surfar o ano inteiro, mas a melhor altura é no inverno.”
Além das ondas fortes e da ausência de multidões, a região oferece uma experiência cultural singular. Finnmark abriga a maior população do povo indígena Sami da Noruega, cuja tradição está fortemente ligada à criação de renas. Estima-se que cerca de 80 mil samis vivam na Lapônia, território ancestral que se estende pelo norte da Escandinávia e pela península de Kola, na Rússia.
Graves, nascido em Porto Rico e hoje radicado na Austrália, diz que o contato com essa realidade tornou a viagem ainda mais marcante.
Segundo ele, ao chegar ao Airbnb onde estavam hospedados, os anfitriões deixaram um coração de rena como presente de boas-vindas, acompanhado de um bilhete sugerindo que o prato combinava bem com cerveja e batatas fritas. Para o surfista, experiências como essa tornam a jornada ainda mais especial.
Mais do que esporte, ele vê o surfe no Ártico como uma forma de se colocar diante do desconhecido.
“Que outra oportunidade vou ter de apanhar ondas muito boas sem ninguém por perto e, ao mesmo tempo, sentir-me completamente fora do meu ambiente normal?”, questionou à CNN. “O surfe ensina muito isso. Muitas vezes estamos quase em outro mundo.”
