Índia e big techs roubam holofotes em cúpula da IA, enquanto governança global perde força
A Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial (IA) de Nova Délhi, na Índia, que se encerra nesta sexta (20), reuniu governantes, pesquisadores e big techs conseguiu posicionar o país anfitrião como uma “terceira via”, entre Estados Unidos e China, e serviu como palco de anúncios dos grandes nomes do setor, mas viu questões de governança, concentração de mercado, impacto ambiental e direitos humanos ficarem em segundo plano.
Com 250 mil participantes, o evento ocorreu pela primeira vez em um país do Sul global, o que serviu como incentivo para que países da região buscassem protagonismo nas discussões — a ausência de times de primeiro escalão de EUA e China reforçou as chances de candidatos à terceira via. A Índia, com apoio de países como Brasil e Suiça, aproveitou para brilhar.
CEO da OpenAI: Mundo precisa regulamentar a IA 'urgentemente'
Marcelo Ninio: Na Índia, Lula faz coro com Modi e Macron em defesa da regulação da IA
“Devemos democratizar a IA. Ela deve se tornar uma ferramenta de inclusão e empoderamento, especialmente para o Sul Global. Seres humanos não podem ser transformados em dados”, afirmou Modi.
Apesar da tradição no setor de tecnologia, a Índia teve um começo lento em IA, algo que Narendra Modi, primeiro-ministro local, tentou reverter com uma série de investimentos. Seu governo anunciou US$ 200 bilhões para data centers nos próximos anos, com grande parte de entrada de capital estrangeiro. O movimento lembra o do governo brasileiro com o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que visa atrair data centers em troca de benefícios fiscais.
Os indianos também destinaram US$ 1,1 bilhão para seu fundo estatal de capital de risco, que investirá em startups de IA e manufatura avançada em todo o país. A startup Sarvam AI revelou modelos de IA ajustados para a realidade indiana. Outras startups locais, como Neysa e C2i, anunciaram aportes internacionais, incluindo da Blackstone, que já investiu na Anthropic. O governo de Modi também apresentou iniciativas para educação e geração de empregos em IA.
No caminho dos anúncios, as big techs aproveitaram a cúpula como palco para anúncios voltados para o Sul global, uma tentativa de mostrar que o capital da IA não está concentrado apenas nas grandes potências. Para isso, as grandes empresas enviaram seus nomes mais estrelados: Sam Altman (OpenAI), Sundar Pichai (Google), Demis Hassabis (Google), Alex Wang (Meta), Brad Smith (Microsoft) e Dario Amodei (Anthropic) passaram pelo evento — Bill Gates desistiu após ter seu nome ligado ao caso Epstein.
Entre os anúncios estão US$ 15 bilhões do Google e US$ 17,5 bilhões da Microsoft para a construção de infraestrutura para IA. Já a Anthropic e a OpenAI, que protagonizaram o momento mais constrangedor do evento, revelaram que vão abrir escritórios na Índia.
Modelo de governança em crise
Já o modelo de governança da IA, que hoje é fragmentado e permite muito poder nas mãos de grandes empresas de tecnologia, não conseguiu avançar para uma proposta de colaboração global. Antes mesmo do texto final, a Casa Branca afirmou que rejeita a proposta da Organização das Nações Unidas de criar um mecanismo internacional de governança para a inteligência artificial (IA).
"Como o governo (do presidente Donald) Trump já disse em muitas ocasiões: rejeitamos totalmente a governança global da IA", declarou. "Acreditamos que a adoção da IA não pode levar a um futuro mais promissor se estiver submetida a burocracias e ao controle centralizado", disse o conselheiro de tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios
Mais cedo, o secretário-geral da ONU, António Guterres, anunciou a criação de uma nova comissão voltada ao “controle humano” da IA. Segundo ele, a Assembleia Geral designou 40 especialistas para compor o Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial.
Ainda não há informações sobre o texto final da declaração que deve ser apresentada neste sábado (21), mas o GLOBO apurou que a versão inicial do documento enfraquece o poder da ONU em relação à governança de IA.
— Apesar da corrida acelerada pela IA, ainda não existe um espaço global claro onde os países consigam pactuar regras mínimas e padrões comuns — algo semelhante ao que foi construído para a governança da internet. No caso da internet, houve um processo articulado em torno da ONU, com mecanismos multissetoriais envolvendo governos, sociedade civil, setor privado e academia. Na IA, vemos várias iniciativas surgindo, mas ainda de forma fragmentada. O Brasil deixou claro que aposta na ONU como o espaço legítimo para essa coordenação global, apesar de o espaço estar sendo atacado e enfraquecido pelo governo dos Estados Unidos — disse ao GLOBO Fernanda Campagnucci, diretora-executiva do InternetLab que está na Índia.
O tom otimista de anúncios bilionários contrasta com a percepção de poucos avanços em direitos e outros temas sensíveis ligados à tecnologia.
— Do ponto de vista das entidades civis, foi uma cúpula limitada e contida. Não há nenhuma questão vinculante nos documentos que vão sair. O governo indiano ignorou a experiência de 20 anos para criar métodos multissetoriais de governança, como a experiência do Brasil no CGI. Os métodos de participação significativa não foram usados — conta Rafael Zanatta, codiretor da Data Privacy Brasil que participou da cúpula.
São questões que Bruna Santos, gerente de políticas públicas e incidência na WITNESS, espera que sejam resolvidas para a edição de 2027:
— O desafio agora fica na mão da Suíça, que é historicamente um aliado do multissetorialismo e tem lembrado os delegados da importância deste modelo. Mas ficaram muitas questões em aberto, como reaproximar os AI Summits da ONU e garantir a reintrodução das discussões sobre direitos humanos no evento.
