A Dominion Energy instalou 44 das 176 turbinas do parque eólico marítimo que constrói ao largo da Virgínia, nos Estados Unidos, e já começou a erguer a 45ª. O balanço do terceiro trimestre da companhia, divulgado em 30 de outubro e noticiado pelo portal especializado OffshoreWIND.biz, indica que um quarto da usina de 2,6 gigawatts está de pé.
A primeira unidade subiu em janeiro deste ano e a primeira energia chegou à rede em março. Cada turbina passa a gerar assim que é fixada ao leito marinho, sem esperar o conjunto ficar completo.
A usina ocupa águas federais ao largo de Virginia Beach e vai operar com 176 máquinas Siemens Gamesa de 14 megawatts, cada uma com pás de mais de 100 metros. Quando estiver pronta, será o maior parque eólico marítimo dos Estados Unidos e um dos maiores do mundo em potência instalada, o equivalente a pouco menos de um quinto de Itaipu.
O primeiro navio que a lei americana exigiu A montagem está a cargo do Charybdis, primeiro navio instalador de turbinas eólicas construído sob a Lei Jones, de 1920.
A norma reserva o transporte entre portos americanos a embarcações construídas, registradas e tripuladas no próprio país. O barco saiu do estaleiro AmFELS, da Seatrium, em Brownsville, no Texas, por encomenda da própria Dominion.
Tem pernas que descem até o fundo e erguem o casco acima da linha da água, plataforma estável para o guindaste que iça torre, nacele e pás. O primeiro parque marítimo americano entrou em operação em 2016, com cinco turbinas e 30 megawatts ao largo de Rhode Island.
O salto para 2,6 gigawatts exigiu um navio que não existia na frota nacional, e a elétrica de Richmond decidiu financiar o seu. A conta de fabricar em casa
O custo nivelado de energia do projeto caiu de US$ 83 para US$ 62 por megawatt-hora entre uma atualização trimestral e a seguinte. A medida distribui todo o investimento pela energia que a usina deve produzir ao longo da vida útil.
A melhora não veio de equipamento mais barato. O custo bruto de geração segue estável em US$ 100 por megawatt-hora, e a diferença de US$ 38 vem dos créditos de energia renovável, títulos negociados para cada megawatt-hora limpo gerado.
O calendário também escorregou. A Dominion previa concluir a instalação no início de 2027 e agora projeta a 176ª turbina para o fim de 2027.
A empresa atribui a folga ao clima, à manutenção do navio, ao carregamento de peças em terra e a içamentos mais demorados. Diz que o ritmo básico de instalação segue em uma turbina a cada dois dias, fora esses intervalos.
Duas das três subestações marítimas já estão comissionadas, e a terceira deve ser energizada até o fim de 2026. Turbina europeia, casco americano
As 176 máquinas são da Siemens Gamesa, fabricante de origem alemã e espanhola. A cadeia que o projeto nacionaliza é a do transporte e da instalação, não a do aerogerador.
O casco, o guindaste e a tripulação são americanos. A turbina, não.
A soberania industrial que a obra exibe vale para a ferramenta que a constrói. O gargalo que define o prazo
Navios capazes de içar turbinas de 14 megawatts são poucos no mundo e estão concentrados no norte da Europa e na Ásia. Quem encomenda um parque disputa as mesmas embarcações, e um casco novo leva anos entre a contratação e a primeira viagem.
O Brasil aprovou em 2025 o marco legal da eólica marítima e ainda depende de regulamentação para destravar projetos. Nenhum aerogerador gira hoje em águas brasileiras, e o litoral com melhor vento fica no Nordeste e no Sul.
A experiência da Virgínia mostra as duas faces da conta. Exigir navio nacional cria estaleiro, emprego e conhecimento em engenharia naval, ao mesmo tempo que encarece a obra e empurra o cronograma.
O projeto americano também não se paga com a venda de eletricidade no mercado. Só fecha com crédito fiscal em cima de cada megawatt-hora gerado, o que relativiza a lição de autossuficiência vendida junto com as turbinas.
A 176ª turbina deve ficar de pé no fim de 2027. Até lá, o Charybdis segue içando uma unidade a cada dois dias de mar manso, e parte da conta de cada uma continua dependendo do certificado verde para fechar.
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