A procura por resultados discretos tem mudado a forma como tecnologias e injetáveis são indicados nos consultórios de dermatologia. Em vez de transformações marcantes, o foco se desloca para a qualidade da pele e para a preservação dos traços individuais, com planos personalizados que distribuem diferentes recursos ao longo do tempo.
Em São Paulo, a dermatologista Kátia Volpe, que dirige a clínica que leva seu nome, com unidades em Cidade Jardim e em Alphaville. O atendimento da Clínica Kátia Volpe é organizado a partir dessa lógica: tecnologias e procedimentos injetáveis são combinados entre si e associados a hábitos de vida que influenciam a qualidade da pele.
"Não existe uma pele desconectada do organismo; o procedimento é apenas uma parte do cuidado", afirma a especialista. O movimento acompanha a ampliação da oferta de tecnologias na estética, hoje mais presentes nos consultórios e mais conhecidas pelos pacientes.
Na reunião anual da Academia Americana de Dermatologia (AAD), em 2025, um painel de especialistas apontou o avanço de laser, radiofrequência e ultrassom, com aplicações na pele, contorno corporal e restauração capilar. Além disso, foi discutido o papel das redes sociais, como Instagram, TikTok e YouTube, que influenciam o interesse e as expectativas de quem busca os tratamentos.
Com a ampliação do acesso, o critério de indicação passa a ter peso maior do que a variedade de equipamentos disponíveis. Uma revisão de literatura publicada em 2025 no Brazilian Journal of Biological Sciences comparou laser fracionado, radiofrequência e ultrassom microfocado e concluiu que não há uma tecnologia superior de forma absoluta.
Segundo o estudo, os métodos têm indicações complementares, e a escolha depende de avaliação personalizada e do perfil de cada paciente. Importância da avaliação antes da escolha de tratamento
"Existe um princípio que orienta minha prática: eu não começo pelo procedimento. Eu começo pela pessoa", ressalta Dra.
Kátia Volpe. De acordo com a médica, antes de qualquer plano, são avaliados qualidade da pele, anatomia, estrutura facial, proporções, flacidez, histórico, processo de envelhecimento e expectativas, o que permite combinar recursos em momentos distintos.
"Quanto mais tecnologias temos disponíveis, mais importante se torna o discernimento médico para saber quando utilizá-las e quando não utilizá-las", completa. Cada recurso atua em uma camada diferente da pele.
O laser fracionado de CO2 cria microzonas de aquecimento que estimulam a renovação da superfície cutânea, enquanto a radiofrequência aquece a derme e, conforme uma revisão integrativa publicada em 2024, pode estimular fibroblastos na produção de colágeno e elastina. Já o ultrassom microfocado alcança estruturas mais profundas, associadas à sustentação facial.
Para a dermatologista, o conceito de resultado natural não se resume à redução de intervenções. "Naturalidade, para mim, não significa simplesmente fazer menos.
Significa fazer o necessário, na medida certa, respeitando anatomia, idade, características individuais e, principalmente, identidade", enfatiza. "Um resultado natural e elegante não deveria anunciar o procedimento", acrescenta.
Hábitos e qualidade da pele Com formação em Ginecologia, Dermatologia, Nutrologia e Longevidade, a Dra.
Kátia Volpe considera que sono, alimentação, atividade física, exposição solar, alterações hormonais e estresse podem repercutir na qualidade cutânea ao passar dos anos. Na clínica, essa visão se organiza em três frentes, denominadas Wellness, Skin e Longevity, e em cinco pilares de acompanhamento: sono, alimentação, gerenciamento de estresse, suplementação e atividade física.
"Podemos utilizar tecnologias para estimular colágeno e melhorar textura, firmeza e qualidade cutânea. Podemos trabalhar com injetáveis quando existe indicação.
Mas nenhum procedimento substitui os fundamentos de uma vida bem cuidada", diz a médica. Na avaliação dela, o sucesso de um tratamento não se mede apenas pelo efeito imediato, mas pela qualidade da pele construída e preservada com o passar dos anos.
Expectativas e informação A exposição constante a filtros, comparações e tendências nas redes sociais também interfere na demanda que chega ao consultório.
Por isso, a dermatologista procura entender se o desejo de passar por um tratamento nasce de uma escolha consciente ou da tentativa de corresponder a padrões externos. "Meu papel como médica não é simplesmente executar aquilo que me pedem.
É avaliar, orientar, alinhar expectativas e ter responsabilidade suficiente para dizer 'isso não é necessário' quando essa for a melhor conduta", acentua. Foi a partir dessa preocupação que surgiu a Academia da Beleza Real, curso online com 25 aulas de cinco minutos sobre tipos de pele e cuidados.
Entre os conteúdos, a médica mostra que a divisão entre pele seca, oleosa ou mista pode ser insuficiente, já que há sistemas de classificação que chegam a 16 perfis cutâneos. "A proposta não é substituir a consulta médica nem estimular autodiagnóstico.
É oferecer conhecimento para que as pessoas façam perguntas melhores, compreendam seus limites e tomem decisões mais conscientes", detalha. Esse olhar de longo prazo orienta o planejamento de cada paciente, que pode reunir cuidados domiciliares, prevenção, acompanhamento médico, ajustes de rotina, tecnologias e, quando indicados, injetáveis.
A ideia é substituir respostas pontuais a cada nova tendência por escolhas progressivas e sustentáveis. "Envelhecer não é uma doença.
E cuidar da aparência não precisa significar negar a idade", resume a especialista. "Não se trata de apagar o tempo.
Trata-se de atravessá-lo bem", conclui a Dra. Kátia Volpe.
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O Globo