Natalia Ginzburg retrata com leveza relações familiares em época conturbada

 

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Lançado originalmente em 1961, “As vozes da noite” pertence à primeira fase da atividade literária da escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991). Conhecida por romances como “Léxico familiar”, “A família Manzoni” e “Caro Michele”, Ginzburg tem uma obra variada que abrange contos, romances, ensaios e peças de teatro — uma produção que a coloca entre os principais nomes da literatura italiana da segunda metade do século XX.

A narradora de “As vozes da noite” é uma jovem chamada Elsa, que passa seus dias e seus anos observando o microcosmo de uma pequena cidade no interior da Itália: “era outubro, começava a fazer frio”, ela escreve, “no vilarejo às nossas costas os primeiros lampiões já estavam acesos”. As famílias estão entrelaçadas e, no centro, “a fábrica”, que dá sustento a muitos dos personagens — antes de qualquer um, o dono, “o velho Bolota”: “Moramos no vilarejo há muitos anos. O meu pai é o contador da fábrica. O vilarejo inteiro vive em função da fábrica”.

'Autoanálise'

Ao redor desse patriarca, filhos e filhas, agregados, funcionários e vizinhos Neblina, Basco, Gemmina, a senhora Cecilia e assim por diante. Elsa dá conta dos anos do fascismo e da guerra, às vezes voltando atrás para suprir lacunas, mas alcançando também toda a extensão dos anos 1950. Durante a leitura, a passagem do tempo é perceptível, mas o foco da narrativa jamais se desloca em direção a grandes eventos ou reflexões sobre as mudanças sociais — essa contenção é um dos traços distintivos de “As vozes da noite”.

Não é por acaso que Ginzburg retome a ideia da “família” em tantos de seus livros: uma narrativa que busque explicar e desenvolver as relações dentro de um núcleo familiar tem, dentro de si, um motor que pode funcionar ao longo de muitas páginas. Em “As vozes da noite” não é diferente, e nesse aspecto é muito instrutivo prestar atenção às palavras que a própria Ginzburg oferece a respeito de seu processo criativo — a edição brasileira incorpora um ensaio de “autoanálise” da autora como posfácio.

A insistência de Ginzburg com a família é, por outro lado, uma forma de filiação com outros nomes da tradição literária — como Tolstói e Thomas Mann, no contexto internacional, ou Alessandro Manzoni, no contexto nacional.

Outro aspecto importante da narrativa é seu dinamismo. Ginzburg nunca fica muito tempo em um personagem ou cena, a atenção de sua narradora é fluida, leve, os laços entre os indivíduos são construídos aos poucos, em breves pinceladas. O tempo passa, mas também de forma sutil, “natural”, sem grandes saltos ou lapsos. Ginzburg consegue imprimir à narrativa um ótimo equilíbrio entre construção dos personagens (detalhes, fisionomias, manias), das cenas (ambientação, clima, adereços) e dos diálogos. A ênfase, no entanto, está sempre nesses últimos: é a partir da voz das pessoas que Ginzburg dá forma e consistência ao seu universo.

“Mas como chora! Uma verdadeira manteiga derretida!”, diz Raffaella para Cate. “Como esse vilarejo é feio! Como é feio, é um vilarejo muito, muito feio!”, diz Cate para Vincenzino. “Se eu tivesse esse tanto de dinheiro, não estaria aqui. Andaria sempre por aí, para aproveitar o mundo, viajar”, diz Betta para Tommasino. “Às vezes, do portão, observo quando você passa. Tem um jeito de caminhar que dá para ver bem que não está contente”, diz Giuliana para Elsa. “Se pelo menos você estivesse contente! Mas não, não está contente, e eu não entendo o que você quer!”, diz Tommasino para Elsa.

São essas vozes que, combinadas, dão sustentação ao romance de Ginzburg. Através dos diálogos, a trama é construída de forma sutil, oblíqua, a partir de sentimentos e percepções variadas, e não a partir de uma consciência única, que organizaria o romance do alto.

A sensibilidade de Ginzburg garante que esse arranjo de vozes seja, ao mesmo tempo, eficaz em termos narrativos e tocante em termos psicológicos — uma combinação que faz de “As vozes da noite” um romance acessível e agradável.

Kelvin Falcão Klein é crítico literário