A NASA reuniu jornalistas numa conferência de imprensa demorada e apresentou, pela primeira vez de forma detalhada, a arquitetura com que pretende voltar a pôr astronautas na superfície da Lua. O objetivo declarado é 2028, no âmbito do programa Artemis.
A mudança mais relevante não está nos foguetões nem nos landers: está na Orion. Durante anos, a cápsula tripulada da NASA arrastou uma limitação incómoda.
Com o módulo de serviço que tem, não dispõe de capacidade de propulsão suficiente para partir da Terra, entrar em órbita lunar baixa e regressar para amarar no Pacífico. A solução encontrada foi contornar o problema com o Lunar Gateway, colocado numa órbita de halo quase retilínea que a Orion conseguia alcançar.
Depois, a responsabilidade de fazer o resto do caminho passava para os landers. Essa arquitetura foi desmontada.
O Gateway foi cancelado este ano e a NASA está agora a trabalhar com a United Launch Alliance num estágio superior Centaur V “extended”. Combinado com o estágio central do Space Launch System, deverá dar à Orion a capacidade de chegar a órbita lunar baixa.
É uma alteração técnica com consequências práticas em toda a cadeia da missão. A informação foi avançada originalmente por Ars Technica.
Colocar a Orion a algumas centenas de quilómetros da superfície lunar reduz de forma significativa o propelente que o lander Blue Moon, da Blue Origin, precisa de gastar para descer e voltar a subir. Essa massa pode ser usada noutras partes do veículo.
A órbita mais baixa oferece ainda mais oportunidades, e mais rápidas, para retirar astronautas da superfície em caso de necessidade. Jared Isaacman, administrador da NASA, resumiu a lógica: resolver os problemas de propulsão e integração da Orion que ficaram demasiado tempo sem resposta.
A NASA admite agora as duas opções para a Blue Origin, a órbita elíptica a cerca de 8500 km apresentada nos gráficos e a órbita lunar baixa. Para a SpaceX, a exigência de acoplar a Orion numa órbita de halo quase retilínea desapareceu.
Era precisamente o principal pedido dos engenheiros da empresa nas reuniões com a agência no início de 2026. No caso da SpaceX, o plano revisto passa por abastecer a Starship em órbita terrestre baixa e só depois acoplar à Orion em órbita terrestre alta.
A tripulação segue para a Lua dentro da Orion e dois dos quatro astronautas transferem-se para a Starship para a alunagem. O AndroidGeek já tinha abordado este contexto em Artemis II: astronautas observam seis impactos de meteoritos na Lua em tempo real: Durante o flyby da Artemis II, a tripulação observou seis impactos de meteoritos na Lua em tempo real.
Os clarões ajudam a afinar a estimativa da frequência de. Fica por resolver uma questão que a NASA preferiu não quantificar.
Um painel de segurança da agência reportou cerca de 22 lançamentos de abastecimento necessários para encher os depósitos da Starship. Elon Musk contestou e falou em seis a oito.
Na sessão de perguntas e respostas, Isaacman disse que esse número era possível, mas representava o “estado final potencial” do veículo, não o cenário atual. A incerteza é real e tem nome: capacidade de carga útil da Starship, evaporação do metano e do oxigénio líquidos em órbita e eficiência da transferência de propelentes entre naves.
Convém separar o que é facto do que é promessa. A arquitetura foi apresentada e confirmada pela NASA.
Os números de reabastecimento, não. E a diferença entre 6 e 22 lançamentos não é um detalhe de contabilidade: define o ritmo industrial, o custo e a margem de erro de cada missão lunar.
A Blue Origin também mexeu nos planos para responder ao pedido de maior rapidez. Nas missões iniciais deixa de precisar de reabastecimento entre veículos.
Um New Glenn lança três estágios de transferência para órbita terrestre baixa, derivados do lander Blue Moon Mark 1 mas com modificações relevantes. Depois, outro New Glenn lança o lander Blue Moon Mark 2, que se junta aos estágios de transferência, e o conjunto segue para a Lua.
A NASA não especifica se o foguetão será a versão descartável 7×2 ou a reutilizável 9×4. A NASA continua a apontar o verão de 2027 para a Artemis III, uma demonstração com acoplamento à Blue Moon e à Starship perto da Terra, e 2028 para a Artemis IV, a primeira alunagem efetiva.
Isaacman descreve este percurso como exequível e garante mandato, recursos e apoio das partes interessadas. O historial do programa aconselha prudência.
A agência apresentou estas datas como objetivos de trabalho, não como compromissos fechados, e a própria conferência serviu para reconhecer alterações substanciais na arquitetura. Uma coisa é ter um plano coerente no papel.
Outra é ter os veículos, os estágios e o cadastro de lançamentos a responder dentro do prazo. Para o leitor português, o impacto direto é limitado.
Não há preços, lojas nem disponibilidade nacional a anunciar, e as fontes fornecidas não esclarecem qualquer envolvimento português no programa. O interesse é sobretudo tecnológico e científico: a arquitetura do Artemis condiciona o ritmo da investigação lunar e o tipo de missões que poderão ser planeadas na próxima década.
Há, ainda assim, uma lição de engenharia que atravessa o setor. Durante anos, a NASA preferiu construir desvios em vez de corrigir a limitação de base da Orion.
O reconhecimento de que o problema devia ter sido resolvido há mais tempo, nas palavras de Isaacman, é invulgarmente direto para uma agência que raramente admite atrasos estruturais desta forma. A próxima decisão a acompanhar é técnica e pouco espetacular: o desenvolvimento do Centaur V “extended” com a ULA.
Se esse estágio não cumprir o que promete, a órbita lunar baixa volta a ficar fora de alcance e o plano agora apresentado perde uma das suas peças centrais. Leiam as últimas notícias do mundo da tecnologia no Google News , Facebook e X (ex Twitter) .
Android Geek