Não se culpe: a ciência explica por que é tão difícil trocar o sofá pelo exercício regular
Você provavelmente já se cansou de ouvir que a atividade física faz bem e deveria praticá-la. Basta olhar ao redor: gente correndo no bairro, academias cheias, vídeos de treino aparecendo o tempo todo nos feeds de notícias das plataformas digitais. A impressão é de que todo mundo se exercita.
Mas essa sensação é enganosa. Ela nasce de um atalho comum no nosso cérebro: damos mais peso ao que vemos com frequência no nosso entorno imediato — e, hoje, isso inclui as redes sociais. É o que podemos chamar de ilusão do mundo ativo. Na prática, uma série de pesquisas tem mostrado o contrário: a população mundial está mais inativa do que nunca.
Essa contradição levanta uma pergunta incômoda: se há uma quantidade crescente de boas evidências científicas documentando que se movimentar é importante para cuidar do nosso bem mais precioso — a saúde — por que ainda escolhemos o sofá?
Essa questão não é nova para mim. Ela começou a me intrigar há cerca de 15 anos, quando comecei a dar aulas em uma academia de musculação. Desde então, entre prática e pesquisa, fui percebendo que o problema não está apenas no acesso à informação, mas em algo mais profundo: o modo como nos motivamos, fazemos escolhas e tomamos decisões no dia a dia.
A dificuldade de aderir
Aderir à atividade física é um dos grandes desafios da saúde pública contemporânea. Apesar de décadas de campanhas, diretrizes e recomendações, como as da Organização Mundial da Saúde, grande parte da população ainda não atinge os níveis mínimos de atividade física. E ainda que o conhecimento sobre os benefícios do exercício se expandiu enormemente, os níveis de sedentarismo permanecem altos — e, em muitos casos, aumentaram.
Isso revela um limite importante do modelo tradicional de comunicação nesse campo: a ideia de que informar é suficiente para mudar comportamento. Não é o que vemos. É nesse contexto que se insere um artigo recente em que colegas e eu reunimos evidências de diferentes áreas para entender por que as diretrizes atuais não têm produzido os efeitos esperados.
No comentário científico “Base comportamental humana para recomendar mudanças nas diretrizes de atividade física”, publicado em 2026 na revista Sports Medicine and Health Science, mostramos que o descompasso entre as recomendações e a forma como as pessoas realmente tomam decisões no dia a dia.
Evidências cada vez mais consistentes mostram que o comportamento humano não é guiado apenas pela racionalidade. Saber que algo é bom não significa, necessariamente, fazê-lo. Não por acaso, estudos indicam que quase metade das pessoas que pretendem se exercitar não consegue transformar essa intenção em ação.
De olho nas recompensas
Para entender esse descompasso, é preciso olhar para além da lógica e considerar fatores comportamentais. Do ponto de vista psicológico, o exercício físico envolve custos imediatos (como esforço, tempo, desconforto e às vezes dinheiro), enquanto muitos dos seus benefícios mais valorizados (como prevenir doenças ou aumentar a longevidade) estão no futuro.
Nesse cenário, nosso cérebro tende a favorecer recompensas imediatas. Esse fenômeno, conhecido como desconto hiperbólico, ajuda a explicar por que é tão fácil trocar um treino por permanecer deitado no sofá, “rolando” as redes sociais ou assistindo a uma série. São atividades recompensadoras no presente, ainda que nem sempre benéficas no longo prazo.
Além disso, a decisão de se exercitar não passa apenas por cálculos conscientes. Emoções, hábitos, experiências anteriores e contexto social exercem um papel decisivo — muitas vezes automático. É aqui que entra um ponto central destacado pelas pesquisas mais recentes — e reforçado pelo nosso comentário científico: o que sentimos durante a prática importa muito.
Evidências mostram que experiências positivas durante o exercício, e não apenas após, aumentam significativamente as chances de continuidade. Por outro lado, sensações de desconforto, vergonha ou inadequação podem gerar rejeição duradoura. Isso ajuda a explicar por que motivações iniciais — geralmente ligadas à saúde, ao condicionamento físico ou à estética — são importantes, mas insuficientes para sustentar o hábito.
Prazer na experiência faz diferença
Na prática, todo mundo conhece alguém que passou por isso: começou a se exercitar com muita vontade e empolgação, mas, passadas algumas semanas, desistiu. O problema aí não era falta de informação — era a experiência.
A psicologia do exercício mostra que essas experiências constroem uma espécie de memória afetiva, que influencia — muitas vezes de forma automática — a decisão de repetir ou evitar o comportamento. Sentimentos de autonomia, competência e pertencimento também entram nessa equação: são necessidades psicológicas fundamentais para sustentar a motivação ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo, fatores mais amplos não podem ser ignorados. Mudanças sociais como urbanização, uso intensivo de tecnologias e redução do movimento no trabalho e no deslocamento, contribuíram para um cotidiano estruturalmente mais sedentário. Além disso, nem toda atividade física é equivalente: esforços intensos e repetitivos em contextos de trabalho, com baixa autonomia e alto desgaste, nem sempre produzem os mesmos benefícios à saúde que atividades realizadas no lazer. Esse chamado “paradoxo da atividade física” reforça a necessidade de abordagens mais nuançadas.
Novos pontos de vista
A ciência ainda está avançando nessa resposta, mas o que encontramos até agora indica alguns caminhos consistentes. Pessoas tendem a relatar mais prazer em atividades de intensidade leve a moderada (embora algumas prefiram intensidades mais elevadas), realizadas em ambientes agradáveis — como ao ar livre e em contato com a natureza. Tornar o exercício uma atividade social, incorporar música e, sobretudo, permitir algum grau de escolha e autonomia também são estratégias que favorecem a aderência.
Diante desse quadro, as evidências apontam para uma mudança importante de perspectiva. Se quisermos, de fato, aumentar os níveis de atividade física da população, precisamos ir mais além do que dizer às pessoas o quanto e por que se exercitar. É necessário considerar como elas vivenciam essa prática no cotidiano.
Isso implica valorizar outras dimensões muitas vezes negligenciadas: prazer, autonomia, contexto social e benefícios imediatos. Talvez estejamos mais interessados no que podemos ganhar no curto prazo quando nos movimentamos — e esses ganhos são potentes, reais e começam no momento em que o corpo entra em ação, como melhora do humor, redução da ansiedade e sensação de bem-estar.
Em outras palavras, pode ser que o caminho não seja reforçar apenas que o exercício “faz bem no futuro”, mas ajudar as pessoas a entender que ele já vale a pena agora. Porque, no fim, você precisa se sentir bem para querer repetir. E talvez seja justamente essa inversão de lógica que esteja faltando: entender que o exercício físico não serve apenas para adicionar anos à vida — mas para adicionar vida aos anos.
*Fábio Dominski é Doutor em Ciências do Movimento Humano e Graduado em Educação Física, Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
