‘Não quero ser a mulher biônica’: no Maio Amarelo, conheça o drama das vítimas de acidentes de moto no Rio

 

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"Não quero ser a mulher biônica". A frase foi dita por Luana Garcia da Silva Machado, de 33 anos. Vítima de um grave acidente de moto em 19 de abril, quando o veículo conduzido por um amigo bateu de frente com um ônibus na descida do Joá, na Zona Sudoeste do Rio, ela quer parar de andar no veículo de duas rodas. O piloto morreu no acidente, e Luana sofreu múltiplas fraturas. Operou os braços direito e esquerdo. Mas, mesmo estabilizado, seu fêmur esquerdo ainda depende de cirurgia. A intervenção foi colocada no chamado mapa cirúrgico três vezes. Mas os agendamentos acabaram adiados por emergências. Moradora do Vidigal, na Zona Sul da capital, ela segue internada no Hospital municipal Miguel Couto.

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— Preciso esperar minha vez — conforma-se Luana. — Pegava muita moto de aplicativo. Vou evitar.

Na última semana, um vídeo chocante mostrou um acidente envolvendo uma motocicleta na Gávea, na Zona Sul do Rio. O piloto do veículo avançou um sinal na Rua Marquês de São Vicente, uma das principais vias do bairro da Zona Sul, acertou uma criança e a arremessou cerca de meio metro à frente. Por sorte, a menina não sofreu lesões graves e recebeu alta do Miguel Couto após passar por exames.

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Unidades de saúde sofrem impactos

A despeito das campanhas e do movimento internacional Maio Amarelo, voltado para reduzir os acidentes e as mortes no trânsito, números mostram o crescimento das vítimas: motocicletas e similares — como ciclomotores e autopropelidos — são os grandes vilões. Com frota em expansão, fiscalização insuficiente e infrações sem freio, as unidades de saúde, que têm capacidade finita, acabam sofrendo o impacto: cirurgias eletivas precisam ser postergadas, e os estoques de bolsas de sangue mínguam, obrigando a realização de constantes campanhas de doação.

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— Os acidentes de trânsito deixaram de ser somente uma questão de transporte, passando a ser uma questão de saúde pública. Ano após ano, vêm aumentando, principalmente os de moto. De cada dez acidentados de trânsito que são atendidos em nossa rede, sete são de moto — lamenta o secretário municipal de Saúde do Rio, Rodrigo Prado. — Não tem jeito. Aumenta o número de emergências, tenho que reduzir as eletivas, deixando o paciente internado por mais tempo. Às vezes, tenho sala, tenho profissionais, mas não tenho sangue para repor o gasto numa emergência e preciso adiar uma eletiva.

Um internado por hora

Vítimas de motos/Estado do Rio

Editoria de Arte

Dados do sistema DataSUS, extraídos a pedido do GLOBO pelo Grupo IAG Saúde e pela Planisa — que atuam em gestão e tecnologia para a saúde —, revelam que, numa década (2015/2025), 1.736 pessoas morreram no estado do Rio devido a acidentes com motos. No período, esses veículos acarretaram 67.180 internações nas unidades públicas fluminenses. Só em 2025, foram 10.106 hospitalizações, ou um paciente internado por hora, em média.

Em 2015, as internações por acidentes desse tipo no estado eram a metade. Apenas na cidade do Rio, em 2025, foram 1.545 hospitalizados. São Gonçalo veio em segundo lugar, com 1.230. E todos os 92 municípios do estado tiveram pelo menos um paciente internado por acidente envolvendo motocicletas.

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Segundo a Secretaria estadual de Saúde, o gasto com tais internações nas redes públicas do estado, entre 2019 e 2026, alcançou R$ 97 milhões: o terceiro no ranking das causas externas, só perde para quedas e “exposição à corrente elétrica, à radiação e às temperaturas e pressões extremas do ambiente”.

Vítimas de motos

Editoria de Arte

Os valores se multiplicam nos cálculos do IAG Saúde e da Planisa, chegando a R$ 850 milhões na década analisada. Os consultores estimam o custo médio da internação de cada vítima de moto em R$ 12.340,99.

Cifras à parte, há o sofrimento dos pacientes. Gerente de um restaurante em Botafogo, Irismar Pereira Neves, de 56 anos, voltava do trabalho para sua casa no Itanhangá, de madrugada no fim do mês passado, quando os pneus da sua moto derraparam próximo à Rocinha. Na queda, sofreu uma pancada no pulmão e precisou drenar a secreção. Ele também fraturou o tornozelo direito e precisará de cirurgia.

— Pilotava há três anos. Nunca tinha sofrido acidente. Respeito o trânsito. Os bombeiros falaram que tinha óleo na pista. De moto, vou do trabalho para casa em 16 minutos. De ônibus, são mais de duas horas. Mas vou vender a moto e andar de ônibus. A dor para drenar o pulmão foi muita — conta Irismar, internado numa enfermaria do Miguel Couto, onde, segundo o diretor Cristiano Chame, cinco dos sete pacientes eram vítimas de moto na última quarta-feira.

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O impacto das vítimas de motos é tanto que, em dois hospitais municipais do Rio, o Andaraí e o Barata Ribeiro, na Mangueira, foram criadas alas da ortopedia exclusivas para esses pacientes, com 62 leitos no total.

1 paciente, 20 bolsas de sangue

A 39 quilômetros do Miguel Couto, no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo, referência no atendimento de traumas com alta complexidade, a situação não muda. Lá, a internação de vítimas de trânsito aumentou 30% nos quatro primeiros meses deste ano em relação a igual período de 2025. A situação se torna ainda mais grave se consideramos que 80% deles estavam pilotando ou na garupa de uma moto.

Uma ambulância com mais uma vítima chega ao Heat

Alexandre Cassiano

— No domingo passado (retrasado), teve um paciente de moto que consumiu 20 bolsas de sangue (cada uma tem cerca de 450 gramas). Esses pacientes muitas vezes são graves e necessitam de sangue, cirurgias e até meses de internação — diz Marcelo Pessoa, coordenador do Centro de Trauma do Heat.

O mecânico Luiz Henrique Araújo Siqueira, de 21 anos, está internado no CTI da unidade desde 21 de janeiro. Com traqueostomia, ainda não tem previsão de alta. Ficou um mês desacordado: os médicos consideram um milagre ele estar vivo. A irmã Larissa conta que o jovem foi fechado por um caminhão na BR-101, em Rio Bonito, batendo na moto de um amigo, que estava na frente e que Luiz tinha acabado de consertar.

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— O meu irmão teve que retirar o baço, teve secreção no pâncreas, quebrou o braço esquerdo. Perdi as contas das cirurgias que ele precisou fazer — explica Larissa.

Também internado no Heat, outro motociclista, Diogo dos Santos Nunes, de 34 anos, sofreu quatro acidentes de moto e um como carona de um carro. No primeiro, em 2017, quebrou o fêmur e foi afastado pelo INSS. Agora, sofreu várias fraturas ao se acidentar na BR-101, perto do Porto do Rosa, em São Gonçalo.

Diogo dos Santos Nunes sofreu quatro acidentes

Alexandre Cassiano

— Abriu o sinal, e os carros demoraram a sair. Tentei frear. Só que os freios estavam ruins. Eu tinha duas opções: ou jogava a moto em cima da calçada, onde havia muita gente, ou no meio dos carros. Joguei no meio dos carros — relata.

Diogo tem habilitação de piloto, diferentemente de Luiz Henrique Leandro dos Santos, de 20 anos, que há três meses entrega lanches de moto e trabalha sem carteira assinada. Ele estava voltando para casa quando sofreu um acidente na RJ-106, próximo ao bairro Maria Paula, em São Gonçalo. Derrubado por outra moto, quebrou três dedos e teve fratura exposta num pé.

— Estava de capacete, mas de chinelo. Não farei mais isso e vou tirar a carteira — promete.

Cadê o guarda?

Desafio sobre duas rodas

Editoria de Arte

Dirigir na contramão e sobre calçadas, furar sinal vermelho e parar em faixas de pedestres são infrações rotineiras cometidas por motociclistas. Na tarde da última sexta-feira, uma criança foi atropelada por uma moto quando atravessava a Rua Marquês de São Vicente, na Gávea. A menina, acompanhada de outras pessoas, estava na faixa de pedestres; o motociclista que atingiu a criança avançou o sinal vermelho.

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Na terça-feira, O GLOBO percorreu 55 quilômetros de trechos de sete bairros (Copacabana, Botafogo, Centro, Vila Isabel, Tijuca, Maracanã e Méier). Estacionar esses veículos sobre calçadas é outra prática comum. Ao longo do percurso, foram encontrados apenas três guardas municipais parados ao lado de motos, no Posto Seis, na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e uma viatura da corporação circulando na mesma via.

— Continuamos sem guardas nas ruas. Quando muito, tem uma viatura circulando, mas a presença de agentes de trânsito é pouca ou quase nenhuma — reclama Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana.

— Não tenho conhecimento de nenhum guarda atuando no controle de trânsito de Botafogo — diz Regina Chiaradia, presidente da associação de moradores do bairro.

Mesmo em cruzamentos com sinal apagado, como o da Rua Professor Manoel de Abreu com Rua Felipe Camarão, no Maracanã, a equipe do GLOBO não encontrou um agente de trânsito.

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— Quando a situação complica, colocam cones para desviar o trânsito da Felipe Camarão, em vez de colocar um guarda — lamenta o entregador Luiz Paulo Souza Cruz.

A prefeitura garante que a Guarda aplicou 168.174 multas de trânsito de janeiro a abril deste ano, sendo o estacionamento irregular na calçada a infração mais flagrada. “Todo o efetivo da corporação está habilitado a coibir irregularidades, com foco na fluidez do trânsito e na civilidade”, afirma.

Os relatos sobre irregularidades e infrações no trânsito têm aumentado até no Disque-Denúncia. No total, passaram de 648, nos quatro primeiros meses de 2025, para 823 no mesmo período deste ano (27%). As relativas a motos subiram de 276 para 325 (17,8%). Elas incluem denúncias de pegas, manobras perigosas — como a de “dar grau”, gíria que se refere a empinar a moto —, motoristas de aplicativo circulando com habilitação vencida, transporte escolar com crianças em pé e no colo e a condução de veículos por criminosos armados e por crianças.

Vivi para contar

‘A cada final de semana, a gente acaba enxugando sangue’

Marcelo Pessoa*

“Temos observado um aumento crescente do número de acidentados condutores e passageiros de motocicletas na nossa emergência. Diante de um sistema de saúde já sobrecarregado, no fim de semana passado, recebemos 76 vítimas desses acidentes. Muitas ficam um longo tempo internadas, consumindo recursos. E são pessoas que acabam tirando a oportunidade de pacientes que chegam na nossa emergência por outras patologias.

O quadro está ficando muito complexo de ser administrado. Como conduzir uma moto ou estar como passageiro desses veículos é uma escolha, reforço a importância da prevenção. Há um número cada vez mais elevado, hoje em torno de 40%, de pacientes vítimas com menos de 18 anos. Alguns utilizam drogas e álcool, e apresentam sinais de intoxicação. Há os que perdem a vida na sua fase mais produtiva ou ficam com sequelas, mobilizando recursos de familiares e da sociedade como um todo. A cada três vítimas de moto, uma fica com sequela. E algumas chegam a permanecer seis meses internadas.

A situação é tão dramática que, no setor, costumamos comentar que já passamos da situação de ficar enxugando gelo. Diante desse trânsito tão violento, agora a cada final de semana a gente acaba enxugando sangue.

Nos fins de semana, em função desses acidentes, nosso estoque de sangue chega no seu ponto crítico. É um cenário triste. Por isso, gostaria de convidar voluntários a participar das nossas campanhas de doação de sangue (as próximas ocorrerão na Igreja Novos Começos, a Lagoinha, em Piratininga, Niterói, dias 14 e 15, das 10h às 18h; e no Shopping Partage, em São Gonçalo, no fim do mês)".

*Coordenador médico do Centro de Traumas do Hospital Estadual Alberto Torres (Heat)