Após ganhar de Kamala Harris nas eleições presidenciais americanas de 2024, Donald Trump e sua equipe cometeram um equívoco: interpretar a vantagem, que no voto popular foi de 3,5 pontos percentuais, como um mandato para promover grandes mudanças no país, afirmou o cientista político Antonio Lavareda.
Em painel de evento hoje da Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Lavareda alertou que o mesmo erro pode ser cometido ao avaliar o resultado do primeiro turno das eleições brasileiras, que deu 1,87 ponto de vantagem para Flávio Bolsonaro. “Nós não podemos extrair dessa ‘derrota’ do governo Lula a leitura de que o Brasil optou por novas políticas, novo posicionamento, nova administração fiscal”, disse.
Para o cientista político, Lula perdeu votos entre os pobres, por causa do endividamento da população e por um poder aquisitivo comprimido. “Não há esse mandato para grandes mudanças”, disse. Ainda segundo Lavareda, a Nova República brasileira enfrenta seu momento mais difícil desde 1989. “Ela não está em estado falimentar, mas está em recuperação judicial”, comparou.
Em meio à euforia do mercado financeiro e dos empresários com a chance de vitória de um governo Flávio — que Lavareda estima hoje em 70% — ele questionou se o histórico da família Bolsonaro é “tão liberal quando as demandas que o mercado, corretamente, tem em relação às transformações da condução do rumo econômico do país”.
Fábio Zambeli, diretor da agência de relações governamentais Athos Public Affairs, acrescentou, no mesmo painel, achar “improvável” que Flávio realmente apoie uma proposta de emenda constitucional (PEC) para acabar com a reeleição, mesmo sendo o que ele caracteriza com a figura mais de “centrão” da família.
Em sua opinião, seria uma interrupção da linhagem Bolsonaro no poder, enquanto o próprio Flávio ainda é jovem e a família tem outros integrantes jovens e com “aspirações”, e que foram vitoriosos nas urnas, além do próprio patriarca, Jair Bolsonaro, que poderia voltar a ser viável eleitoralmente. “O projeto não é passar o bastão”, disse Zambeli. “Dificilmente vai chegar a vez de outra pessoa, que não seja da família, na linha de sucessão.”
O diretor da Athos também ressaltou que o mercado não deve apostar em um afastamento de Eduardo Bolsonaro no governo do seu irmão, se o cenário se concretizar. “O Eduardo é uma figura muito relevante num eventual governo Flávio, não vamos nos iludir.” Mesmo assim, avalia que há um movimento da classe política que considera um governo Flávio como uma transição para outros candidatos em 2030. “Já tem candidato, teve um que estava aqui há pouco”, afirmou. Mais cedo, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) esteve no mesmo evento.
Governabilidade Com o resultado das eleições para a Câmara e o Senado, Zambeli considera que Flávio teria a governabilidade mais favorável desde o governo de Michel Temer.
No entanto, parte dos eleitos mobilizou voto com a missão de “comprar briga” com o Supremo Tribunal Federal (STF), destaca. Segundo ele, são agendas que não necessariamente combinam com a ambição de Flávio para a economia, ou que podem se perder em meio a prioridades muito pulverizadas.
“Há de se administrar esse apetite de confronto com um poder, tendo ao mesmo tempo que implementar uma agenda reformista robusta”, afirmou. É um “desafio de coordenação política”, no qual seu pai não teve sucesso nos primeiros dois anos de mandato, disse, antes de recorrer às emendas parlamentares, algo que Flávio não poderia fazer se quiser manter um “ambiente mais restrito fiscalmente”.
Também no painel, o economista e ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco afirmou estar otimista com a perspectiva de vitória de Flávio, e que a dúvida entre economistas, agora, é sobre quem será o “posto Ipiranga” do filho de Bolsonaro. “Muito provavelmente não virá alguém como o Paulo Guedes, virá alguém que será mais um coordenador de equipes”, disse. “Acho que vai ser diferente e que está com cara boa.”
Valor