‘Não há educação sem cultura’: Fernanda Montenegro e escritores defendem diálogo entre artes e ensino no LED
Um clima de espetáculo tomou conta do palco Inspira LED, o principal do evento, no último sábado. Ali, durante dez minutos, celulares foram desligados, e toda a atenção se voltou para a grande dama do teatro brasileiro. Aos 96 anos, a atriz Fernanda Montenegro apresentou uma leitura dramática de um texto próprio, criado especificamente para o festival, no qual foi clara:
— Não há educação sem cultura, como não há cultura sem educação — defendeu, de forma enfática, na abertura do segundo dia.
O diálogo das artes com o ensino seguiu no centro do debate do Festival LED Globo com a mesa que sucedeu Fernanda Montenegro. Nela, estiveram os escritores Raphael Montes, autor de “Dias perfeitos” e outros sucessos que ganharam as redes sociais entre o público jovem, e Socorro Acioli, de “A cabeça do Santo”, que também se tornou um fenômeno literário. Eles se encontraram com a cantora Linn da Quebrada, com mediação da jornalista da GloboNews Aline Midlej.
— A gente sente que há um número de leitores aumentando por causa dos professores. Só temos a agradecer a vocês por esse trabalho — afirmou Acioli, agradecendo à plateia, lotada de mestres.
Os números corroboram a sensação da escritora. Dados da Câmara Brasileira do Livro, divulgados há duas semanas, mostram que o país ganhou cerca de três milhões de novos compradores no ano passado. Além disso, a faixa em que esse consumo mais cresceu foi entre 18 e 34 anos.
— Para conquistar novos públicos, temos que desmitificar o que é o livro — afirma Montes, um dos autores que fazem mais sucesso entre a comunidade “booktok”, aqueles leitores que utilizam as redes sociais, como o TikTok, para debater as obras. — Livro pode ser tão divertido quanto estar no Instagram. Ler serve também para se entreter.
Diários de estreia
O escritor explica que a leitura faz com que o ser humano conheça o ponto de vista de outra pessoa. Isso gera, diz Raphael Montes, “inteligência social” e empatia com outros grupos.
— A literatura permite viver personagens que você não é. Entra numa história e sente emoções que nunca sentiu. Eu, que nunca fui mãe, tenho alguma sensação de uma mãe. Da perspectiva de uma mulher, entendo mais o que é ser mulher. Por isso, pessoas que não leem, em algum lugar, são mais presas a si mesmas, com menos capacidade de entender que o mundo é complexo — diz.
A cantora Linn da Quebrada conta que já viveu isso intensamente. Num período muito difícil da vida, encontrou um livro de crônicas da escritora Clarice Lispector no lixo e foi ali que conheceu o encantador mundo da leitura. Devorou as páginas e saiu dali com a certeza de que era a reencarnação da autora.
— Tive a certeza de que escrevi isso como Clarice Lispector para deixar como recado para mim mesma nesta vida de agora — brinca.
Agora, terá a oportunidade de deixar novos recados. Linn revelou no evento que fechou com uma editora para lançar seu primeiro livro. A ideia inicial era publicar um compilado de diários que a cantora escreveu ainda antes da fama. No entanto, outra ideia está na sua cabeça:
— A minha mãe, a vida toda, foi doméstica, com pouca leitura e sem o hábito de escrever. Ela é uma mulher marcada por muitas dores e traumas. E uma amiga uma vez me falou sobre escrever aquilo que a gente quer esquecer. Eu comentei isso com a minha mãe e ela adotou essa ideia. Então, um dos diários é metade meu, metade da minha mãe. A partir dele, estou repensando o que quero para esse primeiro livro — diz.
