Não foi só a Cybertruck: aposta das montadoras nas picapes elétricas desmorona nos EUA

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A Tesla vai encerrar a produção da Cybertruck em sua fábrica no Texas por volta de meados de 2027. O anúncio de Elon Musk acrescenta o modelo mais chamativo do setor a uma lista de picapes elétricas canceladas, substituídas ou reduzidas depois de bilhões de dólares em investimentos das montadoras.

O movimento não se limita à Tesla. As seis picapes elétricas acompanhadas pela Cox Automotive venderam cerca de 32,5 mil unidades nos Estados Unidos até setembro, uma queda de 53% em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados obtidos pelo Business Insider.

A retração atingiu uma das maiores apostas da indústria automobilística americana. Ford, General Motors, Stellantis e Tesla esperavam que a eletrificação das populares picapes conquistasse clientes acostumados a veículos grandes e ajudasse a levar os carros a bateria além dos sedãs e utilitários urbanos.

Na prática, os modelos elétricos chegaram mais caros que seus equivalentes a combustão e encontraram compradores exigentes em relação a autonomia, reboque, carga e tempo de abastecimento. As baterias necessárias para movimentar veículos desse tamanho elevaram preços e peso, enquanto o uso para rebocar cargas reduziu significativamente a distância percorrida entre recargas.

O fracasso comercial também contrariou projeções públicas dos executivos. Musk chegou a estimar vendas superiores a 250 mil Cybertrucks por ano.

A Tesla comercializou 38.965 unidades em 2024 e 20.237 em 2025, segundo estimativas da Kelley Blue Book citadas pela Reuters. Nos nove primeiros meses deste ano, foram 11.586.

Musk informou que a linha da Cybertruck na Gigafactory Texas será liberada para ampliar a produção do Cybercab, veículo autônomo de dois lugares no qual a Tesla concentra sua nova estratégia. O empresário não anunciou outra fábrica para a picape.

Ford perde US$ 19,5 bilhões na mudança de rota A Ford já havia encerrado a produção da atual geração do F-150 Lightning, versão elétrica da picape mais vendida dos Estados Unidos.

O modelo será substituído por um veículo de autonomia estendida, movimentado por motores elétricos e equipado com um motor a gasolina para recarregar a bateria. A companhia reconheceu em dezembro de 2025 que a demanda abaixo do esperado, os custos elevados e as mudanças regulatórias haviam comprometido o negócio dos veículos elétricos grandes.

A revisão da estratégia provocou um prejuízo contábil de aproximadamente US$ 19,5 bilhões, dos quais US$ 5,5 bilhões devem representar saídas efetivas de caixa. A trajetória ficou muito abaixo do plano original.

A Ford chegou a preparar capacidade para produzir 150 mil unidades do Lightning por ano. As vendas anuais nunca ultrapassaram 35 mil veículos, segundo os dados reunidos pelo Business Insider.

A Stellantis nem chegou a colocar sua picape elétrica nas ruas. A Ram 1500 REV estava prevista inicialmente para 2025, foi adiada e acabou cancelada.

Ao explicar a decisão, a montadora afirmou que o produto não alcançaria escala suficiente para se tornar lucrativo. Chevrolet Silverado EV, GMC Sierra EV, GMC Hummer EV e Rivian R1T permanecem no mercado, mas também enfrentam uma demanda menor do que as montadoras esperavam quando organizaram suas fábricas e fornecedores para a eletrificação das picapes.

O próprio mercado de carros elétricos encolheu depois do fim do crédito fiscal federal de US$ 7,5 mil. Em setembro, foram vendidos 86.632 elétricos novos nos Estados Unidos, 40,7% menos que um ano antes, segundo o monitor da Cox Automotive.

Picapes menores viram a próxima aposta O recuo dos modelos grandes redirecionou o investimento para picapes menores, mais leves e baratas.

Elas exigem baterias de menor capacidade e não precisam disputar diretamente com veículos a combustão desenvolvidos durante décadas para transportar e rebocar cargas pesadas. A Ford prepara o Fathom, primeiro modelo de sua nova plataforma elétrica de baixo custo.

A picape terá porte menor que o F-150 Lightning, preço inicial inferior a US$ 29 mil e produção prevista para começar no segundo semestre de 2027, segundo o Business Insider. A empresa ainda não divulgou autonomia, versões ou capacidade de reboque.

A startup Slate Auto pretende começar neste mês a produção da Blank Slate, uma picape elétrica de dois lugares oferecida a partir de US$ 24.950. O modelo reduz equipamentos e acabamentos para manter o preço baixo e pode ser convertido em utilitário com acessórios vendidos separadamente.

As duas propostas ficam distantes dos valores praticados pelas picapes que inauguraram o segmento. O GMC Sierra EV parte de aproximadamente US$ 65 mil.

No fim de sua trajetória, a Cybertruck era oferecido em versões próximas ou acima de US$ 90 mil, mais que o dobro dos US$ 39.900 prometidos por Musk na apresentação do protótipo, em 2019. Para Seth Goldstein, analista da Morningstar ouvido pelo Business Insider, uma picape elétrica menor pode encontrar mercado se oferecer ao menos 300 milhas, cerca de 480 quilômetros, de autonomia.

A Ford ainda não informou se o Fathom alcançará essa distância. Mais Lidas

Publicação Original Epoca Negócios epocanegocios.globo.com
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