'Não existe negociação comercial entre EUA e Brasil', diz ex-embaixador brasileiro em Washington

 

Fonte: Bandeira



Ex-embaixador em Washington (1999-2004) e Londres (1994-99), Rubens Barbosa tem larga experiência na negociação entre governos de campos políticos opostos — ele foi responsável pela aproximação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com George W. Bush, no primeiro mandato do brasileiro. O diplomata acha que foi bem-sucedido ao patrocinar a visita de Lula aos EUA antes da posse, algo incomum, o que abriu caminho para uma aproximação que era temida na época. Por isso, Barbosa é cético quanto à possibilidade de o governo Lula obter concessões de Donald Trump, pois não vê atualmente disposição de abertura por parte do Brasil.

Brasil Soberano 2: BNDES somará R$ 21 bi para empresas afetadas por tarifaço de Trump e guerra no Irã

Whirlpool em São Paulo: Dona de Consul e Brastemp investe R$ 300 mi e nacionaliza 100% da produção de máquinas de lavar

O senhor acredita que serão impostas novas tarifas, baseadas na Seção 301?

Sim. Eles vão usar as duas aplicações da Seção 301 [a investigação mais recente é de março de 2026, em inquérito sobre práticas comerciais desleais contra cerca de 60 países]. Primeiro, para justificar a substituição da tarifa de 10% implementada após a decisão da Suprema Corte [de fevereiro, que derrubou as tarifas] e cuja base legal vence em julho. E depois vão aplicar a do ano passado, que incluía a prática desleal de comércio, Pix, big techs, etanol. Vão aproveitar para colocar, no caso do Brasil, tarifas semelhantes às que tínhamos antes da queda do tarifaço, de 40%.

Quais setores foram mais afetados com a queda nas exportações aos EUA?

No ano passado houve um problema que afetou inicialmente os produtos agrícolas, mas o que vai ser mais afetado são os 22% das exportações brasileiras que ficaram com 40% de tarifas. Basicamente são madeira, aço, um setor que já estava penalizado, pescado, algumas frutas...

A tendência é piorar?

Nós estamos aumentando as importações dos EUA e diminuindo as exportações. O superávit americano aumentou muito em relação ao Brasil. Com essas tarifas, vai crescer. E o Brasil está diversificando as exportações: só 9% do total das exportações brasileiras vão para os EUA. E estão aumentando para a China, para onde já vão 25% ou 26% do total.

As tarifas e as incertezas geopolíticas vão mudar a relação do Brasil com seus principais parceiros, China, EUA e Europa?

Acho que sim. Com o acordo Mercosul-União Europeia, vai haver novas áreas de exportações. Só não vai ampliar mais por causa da perda da competitividade da indústria brasileira. Alguns setores vão se beneficiar, principalmente o agrícola. Com as tarifas zeradas para mais de 5 mil produtos, teremos competitividade para exportar. Também vai aumentar o comércio com a China. E o comércio com os EUA vai ser mantido num nível muito baixo, talvez ao redor de 10%. Essa tendência vai se manter.

A guerra no Irã pode afetar a relação comercial entre EUA e Brasil?

Todos os países estão sendo afetados pelo alto preço da energia, do petróleo e do diesel. No caso do Brasil, está atingindo os preços do transporte, além do valor do frete e do seguro. Mesmo os produtos agrícolas vão ser afetados. Não vai haver um impacto direto na nossa exportação para os EUA, pois ela está caindo. Mas para outras regiões possivelmente. A gente não sabe quanto tempo o Trump vai manter esse tarifaço.

Initial plugin text

As eleições presidenciais no Brasil, assim como as de meio de mandato nos EUA, vão afetar as negociações comerciais?

Não há negociação comercial entre os países. Há conversas técnicas entre o Itamaraty, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o Escritório do Representante Comercial dos EUA e o Departamento de Comércio dos EUA. Há um ano não há nenhuma negociação na área comercial. Tudo o que aconteceu, como a retirada de tarifas, foi decisão unilateral americana, porque afetava a economia do país ou o interesse de empresas americanas.

Não há disposição do governo Lula de abrir esses canais?

Hoje o presidente Lula não tem interesse. Está procurando, com essas provocações e críticas, arranjar uma desculpa para defender a soberania do Brasil. Está jogando com o momento eleitoral, usando a política externa para fins de política interna. No mundo em que a gente está vivendo, é preciso colocar o interesse nacional acima do interesse ideológico e partidário.

Como isso dificulta eventuais negociações?

É que é muito difícil entender que o governo brasileiro — tanto o Palácio do Planalto quanto o Itamaraty — não tenha estabelecido, depois de quase um ano e meio de governo em Washington, canais azeitados de comunicação. Isso torna as relações muito mais difíceis. O elogio de Trump na ONU [que disse durante seu discurso na Assembleia Geral, no ano passado, que Lula era um “homem muito agradável” e que tinha havido uma “química excelente” entre os dois], foi articulado entre empresários, não foi uma ação do governo brasileiro.

Quando estava em Washington, participei de duas transições ideológicas. Tínhamos os canais de comunicação totalmente abertos. A mesma coisa ocorre com a Argentina. É nosso principal parceiro aqui na região, e não há canal de comunicação. É uma questão importante que às vezes passa despercebida.

O Pix é um ponto de tensão legítimo?

Isso está sendo investigado na Seção 301, do ano passado. As big techs também, não só o Pix. É a questão mais delicada e complicada que temos, pela influência que essas empresas têm junto ao governo americano. Isso, de alguma maneira, vai ter que ser negociado. O Brasil já deve ter dado explicações para os EUA no contexto da investigação. E, em relação ao Pix, a objeção deles é que a regulação e a operação são controladas pelo Banco Central. Acho que a gente não vai mudar isso também.

Etanol segue sendo um dos principais pontos de atrito?

Isso também está sendo discutido no âmbito da Seção 301. Por isso, acho que haverá uma volta de tarifas altas para o Brasil, porque tudo que está sendo investigado o Brasil já esclareceu, já deu a sua posição, que é de não aceitar nada do que eles estão investigando. O resultado a gente vai ver agora em julho, quando sair a decisão. Na minha visão, haverá volta de tarifas altas.

Míriam Leitão: Após aumento de 52% nas vendas, Brasil se une à Austrália para negociar cota de carne para China

Qual estratégia os exportadores podem adotar para reconstruir as relações com os EUA?

Os empresários têm que ir para o exterior e, lá nos EUA, procurar os parceiros, buscar apoio, como fizeram no começo dessa briga. A estratégia empresarial tem que ser uma ação nos EUA muito forte, às vésperas da saída desse novo tarifaço. Eles têm que procurar associações comerciais e de classe, a Câmara de Comércio dos EUA. Como não há canal de comunicação entre os governos, se não fizerem isso vão ser afetados. Devem defender seus interesses, como aconteceu no setor agrícola, no caso do café e de outros produtos que afetavam o mercado americano. Sobretudo os empresários devem buscar os seus parceiros para que façam pressão junto ao governo americano para defender as suas importações.

Como os importadores americanos têm reagido pelo abalo em mais de 200 anos de relações comerciais?

Os americanos não estão pensando no Brasil, mas no interesse deles. Por isso os brasileiros têm que defender seus interesses. Fazer um esforço para manter as exportações, sobretudo as mais delicadas. A gente tem que compreender, o governo e os empresários, que o mundo mudou. O mundo que existia até o começo do ano passado, quando o Trump tomou posse, praticamente desapareceu. Não há mais instituições que possam defender o direito dos países, que foi afetado por medidas discriminatórias, unilaterais.

A Organização Mundial do Comércio (OMC) não tem mais esse papel. O que está contando agora é a política. Cada país tem que defender o seu interesse. Ninguém vai brigar para restabelecer a OMC. Isso não existe mais. A própria diretora-geral da organização [Ngozi Okonjo-Iweala] falou isso. Mas agora, no curto prazo, o que vale é a ação individual dos países, tanto dos governos quanto do setor privado.

O dólar está se desvalorizando no mundo, uma tendência que não deve ser revertida no curto prazo. Como isso prejudica as exportações brasileiras aos Estados Unidos?

No caso do Brasil e dos EUA, favorece a importação de produtos que o Brasil precisa. A gente não tem aqui um produto estratégico, que é o trigo. Importamos dos EUA e de outros países porque não há disponibilidade, nenhuma autossuficiência aqui. O Brasil importa 60% do consumo do trigo. Com o dólar desvalorizado, o trigo americano, que é de melhor qualidade, fica mais competitivo. Mas esse é um dos poucos produtos que beneficiam a gente.

Em outras áreas isso também pode ajudar, como em fertilizantes, para diversificar a nossa demanda, o que é muito importante para a produção agrícola. Mas o dólar é muito volátil. Aqui, no Brasil, a cotação vai depender da evolução da guerra no Irã, se vai continuar mais tempo ou terminar, como é que vai ficar a questão do Estreito de Ormuz. Essa volatilidade não acontece só aqui no Brasil. As circunstâncias geopolíticas também vão determinar como fica a taxa de câmbio, como ficam as bolsas e a política monetária.