“Não é uma foto minha, é sobre liberdade de imprensa”, conta fotógrafo atacado pelo ICE nos Estados Unidos
Desde junho do ano passado, os Estados Unidos enfrentam uma onda de protestos contra a violência do ICE, o serviço de imigração do país. E, como em todo momento de tensão política, fotógrafos estão se colocando na linha de frente para documentar o conflito, na expectativa silenciosa de fazer um clique que não apenas informe, mas sintetize o momento. Que sobreviva ao fluxo acelerado das redes sociais e encontre lugar nos livros de história.
Em janeiro, uma dessas imagens rodou o mundo: jogado no chão, cercado por agentes que ajoelhavam em suas costas e com a visão encoberta por botas pretas intimidadoras, o fotógrafo documentarista John Abernathy jogou sua câmera Leica em direção a um colega de profissão que avistou na multidão, Pierre Lavie, que conseguiu fotografar aquele instante dramático.
O fotógrafo John Abernathy joga a sua câmera após ser atacado por agentes do ICE.
Pierre Lavie/ Reprodução do Instagram: @just1dudewithacamera
A imagem choca pela brutalidade e pelo inesperado. O que levaria alguém a jogar no ar uma câmera - uma Leica, equipamento de alto custo - no meio de uma confusão?
A cena aconteceu em Minneapolis. Localizada no estado de Minnesota, a cidade é historicamente democrata e concentrou a maior resistência às ações do ICE. Os protestos tiveram forte repressão e dois cidadãos americanos foram assassinados por agentes de imigração: a poeta Renee Good e o enfermeiro de UTI Alex Pretti.
Naquele 15 de janeiro, Abernathy cobria um protesto de veteranos do exército diante do Whipple Building, sede local do ICE. Ao chegar, notou que, de um lado da rua, havia manifestantes, e do outro, agentes federais fortemente equipados. “Foi uma demonstração de força desnecessária”, contou. “Não havia razão para eles estarem ali.”
Protesto contra a violência do ICE em Minneapolis, nos Estados Unidos.
Pierre Lavie/ Reprodução do Instagram: @just1dudewithacamera
Lavie, que tem documentado os protestos em Minneapolis desde o início, já antecipava o desfecho. Segundo ele, os agentes não toleram que manifestantes fiquem na mesma calçada do prédio. “Eu sabia que eles iriam fazer o que sempre fazem: avançar, jogar bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo”.
Foi nesse momento de confusão que Abernathy foi atacado por agentes. “Eu fui derrubado e caí de cara no chão. Ajoelharam nas minhas costas e gritaram comigo.” Mesmo caído e cercado, conseguiu capturar uma imagem marcante. “Vi que estava rodeado por um monte de botas pretas e pensei que deveria fazer uma foto. Eu tinha deixado o foco da minha câmera configurado em uma distância específica. Também nem pensei na composição da imagem. Só cliquei.”, contou.
Enquanto estava no chão, John Abernathy conseguiu fazer uma foto. No canto da foto, vemos o celular de John.
John Abernathy/ Reprodução do Instagram @john_abernathy_
O enquadramento da foto é claustrofóbico, quase sufocante. É uma imagem única, que acabou viralizando nas redes sociais. “Muitas pessoas me disseram que essa é a foto que representa exatamente como elas se sentiram quando foram detidas”, disse.
No momento em que Abernathy caiu, teve dificuldade de respirar. Havia gás de pimenta espalhado pelo chão e os agentes ainda lançaram o spray diretamente no seu rosto. Foi o instante de maior tensão. “O meu fôlego estava acabando e achei que iria vomitar ou desmaiar”, contou. “Eu precisava tomar uma decisão rápido”.
O fotógrafo John Abernathy com gás lacrimogêneo nos olhos após ser jogado no chão por agentes.
Pierre Lavie/ Reprodução do Instagram: @just1dudewithacamera
O fotógrafo John Abernathy foi jogado no chão por agentes.
Pierre Lavie/ Reprodução do Instagram: @just1dudewithacamera
Ele não queria ser detido com a câmera, por medo de que os agentes apagassem as imagens. “Eu achava que as fotos que tinha feito no dia mereciam ser salvas”. Procurou, então, por outro colega. Viu Lavie na multidão e lançou a câmera em sua direção. Não o conhecia. Não sabia se ele conseguiria pegá-la. Mas era a sua melhor chance.
“Ficou claro que ele estava jogando para mim”, recordou Pierre. Além da câmera, Abernathy arremessou o telefone. Lavie recuperou ambos, enquanto desviava das botas que, segundo ele, pisoteavam intencionalmente o celular.
O fotógrafo John Abernathy jogando o seu celular para Pierre Lavie.
Pierre Lavie/ Reprodução do Instagram: @just1dudewithacamera
John viu apenas uma bota esmagando seu celular e ficou tão decepcionado que não conseguiu mais olhar. “Eu escutei histórias de pessoas que foram detidas com os seus celulares e depois nunca os receberam de volta”, revelou. “Então, eu fico feliz de pelo menos ter recuperado o meu”.
Abernathy foi levado para dentro do prédio federal. Lá, agentes alegaram possuir um vídeo em que ele aparecia usando spray de pimenta contra pessoas. “Eu sabia que isso não era verdade porque nunca aconteceu”, afirmou. Ele exigiu ver as imagens, mas nunca as mostraram, e ele foi liberado pouco tempo depois, sem telefone, sem câmera e sem saber como recuperaria o próprio trabalho.
A câmera Leica M10-R de John em cima da citação que recebeu por "ultrapassar limites de propriedade"
John Abernathy/ Reprodução do Instagram @john_abernathy_
Enquanto isso, Pierre, que já tinha deixado o local, procurava um jeito de achar o dono dos equipamentos. Lembrou que alguns celulares exibem contatos de emergência mesmo desligados. Ligou para a esposa de Abernathy. Horas depois, os dois se encontraram. “Quando eu finalmente encontrei o Pierre, fiquei tão aliviado que dei um abraço nele na hora”, lembrou.
Os fotógrafos John Abernathy (direita) e Pierre Lavie (esquerda)
Reprodução: Instagram
Pierre só revisou as fotos dias depois, a pedido do colega. “Eu editei e mandei algumas cópias para ele”. Foi quando notaram a força da imagem de Abernathy deitado no chão atirando a câmera. “Eu vi e a foto era simplesmente épica”, contou John. “Outros fotógrafos também fizeram imagens minhas, alguns até profissionais de guerra, mas a foto do Pierre se destacava”.
Foi John quem fez as postagens iniciais e a imagem começou a circular nas redes sociais e em veículos nacionais e internacionais. Apesar de muitas mensagens de carinho e apoio, os dois fotógrafos chegaram a receber também mensagens de ódio. “As pessoas comentavam nos meus posts dizendo que era uma pena que os agentes não tinham me dado o “good treatment” (“tratamento bom” em inglês), claramente fazendo referência a Renee Good, que foi assassinada”, contou John. “Mas eu fico feliz que as fotos tenham trazido atenção para os protestos. Essa comunidade é muito organizada e unida. Tenho orgulho desse lugar."
Pierre também percebeu que a comunidade de Minneapolis está muito mobilizada para ajudar os imigrantes da cidade. E revelou que alguns estão ficando em casa por medo de serem deportados. “São os vizinhos e amigos que levam medicamentos, comida e o que for necessário até a casa de quem precisa”, disse. Segundo ele, pessoas brancas, que correm um risco menor de serem paradas por agentes, estão dando carona ao trabalho para negros, pardos e latinos. “É como se todos estivessem realmente se unindo como comunidade. E estão tentando fazer o possível para combater o que é uma espécie de força militar que está invadindo a cidade deles e fazendo com que se sintam inseguros”.
Para John, a situação remete à Alemanha nazista de 1940 e é por isso que fez a escolha de fotografar em preto e branco. “Vemos agentes nas ruas prendendo pessoas só porque não gostam de como elas são, simplesmente”, afirmou. “Quase não vejo casos de detenção de imigrantes brancos. São quase todos latinos, somalis ou asiáticos”, completou. “O governo diz que o trabalho deles é apreender as piores pessoas, mas estão pegando até crianças, como o Liam Conejo, o menino de cinco anos que foi levado e detido no Texas.”
Fotografias de John Abernathy dos protestos contra o ICE, em Minneapolis
Quando questionado sobre o aumento da violência do ICE, Pierre explicou que os agentes não costumavam agir assim. “O ICE não é uma agência federal nova, de forma alguma. Ela existe há muito tempo. Só que antes operava com um pouco mais de decoro e profissionalismo”, afirmou.
Os dois fotógrafos concordaram que se sentem mais inseguros ao cobrir as manifestações hoje, comparado a alguns anos atrás. Abernathy disse que sofreu sintomas de estresse pós-traumático. “Nas duas semanas seguintes à minha detenção, eu dormia apenas quatro ou cinco horas por noite e ficava tremendo incontrolavelmente, como se tivesse muito, muito frio”. Mesmo em sua própria casa, com aquecimento, ele tremia.
Os sintomas de estresse ficaram claros também na primeira vez que voltou a fotografar as manifestações. “Tive dificuldade de me aproximar”, contou. “Acho que vou continuar sentindo isso, mas tenho que continuar voltando, porque é assim que eu cresço”.
Os dois fotógrafos estão investindo em mais EPIs, equipamentos de proteção, como coletes à prova de bala, máscaras e óculos. E perceberam que outros colegas estão fazendo o mesmo. “Eu não sei se ser da imprensa muda alguma coisa na questão da minha segurança”, ponderou John. “Acho que às vezes isso me torna mais seguro, mas outras vezes me torna um alvo.”
Segundo Pierre, os agentes federais estão atacando indiscriminadamente, de profissionais da imprensa a civis e até outras autoridades. “Eu acho que, com equipamentos de segurança melhores, vou me sentir mais seguro para me aproximar de algumas situações”, contou. É a mesma sensação de John, que admitiu ter deixado de registrar algumas imagens por medo. “Eu fotografo com uma lente 28mm e geralmente tenho que estar perto para capturar a cena.”
Manifestações contra a violência do ICE em Minneapolis, nos Estados Unidos.
John Abernathy/ Reprodução do Instagram @john_abernathy_
“Estamos em uma situação ruim”, lamentou Pierre. “Eu continuo documentando, mesmo que seja perigoso, porque penso em nossas crianças. Em deixar um mundo melhor para elas”, ressaltou. “A esperança é que não cometamos os mesmos erros novamente no país.”
Eles atribuem o sucesso das fotos à identificação que ela causa em muitas pessoas. “Ter um fotógrafo sendo derrubado no chão, tentando salvar as suas imagens, eu acho que mostra como muitos de nós nos sentimos nesse momento no país”, disse Pierre.
Para John, porém, a fotografia ultrapassa o retrato individual. “Essa não é uma foto sobre mim”, disse. “É sobre liberdade de imprensa.” Ele aponta para o simbolismo da cena: as botas pesadas e dominantes representam as pressões e obstáculos enfrentados por imigrantes neste momento, e a câmera erguida, suspensa no ar, sugere resistência e a possibilidade de que, apesar de tudo, ainda exista uma luz no fim do túnel.
Aquele registro de 15 de janeiro cumpre a missão que todo fotógrafo espera: capturar uma imagem que sintetize um conflito político e, ao mesmo tempo, o humanize. Nela, um corpo no chão e uma câmera no ar são mais do que evidência de violência: são testemunho histórico.
