Não é sobre foguetes: oferta bilionária de ações da SpaceX abre nova fase da corrida tecnológica da IA

Não é sobre foguetes: oferta bilionária de ações da SpaceX abre nova fase da corrida tecnológica da IA

Fonte: Bandeira



A maior abertura de capital da história não vai ser sobre foguetes. Em breve, a SpaceX deve ser coroada a mais importante companhia privada de negócios espaciais de todos os tempos — fruto do domínio dos foguetes reutilizáveis e de uma rede global com mais de 10 mil satélites.

Mas, por trás da oferta pública inicial (IPO) de ações que pode avaliar a companhia em quase US$ 2 trilhões, não estão colônias em Marte: o evento marca um novo momento e um grande desafio para o boom da inteligência artificial (IA).

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Elon Musk e o foguete SpaceX Falcon Heavy em Cabo Canaveral, Flórida.

Todd Anderson/The New York Times

A SpaceX está buscando levantar US$ 75 bilhões em um IPO que seria o maior de todos os tempos. A companhia, sediada em Starbase, Texas, planeja oferecer cerca de 555,6 milhões de ações a US$ 135 cada, de acordo com o documento apresentado à SEC, órgão regulador do mercado de capitais nos EUA. Nesse preço, a SpaceX teria um valor de mercado de aproximadamente US$ 1,77 trilhão com base nas ações em circulação informadas no registro.

Aposta ousada

O apetite da companhia pelo mercado de IA está registrado nos documentos enviados aos reguladores do mercado americano. Nele, 93% do mercado potencial que a companhia pretende acessar está atrelado à IA, totalizando U$ 26,5 trilhões — o restante, US$ 2 trilhões, está ligado a aquilo que tornou a empresa famosa: foguetes e satélites.

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Reprodução / X / @SpaceX

“Acreditamos ter identificado o maior mercado potencial acessível da história da humanidade”, escreveu a companhia à U.S. Securities and Exchange Commission (SEC).

É uma aposta ousada quando se observa o que a empresa comandada por Elon Musk vem apresentando. Em 2025, a xAI, a empresa de IA criada às pressas em 2023 pelo bilionário, registrou receita de apenas US$ 3,2 bilhões e amargou prejuízo de US$ 6,4 bilhões — no total, a SpaceX teve prejuízo de US$ 4,9 bilhões. É uma pista do que vem pela frente.

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Equipe de Arte/O Globo

Nos próximos meses, será possível descobrir o quanto o setor de IA está sangrando apesar da promessa de um mercado trilionário. O IPO da SpaceX vai marcar a chegada à Bolsa dos principais expoentes da geração de empresas de IA “puro sangue”, que inclui OpenAI e Anthropic — ambas devem abrir capital em breve. Todas terão que provar que a revolução dos algoritmos vai além de discursos especulativos.

Infraestrutura

No entanto, o IPO da SpaceX carrega um componente que vai além de modelos superinteligentes e ferramentas corporativas, especialmente porque o Grok está longe de ser o sucesso que Musk imaginava — segundo a Similarweb, o chatbot tinha 17,8% do mercado em janeiro quando considerado apenas o tráfego por celular, bem atrás de ChatGPT (52,9%) e Gemini (29,4%).

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Egon Daxbacher, professor do Instituto de Tecnologia e Liderança (Inteli), explica:

— O capital sacou que a grande virada na IA, principalmente com a valorização da Nvidia, é infraestrutura porque os modelos estão virando commodity. A SpaceX está gritando: “estou entrando em infraestrutura”. A era da receita com publicidade, como nas redes sociais, acabou.

Ao contrário das companhias fundadas por Sam Altman e Dario Amodei, SpaceX é a única capaz de ter uma operação verticalizada, unindo data centers, infraestrutura espacial de internet, foguetes e modelos de ponta — e Musk planeja também criar os próprios chips de IA, por meio de um projeto de fábrica de semicondutores realizado em parceria entre SpaceX e Tesla que pode custar US$ 119 bilhões. No ano passado, gastou US$ 12,7 bilhões na construção de data centers e aquisição de hardware.

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O interesse do mercado por infraestrutura foi medido neste mês no IPO da Cerebras, empresas de chips especializados que, de fato, inaugurou a abertura de capital da nova geração da IA. No primeiro dia, as ações valorizaram 68%, jogando luz também sobre outras novatas dos processadores, como Groq, SambaNova e Tenstorrent. A Cerebras firmou um contrato de US$ 20 bilhões em três anos com a OpenAI para acesso a chips e servidores.

Guinada recente

A guinada da SpaceX para ser um império da IA é recente — há um ano os analistas só falavam de foguetes e satélites. Em março do ano passado, a xAI absorveu o X, conhecido anteriormente como Twitter. Fazia sentido: na era dos grandes modelos como principal expoente da IA, uma rede social que gera dados inéditos diariamente — e que tem base de usuários consolidada — é um grande ativo.

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Para quem planeja ter um conglomerado de IA, o caminho natural é fundir software (xAI) e hardware (SpaceX), o que aconteceu em fevereiro deste ano, com a compra da primeira pela segunda.

— Musk teve a grande sacada de que o foguete é só o caminhão para levar o hardware dele para o espaço. E tornou isso em diferencial competitivo no mundo da IA — afirma Daxbacher.

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Ronaldo Schemidt/AFP

Embora a SpaceX tenha se apoiado em contratos bilionários com a Nasa nos últimos anos, o mercado espacial parece estreito demais para as ambições de Musk. Nos documentos à SEC, a companhia estimou um mercado potencial de US$ 400 bilhões — no ano passado, essa divisão da empresa teve prejuízo de US$ 657 milhões mesmo dominando quase todo o mercado.

É um cenário que deve piorar já que a SpaceX começa a ver o surgimento de rivais no setor espacial privado, incluindo a Blue Origin, de Jeff Bezos, a Rocket Lab, a Firefly e a Stoke Space.

Grande demais para quebrar

Com o novo posicionamento, a SpaceX quer se tornar um pilar de todo o ecossistema de IA, dando conta não só das ambições geopolíticas do governo americano, mas também dos objetivos de empresas aparentemente rivais.

Recentemente, a companhia fechou um acordo de US$ 45 bilhões até 2029 com a Anthropic para dar acesso a 220 mil GPUs em seus data centers Colossus e Colossus 2 — o contrato foi necessário à medida que o sucesso do Claude explodiu entre desenvolvedores.

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Kirill Kudryavtsev/AFP

É um processo que torna a companhia inevitável, como explica Gustavo Macedo, professor do Insper:

— A busca agora é por segurança computacional. Embora Musk não lidere o mercado de IA, ele detém os gargalos de infraestrutura. Neste momento, os EUA dependem fortemente do sucesso da SpaceX. A companhia começa a se tornar too big to fail.

Vantagens da empresa

Para Macedo, o domínio da corrida da IA passa por quatro dimensões — a empresa que mais conseguir crescer em cada uma delas será coroada a vencedora do setor. São elas: usuários (que ele chama de “trabalho”), dados, materiais e energia. Nas duas primeiras categorias, a SpaceX disputa algum espaço, mas perde não só para OpenAI e Anthropic, mas também para nomes antigos, como Google e Meta.

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No entanto, a gigante tem potenciais vantagens nos outros dois pontos, que dificilmente poderão ser superadas no curto prazo. Em materiais, o braço espacial pode garantir acesso exclusivo a recursos naturais para a produção de componentes, como terras raras na Lua.

No quesito energia, a exploração e recursos da Lua pode garantir acesso ao Hélio-3, gás raro na Terra, mas abundante na superfície lunar. Ele é componente fundamental para a estabilização do processo de fusão nuclear, considerado o Santo Graal da energia limpa. O acesso a esse componente poderia alimentar não só data centers, como mudar a matriz energética do planeta.

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Ronaldo Schemidt

Data centers no espaço

No curto prazo, os foguetes também levam a outro caminho energético importante: a instalação de data centers no espaço. “Acreditamos que os foguetes reutilizáveis da SpaceX, a fabricação de satélites em escala e a expertise operacional podem viabilizar a implantação rápida e econômica de constelações massivas de satélites de computação para IA para data centers orbitais”, diz a companhia.

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Data centers desse tipo poderiam ter impacto para reduzir o consumo de água, pois seriam alimentados por energia solar e resfriados pela própria temperatura espacial. Com a crescente rejeição de comunidades em todo o mundo a essas infraestruturas e o apetite aparentemente infinito por resfriamento, o cérebro das IAs não têm mais lugar no planeta — em novembro, o Google anunciou o Project Suncatcher, que também visa a instalação dessas estruturas no espaço. A SpaceX planeja lançar 1 milhão de satélites a médio e a longo prazos.

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Se conseguir executar os dois planos, a SpaceX pode ser a grande vencedora da disputa da IA, como explica Macedo do Insper.

— O que o mercado está se perguntando agora é o que seria o equivalente da IA ao homem pisar na Lua. Quem pisa na Lua, ganha tudo.

Rearranjos e armadilhas

Segundo Daxbacher, do Inteli, o perfil único e o sucesso do IPO da SpaceX podem gerar um reorganização de todo o mercado de IA, com o dinheiro deixando alguns nomes conhecidos para seguir a trilha de Musk:

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— Não existe nenhum lançamento dessa magnitude que não vá desbalancear as carteiras de investidores, obrigando gestores de fundos a redirecionar o dinheiro. Isso significa uma potencial desvalorização das outras big techs, especialmente em decorrência de uma potencial valorização da SpaceX pós IPO. Tem gente apostando em alta de 80%.

Ainda assim, a companhia de Musk terá algumas armadilhas no caminho, algumas típicas de um conglomerado, como a verticalização excessiva e uma hierarquização rígida. Isso pode se acentuar porque alguns analistas preveem que a SpaceX pode absorver também a Tesla em um futuro próximo. Para Dan Ives, da Wedbush Securities, há mais de 80% de chance que isso aconteça.

Pressão dos investidores

Outro perigo para a companhia será a pressão que deverá receber após o IPO, o que pode também afetar a sua capacidade de desenvolvimento tecnológico — alguns fundos, como o Fundo de Pensão da Dinamarca, já vetaram investimentos em ações da SpaceX por considerá-las inflacionadas.

— Esse é um jogo que você precisa investir massivamente em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Só quem tem grana para isso são os conglomerados. O problema é que existe a pressão dos conselhos de administração que querem aumentar o volume de dividendos. E aí o volume de dividendos afeta diretamente o capital retido e isso vai para (P&D) na sua essência. É uma grande armadilha de uma empresa que vai abrir capital — afirma Daxbacher.

Macedo, do Insper, também destaca que a companhia passará a sofrer pressões não apenas por falhas internas, mas por sucessos da concorrência externa, seja em IA ou em avanços espaciais.

— Cada lançamento chinês que der certo afetará diretamente o valor de mercado da SpaceX — diz ele.

Assim, Musk e seus principais concorrentes vão precisar provar que a IA realmente é capaz de entregar os retornos dos quais se fala desde o boom do ChatGPT, principalmente em termos de infraestrutura. Dadas as complexidades do mercado, parece ser algo tão desafiador quanto colonizar Marte.

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