Não é só a Gen Z: idosos também passam horas no celular; veja impactos
O celular deixou de ser apenas um meio de falar com a família e passou a ocupar um espaço central na rotina de muitas pessoas idosas.
Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostram que brasileiros com 60 anos ou mais foram o grupo que mais ampliou o acesso à internet em 2025.
Para alguns, o smartphone representa autonomia, aprendizado e companhia.
Para outros, também pode esconder solidão, substituir relações presenciais e trazer desafios para a saúde física e mental.
Mas especialistas alertam: o número de horas diante da tela, sozinho, diz muito pouco sobre essa relação.
O TechTudo ouviu a médica geriatra Alessandra Tieppo, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia; o médico psiquiatra Thiago Henrique Roza, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e o psicólogo Walter Azevedo, especialista em Neuropsicologia, para entender os impactos do uso do smartphone no dia a dia das pessoas idosas.
Conversamos também com duas mulheres 60+, que contam qual é o lugar do celular na sua rotina.
Nesta matéria, entenda quando a tecnologia fortalece a independência e quando passa a exigir atenção da família e das próprias pessoas idosas.
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Uso do celular entre idosos cresceu e levanta debate sobre autonomia, solidão, saúde e dependência digital
Mariana Saguias/TechTudo
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Índice
Uso de celular entre pessoas idosas cresce no Brasil
Por que as pessoas idosas estão passando mais tempo no celular?
Dois perfis diferentes, um mesmo hábito
Quando o uso deixa de ser saudável?
Impactos na saúde física e mental da pessoa idosa
Quando o celular vira aliado da pessoa idosa
Como usar o celular de forma saudável?
Smartphone passou a ocupar parte do tempo antes dividido entre TV, telefone, visitas e tarefas da rotina
Reprodução/Magnific (antigo Freepik)
Uso de celular entre pessoas idosas cresce no Brasil
A presença de pessoas idosas na internet deixou de ser exceção.
Segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, 74,5% das pessoas com 60 anos ou mais usaram a internet no Brasil em 2025.
Embora o índice ainda seja menor do que o registrado nas demais faixas etárias, foi o que mais cresceu em relação ao ano anterior.
No mesmo período, 80,3% dos idosos tinham celular para uso próprio.
Na prática, isso significa que o smartphone passou a concentrar atividades que antes aconteciam em diferentes espaços.
Chamadas de vídeo, mensagens, redes sociais, serviços bancários, consultas médicas, aplicativos de saúde e grupos de família agora cabem na mesma tela.
O aparelho deixou de ser apenas um meio de comunicação para se tornar uma ferramenta de acesso a serviços, lazer e convivência.
Dados do IBGE mostram crescimento no acesso à internet entre pessoas com 60 anos ou mais no Brasil
Reprodução/Magnific (antigo Freepik)
Para a médica geriatra Alessandra Tieppo, membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), esse avanço acompanha uma mudança acelerada pela pandemia.
“Muitos pacientes utilizam aplicativos para organizar medicamentos, acompanhar indicadores de saúde, conversar com familiares por chamadas de vídeo e buscar informações sobre doenças”, aponta.
A especialista observa que a inclusão digital ampliou a autonomia de muitas pessoas idosas, mas ressalta que o acesso à tecnologia nem sempre vem acompanhado do preparo necessário para usá-la com segurança.
Dificuldades para reconhecer golpes, identificar informações falsas e navegar por aplicativos ainda fazem parte da realidade de uma parcela desse público.
Por que pessoas idosas estão passando mais tempo no celular?
O celular passou a ocupar parte do tempo que antes era dedicado à televisão, ao telefone fixo, às visitas e a outras atividades da rotina.
Hoje, a mesma tela concentra conversas com familiares, vídeos, notícias, receitas, serviços bancários, lembretes, grupos de WhatsApp e entretenimento.
Em muitos casos, essa mudança amplia a autonomia.
Em outros, revela uma rotina com menos interações presenciais.
Para o psicólogo Walter Azevedo, especialista em Neuropsicologia, esse comportamento precisa ser entendido dentro do contexto do envelhecimento.
Com a aposentadoria, a redução da rede de contatos e a diminuição de compromissos fora de casa, muitos passam a encontrar no smartphone uma das principais formas de manter contato com o mundo.
“Quando o idoso passa o dia inteiro na tela, no fundo ele está buscando pertencimento”, afirma Walter.
Especialistas apontam que celular pode funcionar como companhia, ponte com familiares e forma de pertencimento
Reprodução/Magnific (antigo Freepik)
Essa busca, porém, não deve ser interpretada automaticamente como um problema.
O celular também pode devolver à pessoa idosa uma sensação de independência ao facilitar tarefas do dia a dia, aproximar familiares e ampliar o acesso a serviços e informações.
O ponto de atenção, segundo o especialista, é perceber quando a tecnologia deixa de complementar a rotina e passa a ocupar o espaço de quase todas as formas de convivência.
"O aparelho devolve para o idoso uma independência que a própria rotina às vezes tira”, diz o psicólogo.
O médico psiquiatra Thiago Henrique Roza, professor da UFPR, faz uma ressalva semelhante.
Para ele, passar muitas horas no celular não significa, por si só, que exista uma dependência ou transtorno.
Segundo o psiquiatra, a análise deve considerar o que a pessoa faz no aparelho e, principalmente, o impacto desse comportamento na vida cotidiana.
Dois perfis diferentes, um mesmo hábito
Mariane Pimentel, de 67 anos, e Delfina Colão, de 82, têm rotinas bastante diferentes, mas compartilham um hábito: o celular ocupa um espaço importante no dia a dia.
Para as duas, o smartphone aparece como fonte de informação, entretenimento, aprendizado e contato com outras pessoas.
A diferença está na forma como cada uma incorporou a tecnologia à própria rotina.
Mariane mora sozinha e costuma usar o smartphone principalmente quando está em casa.
Nas segundas, quartas e sextas-feiras, ela passa a manhã na academia e só pega o aparelho depois das 14h.
Nos demais dias, admite que o celular faz companhia durante boa parte do tempo livre.
"Uso quase o dia todo quando estou em casa", resume.
Antes, ela conta que esse tempo era dividido entre a televisão e o computador.
Hoje, boa parte do consumo de informação e entretenimento acontece na tela do celular, principalmente por meio do Instagram.
Delfina (à esquerda) e Mariane (à direita) usam o celular de formas diferentes
Acervo pessoal/Delfina e Mariane
A rotina de Delfina é diferente.
Aos 82 anos, ela costuma pegar o smartphone principalmente à tarde e depois da novela.
O YouTube, o Pinterest e o WhatsApp concentram boa parte do uso.
Foi pela internet que ela encontrou uma forma de continuar desenvolvendo um antigo interesse: aprender novos pontos de crochê.
"A internet ensina muita coisa.
O que eu mais aprendo são os tutoriais de roupas e acessórios", conta Delfina.
Ela lembra que, anos atrás, passava mais tempo fora de casa ou assistindo televisão.
Hoje, algumas limitações físicas mudaram essa rotina e fizeram o celular ganhar outro papel.
"Não consigo mais fazer muitas coisas sozinha, então o que me resta é o celular", confessa.
Apesar das diferenças, as duas associam o smartphone à própria independência.
Mariane usa o aparelho para acompanhar assuntos de interesse e resolver tarefas da rotina.
Delfina, por sua vez, conversa com familiares, aprende novas habilidades, paga contas e mantém contato com outras pessoas.
Questionadas sobre como reagiriam caso o celular quebrasse, as respostas mostram o peso que ele ganhou na rotina.
"Desespero! Correria imediatamente para comprar outro", confessa Mariane.
"Ficaria estressada e entediada.
Não posso ficar sem celular, já que pago minhas contas e preciso dele para ligar para qualquer pessoa", afirma Delfina.
Quando o uso deixa de ser saudável?
O tempo de tela, sozinho, não responde se existe um problema.
Para os especialistas, o ponto central é o efeito do celular na vida real.
Se o aparelho amplia vínculos, organiza tarefas, estimula o aprendizado e ajuda na autonomia, ele pode ser um aliado.
Se passa a substituir atividades importantes, gerar conflitos ou prejudicar sono, saúde e convivência, a relação muda de lugar.
Na avaliação do médico psiquiatra Thiago Henrique Roza, o uso problemático de smartphones ainda não é reconhecido como um diagnóstico oficial em manuais como a CID-11 e o DSM-5.
Ainda assim, a psiquiatria observa sinais semelhantes aos de outras dependências comportamentais, como perda de controle, dificuldade para reduzir o uso e continuidade do comportamento mesmo diante de prejuízos.
“Se o uso começa a comprometer a autonomia, a saúde, os relacionamentos ou a qualidade de vida, é um sinal de alerta”, lembra o psiquiatra.
Esses prejuízos podem aparecer de maneiras diferentes.
Há pessoas idosas que passam a dormir pior porque ficam no celular até tarde.
Outros reduzem os encontros presenciais, abandonam atividades fora da tela ou recorrem ao smartphone para aliviar sentimentos de tristeza, ansiedade, luto e solidão.
Mariane Pimentel percebeu um desses impactos na própria rotina.
Ela conta que, em alguns momentos, acaba perdendo a noção do tempo enquanto usa o celular.
"Às vezes chego atrasada porque me distraio com o celular.
Tenho me policiado mais para que isso não aconteça", diz.
Uso excessivo merece atenção quando afeta sono, convivência, autonomia, humor ou atividades fora da tela
Reprodução/Magnific (antigo Freepik)
Para Thiago Roza, episódios isolados não caracterizam um transtorno.
O que merece atenção é quando esse tipo de situação deixa de ser exceção e passa a comprometer a rotina de forma frequente.
O psicólogo Walter Azevedo também chama atenção para sinais que costumam passar despercebidos pela família.
Segundo ele, mensagens de "bom dia", correntes e interações repetidas em grupos podem funcionar como uma tentativa de manter vínculos.
"A gente costuma achar ótimo ver o idoso ali, quietinho no celular, mas existe uma linha muito tênue entre o que é distração e o que já virou um refúgio", alerta.
Impactos na saúde física e mental da pessoa idosa
Os efeitos do uso prolongado do celular não aparecem apenas na rotina.
Eles também podem afetar a saúde física e emocional, especialmente quando o aparelho é utilizado por muitas horas seguidas e sem pausas.
Segundo a médica geriatra Alessandra Tieppo, o uso contínuo do smartphone favorece dores cervicais e lombares, desconforto nos punhos e nas mãos, fadiga visual e piora da qualidade do sono.
Delfina Colão percebe esses efeitos no próprio corpo.
Depois de passar longos períodos sentada usando o celular, ela conta que costuma sentir dores na coluna.
"Por vezes, sinto muitas dores na coluna pelas horas sentada de mal jeito e olhando para baixo", relat.
Para a geriatra, além da postura inadequada, outro fator merece atenção: o excesso de informação.
Notícias falsas, conteúdos alarmistas e notificações constantes podem aumentar sintomas de ansiedade e estresse, principalmente entre pessoas mais vulneráveis.
Tempo prolongado no celular pode causar dores, fadiga visual, piora do sono e impactos emocionais em idosos
Reprodução/Magnific (antigo Freepik)
Na saúde mental, aliás, a relação entre o celular e o bem-estar costuma ser mais complexa.
O psiquiatra Thiago Roza explica que, muitas vezes, o uso intenso do smartphone não é o problema principal, mas uma consequência de outras dificuldades, como depressão, ansiedade, luto ou solidão.
A aposentadoria, a viuvez, a saída dos filhos de casa e a diminuição de contato social também pesam.
Para Thiago, essas mudanças podem aumentar sentimentos de solidão, perda de propósito e diminuição do senso de pertencimento.
Jovens e idosos podem passar horas no celular, mas por motivos diferentes: enquanto a Geração Z busca validação e likes, muitos idosos procuram pertencimento e companhia
Reprodução/Magnific (antigo Freepik)
“Quando o celular complementa uma vida social ativa e outras atividades prazerosas, tende a trazer benefícios.
Já quando passa a substituir quase todas as formas de interação e lazer, pode contribuir para manter ou agravar o sofrimento psíquico”, afirma o psiquiatra.
Quando o celular vira aliado da pessoa idosa
Apesar dos riscos, os especialistas evitam tratar o celular como um vilão.
Quando amplia a autonomia, facilita o contato com familiares, estimula o aprendizado e ajuda a resolver tarefas do dia a dia, o smartphone pode contribuir para um envelhecimento mais ativo.
Para a médica geriatra Alessandra Tieppo, esse é justamente o principal benefício da tecnologia.
"A tecnologia deve ser vista como uma ferramenta para ampliar autonomia, participação social e qualidade de vida.
Quando utilizada de forma consciente e segura, ela pode contribuir significativamente para um envelhecimento mais ativo e conectado", defende.
As histórias de Mariane e Delfina mostram esse potencial na prática.
Mariane usa o celular para acompanhar notícias, acessar conteúdos de interesse e organizar parte da rotina.
Já Delfina encontrou no smartphone uma forma de aprender novas técnicas de crochê, conversar com familiares, pagar contas e manter a independência em atividades que antes exigiam mais ajuda.
Na avaliação do psicólogo Walter Azevedo, o aparelho também pode devolver à pessoa idosa uma sensação de controle sobre a própria vida.
Resolver pendências, buscar informações e se comunicar sem depender constantemente de outras pessoas reforça a autonomia e contribui para a autoestima.
Entre entretenimento, organização da rotina e aprendizado, o celular aparece de formas diferentes na vida de cada idoso
Reprodução/Magnific (antigo Freepik)
O especialista acredita que ferramentas baseadas em inteligência artificial podem ampliar esse potencial ao estimular memória, raciocínio e curiosidade.
"Interagir com o sistema funciona quase como uma academia para o cérebro", defende.
Thiago Henrique Roza faz uma avaliação semelhante.
Segundo o psiquiatra, ferramentas digitais podem facilitar o acesso à informação, estimular o aprendizado e reduzir momentaneamente a sensação de solidão, desde que funcionem como apoio às relações sociais — e não como substitutas delas.
“O objetivo deve ser utilizá-la para ampliar conexões e promover autonomia, e não para reforçar o isolamento”, alerta.
Como usar o celular de forma saudável?
Não existe uma quantidade de horas capaz de definir, sozinha, se o uso do celular é saudável.
Para os especialistas ouvidos pelo TechTudo, a principal recomendação é observar o papel que a tecnologia ocupa na rotina da pessoa idosa e incentivar o equilíbrio.
A médica Alessandra Tieppo reomenda as seguintes práticas:
Fazer pausas regulares durante o uso do aparelho;
Levantar-se a cada 30 ou 60 minutos;
Manter o celular próximo à linha dos olhos;
Evitar utilizar o smartphone nas horas que antecedem o sono;
Ajustar brilho, contraste e tamanho das letras para reduzir o esforço visual.
Segundo ela, outro cuidado importante é preservar atividades fora da tela.
"O ideal é priorizar atividades presenciais, prática de exercícios físicos, convivência social e hobbies", recomenda.
A segurança digital também merece atenção.
Segundo os especialistas, os familiares devem orientar os idosos sobre riscos, configurações de segurança e fraudes digitais sem retirar deles o controle sobre o próprio celular.
Explicar com paciência costuma ser mais eficaz do que proibir ou infantilizar, o que pode aumentar vergonha, medo e dependência.
Com informações de IBGE e G1
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