Não é a quantidade de chuva que muda com o calor extremo, mas sua distribuição; entenda estudo
A história do clima guarda pistas que os modelos atuais ainda não conseguem decifrar por completo. Em períodos de aquecimento extremo do passado remoto, a chuva não apenas mudou de quantidade, mas passou a cair de forma irregular, concentrada e imprevisível — um padrão que pode se repetir num planeta cada vez mais quente.
É o que aponta um estudo recente publicado em dezembro na Nature Geoscience, que analisou como a precipitação respondeu a episódios de calor intenso no início do Paleógeno, entre 66 e 47,8 milhões de anos atrás. Ao examinar registros geológicos desse período, os pesquisadores buscaram entender os riscos climáticos que podem emergir nas próximas décadas.
Quando chover passa a ser tão importante quanto quanto chove
Os dados indicam que regiões polares experimentaram condições úmidas, semelhantes a regimes de monções, enquanto áreas continentais de latitudes médias e baixas enfrentaram longos períodos de aridez, interrompidos por chuvas intensas. Segundo os autores, essas transformações ocorreram cerca de três milhões de anos antes e persistiram por sete milhões de anos após o Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (PETM), quando as temperaturas globais superaram os níveis pré-industriais em até 18 °C.
O achado contraria a lógica tradicional segundo a qual áreas úmidas tenderiam a ficar mais úmidas e regiões secas, mais secas com o aquecimento global. “A umidade polar e a aridez em latitudes médias indicam um desvio da resposta esperada”, afirma o artigo, destacando que as mudanças não estavam associadas às médias anuais de precipitação, mas à sua distribuição sazonal e interanual — com estações chuvosas mais curtas e intervalos mais longos entre eventos.
Para reconstruir esse cenário, a equipe combinou evidências indiretas preservadas no registro geológico, como fósseis de plantas, solos antigos e sedimentos fluviais. Esses indicadores permitiram estimar não só o volume de chuva, mas também sua intermitência e intensidade. Em declaração à Universidade de Utah, o coautor Thomas Reichler explica que o formato e o tamanho de folhas fossilizadas ajudam a inferir condições climáticas passadas, enquanto a estrutura dos antigos leitos dos rios revela se a água corria de forma constante ou em enxurradas violentas após longas secas.
Embora reconheçam margens de incerteza nessas reconstruções, os autores alertam que elas representam a melhor ferramenta disponível para entender a resposta da atmosfera ao calor extremo. O estudo sugere ainda que os modelos climáticos atuais subestimam o potencial de chuvas caóticas em cenários de aquecimento acentuado, o que pode comprometer estratégias de gestão hídrica e de proteção da agricultura.
A principal lição, concluem os cientistas, é clara: em um mundo mais quente, a confiabilidade e o momento das chuvas serão mais decisivos do que as médias anuais. Para ecossistemas e sociedades, não bastará saber quanta água cairá ao longo do ano, mas se ela virá de forma previsível — ou concentrada em tempestades destrutivas após períodos prolongados de seca.
