Nada de pacientes sentados, de secretária entediada e revistas à mesa: o admirável mundo novo da telemedicina
“Dois meses?” Quando liguei para o plano atrás de um especialista, este foi o prazo que me deram. Sei que sou ansioso, mas penso que sessenta dias é um exagero para qualquer um. A atendente me ofereceu uma saída:
O 'feirão do carro usado': quem ainda tem paciência para esses apps de relacionamento?
O que pensam os homens? As mulheres querem saber o que se passa na cabeça masculina e não conseguem
— Acabou de surgir uma desistência. A consulta pode ser amanhã de manhã. Por celular.
Conformado, aceitei entrar na era das teleconsultas. Antes de continuar o relato, devo explicar ao leitor que sou um romântico da medicina: acredito mais nos pequenos gestos de atenção de um médico do que nas grandes e avançadas tecnologias dos hospitais. Valem mais algumas palavras do que muitos exames.
Sou saudosista também: a relação entre pacientes e doutores era mais próxima. Ao entrar no consultório, perguntava-se pela família, falava-se da vida, dos sonhos, das dores. Só então vinha o estetoscópio, o remédio, a cura. Outros tempos.
Vamos voltar ao admirável mundo novo da telemedicina, que o espaço é curto. De manhã cedo já estou numa sala de espera virtual. Nada de pacientes sentados, de secretária entediada, de Caras e Vejas espalhadas na mesa. À minha frente, só uma telinha em branco. Sala de espera sem ninguém dá uma solidão danada.
A consulta começa. A médica é uma moça jovem. A minha vontade é perguntar sobre o seu esforço para chegar até ali, sobre o orgulho dos seus pais pela filha médica, sobre o que ela pensa da profissão. Melhor não, é uma conversa que não cabe no celular. Aqui tenho que ser rápido e objetivo. Ela é gentil, mas fala comigo teclando sem parar, imagino que esteja preenchendo formulários ou autorizações. Também suponho que na sua tela exista uma lista mostrando as dezenas de pacientes que ela precisa atender no dia. Ou um alerta do plano, mandando acelerar a consulta. Estou tão concentrado em falar rápido que acabo me atrapalhando com os sintomas e roubando tempo da doutora. Me sinto culpado: será que ela vai ser punida? Será que o algoritmo vai mandar o plano aumentar a minha mensalidade?
Ela me envia um pedido de exame pelo aplicativo e uma receita por SMS. É só isso, estamos conversados. Me sinto frágil, mas penso que tenho sorte, talvez a próxima consulta seja com um robô de jaleco ou pelo WhatsApp mesmo, zanzando por dezenas de questões de múltipla escolha.
Se eu tivesse um banco como o do Vorcaro, não me interessariam jatinhos ou iates. Muito menos comprar políticos ou juízes. Meu luxo seria ter um consultório em casa, com um médico residente. Eu chegaria cedo e ficaria a manhã toda conversando sobre aquela enxaqueca que, na verdade, é a dor de algo que se foi, um amor que não deu certo e virou uma cicatriz, uma dor de barriga que veio junto com uma notícia inesperada.
Aqueles penduricalhos todos do Judiciário? Trocaria por um auxílio-atenção, que usaria para que os médicos tivessem todo o tempo do mundo para investigar os males que me incomodam.
Talvez um dia os planos de saúde se deem conta de que vale a pena pagar um pouco melhor aos médicos para que tenham mais tempo. Quinze minutos a mais de conversa, ainda que fiada, podem representar menos problemas graves no futuro. De toda a medicina, a atenção me parece o remédio mais barato e eficiente. Tenho certeza de que os orgulhosos pais da gentil doutora concordam comigo.
É preciso que médicos e planos sejam mais pacientes.
