Num movimento inédito em relação às seis campanhas anteriores, o marqueteiro Raul Rabelo apresentou ao eleitor brasileiro o candidato "Lula da Silva". Em quase 50 anos de vida pública, desde que se tornou conhecido como líder sindical nas greves do ABC paulista e entrou para a política, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva consolidou no imaginário nacional a marca "Lula". Desta vez, ao pleitear um quarto mandato, a aposta dos publicitários é explorar, também, o sobrenome "Silva", o mais popular do Brasil, o nome que representa a "grande família brasileira".
Em novembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, pela primeira vez, um levantamento apresentando os sobrenomes mais populares do país. Entre os cerca de 200 mil divulgados, sem surpresas, o sobrenome "Silva" apareceu no topo, identificando 34 milhões de brasileiros, ou 16,7% da população. Assim como Lula, a maioria dos "Silvas" é formada por nordestinos. De acordo com o instituto, 35,7% dos "Silvas" são alagoanos, e 34,2% são pernambucanos.
Segundo uma fonte da campanha, foi do publicitário Raul Rabelo a ideia de resgatar o "Rap do Silva", do MC Bob Rum, um marco do funk carioca, que foi o mais tocado em 1996, e se tornou hit dos bailes nos anos 90. A música se transformou no jingle oficial da campanha. A canção materializou a ideia do time de criação de trabalhar, desta vez, o sobrenome de Lula, a fim de resgatar a biografia do petista, relembrar a trajetória dele, e reforçar sua identificação com o brasileiro comum.
O clipe "Rap do Silva" foi exibido no lançamento da campanha nesse domingo (17), no estádio da Vila Euclides, e um dos principais grupos de dança de rua, o "Street Breakers Crew", se apresentou no palco ao som do funk. Minutos antes, a primeira-dama Rosângela (Janja) da Silva havia sublinhado a estratégia. Ela abriu o seu discurso afirmando que também nasceu "Silva", com o sobrenome herdado do pai. E frisou: "Com muito orgulho, nasci nessa grande família brasileira, assim como milhões de mulheres espalhadas por esse país".
A letra original de MC Bob Rum, da versão original de 1995, entretanto, retratava a dura realidade do trabalhador da periferia, homem de família, que tinha como opção de lazer ir ao baile dançar. O "Silva" do músico teve um fim trágico, como vítima da violência, característica do local onde vivia. O refrão dizia: “Era só mais um Silva, que a estrela não brilha/ Ele era funkeiro, mas era pai de família”.
Na releitura para o jingle, em que a letra narra a trajetória de Lula da infância no sertão até o berço político em São Paulo, o candidato surge como o Silva da estrela que brilha, em alusão ao símbolo do PT. "Era só mais um Silva, com a estrela que brilha/ Trabalhava o dia inteiro, e cuidava da família". A letra dialoga com um dos desafios do petista, que tenta convencer o eleitor que, após décadas no poder, ele é "antissistema": "Enfrentou o sistema, fez o povo prosperar, fala de soberania (...) É o Lula da Silva, é a estrela que brilha, ele é brasileiro, trabalhador e família". Silva enfrenta menos rejeição que Lula
Para o fundador do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, que há mais de 20 anos realiza pesquisas com foco na população de baixa renda, a estratégia de explorar o "Silva" parece acertada, mas resta saber se funcionará.
Em primeiro lugar, Meirelles aponta que o "Silva" enfrenta menos rejeição que o nome "Lula". É, portanto, um caminho para driblar o forte antipetismo, num cenário em que a rejeição ao candidato do PT ultrapassa os 50 pontos percentuais na maioria das pesquisas. Segundo a última rodada da Quaest, Lula é rejeitado por 52% dos eleitores, enquanto seu principal oponente, Flávio Bolsonaro (PL), alcança a marca de 54%.
Ao mesmo tempo, Meirelles observa que o "Silva", embalado em um funk clássico, pode ajudar o petista a criar uma identidade com os jovens de periferia, um público cujos pais podem ter visto a vida melhorar nos primeiros mandatos de Lula. Na realidade atual, entretanto, essa juventude ainda tem dificuldade de estudar e encontrar o primeiro emprego, ressaltou.
A estratégia começou a vir à tona ainda na convenção nacional do PT, no dia 2 de agosto, que oficializou a candidatura do petista, com o lançamento do jingle, e com o figurino de Janja. No evento, ela vestiu uma camiseta estampada com o retrato de Lula aos três anos, e do lado, em destaque, na vertical, apenas o nome "Silva". A foto do acervo pessoal do presidente aparece na capa do livro "O menino Lula", do repórter Audálio Dantas. Na sexta-feira (14), Janja repetiu a camiseta na entrevista do petista ao popular podcast "Não Inviabilize".
A opção pelo funk também inovou ao romper com a tradição dos jingles em ritmos nordestinos, aproximando o candidato do som mais popular do país, principalmente, nas periferias brasileiras. Em 2022, Janja e o fotógrafo Ricardo Stuckert lideraram a regravação, com novos artistas, do jingle mais famoso das campanhas lulistas, "Sem medo de ser feliz", de 1989.
Em seu perfil nas redes sociais, MC Bob Rum comemorou, em uma postagem no fim de julho, que o "Rap do Silva" tenha sido adotado pela campanha de Lula para "ungir a travessia" do político que chamou de o "maior estadista" do Brasil. Em retribuição, Lula escreveu "obrigado, companheiro!", agradecendo o talento do músico, e a parceria na luta por um "país mais justo e igualitário".
Entretanto, os mais de 1.800 comentários na publicação sobre o uso do funk na campanha lulista se dividiram. Uma parcela elogiou o feito, enquanto outros criticaram a opção política do músico. Um seguidor escreveu, em tom de ironia, que Lula é "o único Silva que saiu da pobreza". Ao mesmo tempo, os adversários aproveitaram a deixa para atacar o petista. Aliados de seu principal oponente, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, fizeram uma paródia do jingle. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), principal influencer da oposição, replicou a provocação, cuja letra diz que Lula deixou o Sertão "para roubar" e "para fazer o brasileiro chorar.
Valor