Na nova era espacial, IA ajudou Nasa a monitorar saúde de astronautas e a prever tempestades solares
Não é exagero dizer que o cinema desempenhou um certo papel oracular na história da corrida espacial. Basta lembrar que, nas telas grandes, o homem chegou à Lua já em 1902, com Georges Méliès, que profetizou em seu “Viagem à Lua” o voo de Neil Armstrong & Cia na Apolo 11, que só ocorreria em 1969. No campo da ficção, enfim, os exemplos da interação dessa tecnologia com o homem seriam incontáveis. Só que agora, irreversivelmente, a IA começa a se integrar com força ao trabalho dos astronautas, como aconteceu na recente missão Artemis II, da Nasa, no início deste mês.
Durante o voo, as tarefas da IA foram totalmente positivas: monitorar, interpretar dados, detectar padrões e ajudar os humanos a decidir melhor.
— A inteligência artificial foi usada principalmente para conduzir e analisar os sistemas da Artemis II, para entender se existe alguma anomalia — explica a astrofísica brasileira Roberta Duarte Pereira, cuja pesquisa utiliza IA na análise de plasma espacial e na identificação de buracos negros. — Ela é capaz, por exemplo, de monitorar com precisão os tanques de oxigênio da nave, que explodiram na Apollo 13, em 1970. Serve também para mapeamento, analisando rapidamente as sete mil imagens que a missão produziu.
A lista de tarefas da IA no espaço é extensa. Ela pode ajudar a prever falhas antes que virem problema, acompanhar em detalhe a saúde da tripulação, interpretar volumes massivos de telemetria, otimizar planejamento de rotas e consumo de recursos, além de apoiar decisões em contextos nos quais a comunicação com a Terra não é instantânea, como nos 50 minutos em que os astronautas passaram incomunicáveis no “lado escuro” da Lua. Em missões lunares mais longas e, principalmente, em futuras viagens a Marte, esse papel só tende a crescer.
No caso da Artemis II, o uso mais efetivo de IA se deu no acompanhamento da própria tripulação. A Nasa informou que os astronautas participaram do estudo ARCHeR, voltado a desempenho cognitivo, comportamental e fisiológico durante a missão. Sensores de sono, movimento e outras medições serviram para entender como cada integrante respondeu ao isolamento, à carga de trabalho e ao ambiente espacial.
Todo cuidado é pouco. Uma missão além da órbita baixa exige mais autonomia da tripulação, e qualquer perda de atenção, fadiga ou descompasso entre humanos e sistemas pode ter peso operacional. A IA funciona como ferramenta de leitura e organização de sinais que seriam difíceis de acompanhar manualmente, sobretudo em tempo real.
Também foi utilizado um algoritmo desenvolvido pela Universidade de Michigan para prever tempestades solares com 24 horas de antecedência, protegendo os astronautas da radiação no espaço profundo. A tecnologia ajudou a recalibrar a nave Orion e otimizar a segurança contra radiação, marcando outro avanço no monitoramento da saúde da tripulação.
Momento histórico
A Artemis II foi a primeira missão tripulada do programa Artemis, com um voo de pouco mais de nove dias ao redor da Lua para validar sistemas da nave Orion, do foguete SLS e da infraestrutura operacional necessária para missões mais ambiciosas.
Roberta Duarte Pereira acredita que estamos em uma nova era espacial.
— Quando a gente vive um momento histórico, às vezes não se dá conta e só percebe anos depois — diz. — Mas, com certeza, vivemos uma era de ouro, uma segunda corrida espacial. Dessa vez, entre EUA e China, que também tem planos de pousar na Lua até 2030.
Diga-se que a programação oficial da Nasa já mudou: a agência reposicionou o primeiro pouso lunar tripulado para 2028, enquanto a data anterior (2027) deve servir a uma missão intermediária em órbita baixa para testar a acoplagem e integração com veículos comerciais.
Ainda sobre IA, a Nasa divulgou, em janeiro de 2025, que a tecnologia já ocupa funções centrais em suas operações. A lista reúne aplicações ativas que vão da navegação autônoma do rover Perseverance em Marte ao planejamento de missões e à análise de dados científicos, passando por sistemas de monitoramento ambiental de vulcões, enchentes e incêndios, ferramentas para classificação de solo marciano e soluções para o controle do tráfego aéreo.
Quanto mais informação uma missão produz, menos viável é depender apenas da leitura humana linear. A IA mostrou bons resultados quando usada para filtrar ruído, priorizar alertas e sugerir interpretações. Por outro lado, em voos tripulados, essa capacidade ainda é tratada com cautela. A documentação da Nasa sobre modelagem e simulação deixou claro que sistemas baseados em machine learning exigem validação rigorosa, principalmente quando relacionadas a questões críticas para segurança. Nesse ponto, a experiência da Artemis II mostrou que a IA não deve assumir o comando dos voos tão cedo, mesmo ampliando imensamente a capacidade humana de perceber, antecipar e reagir melhor em um ambiente onde errar custa muito caro.
