Na feira de Hanôver, Brasil destaca a viabilidade dos biocombustíveis

 

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O mercado de biocombustíveis foi um dos principais assuntos para o Brasil na feira de Hanôver deste ano. O setor, que enfrenta resistência regulatória na Europa, foi eleito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um tema central, tanto nas reuniões bilaterais quanto nos discursos públicos. Não faltam motivos para o destaque em torno do segmento: a pressão global por descarbonização, a guerra no Oriente Médio que tem pressionado o preço do petróleo e a entrada em vigor do acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul são apenas alguns deles.

O presidente Lula trouxe o tema dos biocombustíveis em diversos discursos feitos durante sua visita de três dias à Alemanha. Ele disse ser “um defensor intransigente dos biocombustíveis” e que o Brasil pode se transformar em espécie de Arábia Saudita dos combustíveis renováveis.

Além disso, afirmou que “os alemães não podem acreditar na mitologia, dito por alguns que são contra a inovação tecnológica na área de combustível, de que o combustível brasileiro atrapalha a produção de alimentos”: “Ninguém come biodiesel”.

“O Brasil é muito bom para a biomassa, que pode ser utilizada para qualquer coisa, você pode criar biogás, SAF (Combustível Sustentável de Aviação), hidrogênio, etanol. É exatamente onde o Brasil é competitivo para a transição energética”, afirmou Pablo Fava, presidente da Siemens no Brasil.

A empresa sediada na Alemanha e presente no Brasil há mais de 100 anos vê um grande potencial de expansão do setor de biocombustíveis. Diante do avanço de produtos como o hidrogênio verde, aço verde e SAF, a companhia decidiu criar uma equipe dedicada ao segmento, para buscar soluções inovadoras de eficiência para a cadeia.

— Queremos incorporar o biocombustível como um novo vetor de tecnologia no Brasil.

Restrições

Apesar do potencial, as empresas apontam entraves para crescer na Europa. Entre as restrições regulatórias, está uma regra que poderá limitar o uso de biodiesel de soja na UE para fins de atingimento de regras de descarbonização. No caso da aviação, já estão em curso restrições ao uso de biocombustíveis de base agrícola.

Sem acesso ao mercado europeu, a produção perde escala e competitividade, segundo Camilo Adas, diretor de transição energética e relações institucionais da Be8, uma das principais produtoras brasileiras do setor, que participou da feira de Hanôver.

O executivo lista três aspectos que hoje travam o avanço dos biocombustíveis na UE. O primeiro é o dilema do “food versus fuel”, ou seja, a preocupação de que as terras que podem ser usadas no plantio de alimento sejam destinadas para combustíveis.

—A produção de alimentos na Europa é muito fragmentada. Produzir alimentos na Europa é diferente de produzir alimentos no Brasil. Isso acaba gerando uma restrição enorme. No Brasil, temos três safras, uma produção extremamente eficaz, e há um desconhecimento enorme do processo produtivo— afirma Adas.

O segundo ponto destacado por Adas é a dificuldade de produtores brasileiros conseguirem comprovar, por meio das regras e certificações europeias, que as áreas de plantio não são de florestas desmatadas para a produção.

O terceiro aspecto, segundo ele, é uma questão geopolítica, dado que a indústria europeia não produz biocombustíveis e tem investido em outras tecnologias, como a eletrificação. Para o executivo, essas travas não são manifestamente protecionistas, mas na prática criam barreiras de mercado.

Descarbonização

Na avaliação do CEO da Bayer no Brasil, Marcio Santos, a posição europeia não se sustenta e desconsidera que parte da produção do etanol de milho é proveniente da segunda safra do grão, produzida na mesma área da soja:

—Existe uma narrativa que diz que, se aumentar a produção de biocombustível, vai desmatar. E não é isso. Temos uma área disponível hoje no cerrado em que se produz soja e pode se converter em milho na segunda safra.

Com a experiência de décadas na produção do etanol, o Brasil tem condições de contribuir para a descarbonização do transporte no mundo, defende Santos.

— O biocombustível no Brasil é algo consolidado, estável, com tecnologia pronta e replicável em todos os países do mundo. Estamos prontos para ajudar nessa transição — diz.

O setor automotivo também acompanha de perto o tema, dada a experiência brasileira com veículos “flex”.

—Se a Alemanha abraçar essa tecnologia, eu falo parabéns, porque nós temos experiência com ‘flexfuel’ já há mais de 20 anos e podemos trabalhar junto para aplicar— disse Alexander Seitz, presidente-executivo da Volkswagen na América do Sul, que vê as negociações entre os países realizadas em Hanôver como positivas nesse sentido.

*Taís Hirata e Lucianne Carneiro, do Valor