Na comissão de frente e nos bastidores do desfile da Beija-Flor, designer exalta papel da mulher: conheça Veronica Valle
Nas últimas semanas, Veronica Valle tem vivido uma rotina intensa, saindo diariamente de sua casa, na Barra, para a Cidade do Samba, onde trabalha na comissão de frente da Beija-Flor de Nilópolis, que desfila nesta segunda de carnaval. Ela atua na criação e na concepção da ala, em parceria com os coreógrafos Saulo Finelon e Jorge Teixeira.
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— Tenho o perfil de estar perto, com os aderecistas. É uma obra de arte, precisa deste olhar — explica a diretora de criação e designer, que também concebe projetos para restaurantes e faz cenografia de peças de teatro e programas de TV.
É o segundo ano dela na escola da Baixada Fluminense, e já defendendo o título. A Beija-Flor foi campeã no ano passado com nota máxima em todos os quesitos. Quis o destino que o dela tivesse um destaque especial. Por sorteio, o quesito Comissão de Frente ficou por último na abertura dos envelopes na apuração, e foi justamente quando saiu a terceira das quatro notas 10 conquistadas por sua equipe que a comunidade soube que poderia celebrar a vitória. Parece um detalhe, mas a vice-campeã Grande Rio terminou com apenas um décimo a menos.
— Falávamos que era muita pressão, porque a ideia era arriscada, eram 252 velas que emergiam de um piso. E ainda era o meu primeiro ano — recorda. — Começamos este ano dizendo que o mais importante era fazer um bom trabalho. Mas não tem jeito, a gente quer o bicampeonato. Vamos viver de novo essa loucura, mas eu sou apaixonada por isso.
Veronica Valle, que cria a concepção da comissão de frente da Beija-Flor, em seu estúdio, na Cidade do Samba
Júlia Aguiar/Agência O Globo
Depois de “gabaritar” em 2025, ela quer também levar um conceito ainda mais novo para o desfile deste ano, cujo enredo fala sobre o Bembé de Mercado, considerado o maior candomblé de rua, realizado há mais de 130 anos em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Veronica faz mistério sobre o que levará para a Avenida. Mas revela que a comissão de frente terá os mesmos bailarinos do ano passado, reforçados por Stephanie Vanira, bailarina do Theatro Municipal do Rio, como um destaque, retratando a força feminina. Ela se moverá sobre uma estrutura de metal, usando um vestido longuíssimo e cheio de badulaques, com a barra indo até o chão. De resto, Veronica conta que haverá uma troca de personagem durante a performance com o objetivo de transportar o espectador para um outro lugar, que o tripé (carro da comissão de frente) será um pouco menor do que o do ano passado e que ele será o centro da sua inovação. E mais não se arranca dela.
— No ano passado, começou um questionamento sobre os tripés, afirmando que eles engessam a comissão. Mas acho que o que manda é a ideia. Quero trazer um novo formato, sempre com um chão e uma dança fortes, nesta simbiose de interação completa com o corpo — explica ela, que concluiu o seu mestrado na UFRJ em 2025, com a dissertação “Comissão de frente: parte de um espetáculo ou um espetáculo à parte?”, em que escreve sobre a evolução das comissões ao longo da história e como elas foram se profissionalizando e ganhando particularidades.
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Nos barracões, também se debate o novo modelo de avaliação dos jurados — que terão notas descartadas antes da apuração e estarão posicionados em cabines dos dois lados da pista — e como isso pode impactar o desfile. Mas Veronica diz que seu trabalho continua igual.
— Agora fala-se de comissão 360° e de tripés redondos. Eu já pensava no desfile para a Avenida, e já dava conta deste todo. Sempre acreditei nisso — diz.
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Até a quinta-feira passada, seu nome não estava na ficha técnica no site oficial da Beija-Flor. Veronica conta que vem conversando com o presidente da agremiação para figurar ao lado dos coreógrafos, assinando como diretora de criação na comissão de frente. Este cargo não é comum nas escolas, e este é um espaço a ser conquistado, na sua visão.
— Não sei se esta função não existe em outras escolas ou se os nomes apenas não aparecem. Acho que cabe a mim, como criadora, buscar reconhecimento e formalizar este espaço, até para quem vem depois. Isso não é querer apagar um parceiro. Ao longo da história, muitas mulheres tiveram o seu trabalho criativo muito apagado. É um dever lutar por isso — defende.
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Em 2026, ela completa 20 anos do seu primeiro carnaval, onde entrou pela porta da frente. Ou melhor, pelas portas da comissão de frente da Viradouro, literalmente, já que sua ideia de colocar os bailarinos segurando portas na Avenida encantou a direção da escola de Niterói, cidade onde nasceu. De lá para cá, ela já concebeu comissões também de Imperatriz Leopoldinense, Mangueira, Império Serrano e Porto da Pedra.
Veronica Valle, que cria a concepção da comissão de frente da Beija-Flor, posa em frente ao carro abre-alas, do carnavalesco João Vitor Araujo
Júlia Aguiar/Agência O Globo
Aos 57 anos, Veronica voltou a morar na Barra há apenas três meses, para ficar mais próxima do seu escritório, após quatro anos na Gávea. Antes, tinha passado outras duas décadas no bairro. Agora, ela está perto também de alguns restaurantes para os quais já desenvolveu projetos, como o Mocellin Steakhouse e o Vamo. À distância, se faz presente nos créditos de um novo musical sobre a boneca Susi, que vai estrear em São Paulo, do qual assina a cenografia.
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Nos anos 2000, ela se mudou para a Barra para ficar mais perto do Projac, onde trabalhava em especiais de TV, como o “Criança Esperança”, o que acabou levando-a também para o mundo da Sapucaí.
— Fazia projetos com o Mário Monteiro, que era diretor de arte da Globo e também carnavalesco. Ele me convidou para pensar alguns carros alegóricos. Depois me apresentou o Ulysses Cruz (diretor de teatro), que me disse: “Tenho que te levar para a comissão de frente”. Era a época em que se queria levar o teatro para os carros, que eram muito parados — recorda.
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