Músicos da Canto Cego, banda de rock formada na Maré, celebram retorno ao Rock in Rio e falam do sonho de viver da música:

Músicos da Canto Cego, banda de rock formada na Maré, celebram retorno ao Rock in Rio e falam do sonho de viver da música: 'É um desafio'

Fonte: Bandeira da fonte

No dia 5 de setembro, o Espaço Favela do Rock in Rio 2026 recebe o rock de um quarteto formado na Maré.
A banda Canto Cego, integrada por Roberta Dittz (vocal), Rodrigo Solidade (guitarra), Magrão Kovok (baixo) e Ruth Rosa (bateria), celebra a segunda participação no festival nessa edição e adianta que tem pensado em figurinos especiais e até participação surpresa para apresentar ao público do evento.
A vocalista relembra:
— A gente participou em 2019, no primeiro ano do Espaço Favela.
Foi muito emblemático porque somos uma banda de rock que sempre sonhou em tocar no festival.
A gente não esperava que fosse ser chamado de novo, até por uma questão de circulação dos artistas que passam no evento.
Mas é ótimo poder voltar agora com o palco já tão importante e reforçando a nossa história.
Somos uma banda independente, que nasceu na favela da Maré.
São muitos altos e baixos.
E essa oportunidade é um grande estímulo.
Ainda no clima de nostalgia, o baixista lembra que a primeira vez que esteve no festival foi em 2001, quando trabalhou vendendo chope.
O sonho de cantar para aquela multidão começou ali, diz Magrão:
— Eu tinha 16 anos na época, não tinha condições de ir pagando.
Mesmo trabalhando, fiquei maravilhado com os shows, nunca tinha ido a um festival assim.
Pensei: “um dia eu vou tocar aqui”, aquela coisa de adolescente.
Agora voltar ao palco no evento é emocionante.
Depois da primeira aparição no festival, a divulgação da banda aumentou.
O grupo foi mais procurado para shows e apareceu até mesmo no Jornal Nacional.
A pandemia no ano seguinte, no entanto, fez com que o sucesso não crescesse tanto quando o esperado.
— Temos um trabalho dentro do underground até chegar no Rock in Rio.
Tocar lá fortaleceu a nossa história e nos deu muito mais visibilidade, e agora ainda mais voltando.
Mas não conseguimos colher tão bem os frutos por conta da pandemia.
Esse ano, vemos como uma segunda chance — diz Roberta, completando: — Entendemos também que tocamos no festival hoje e amanhã podemos estar em lugares menores, a coisa não é linear sempre.
Manter esse exercício de humildade e entender que faz parte também é importante.
'A Maré é nosso lugar comum'
Os músicos compõem a formação atual da banda há 13 anos.
Além de parceiros de palco, eles se tornaram também amigos.
E cada um deles tem uma origem diferente.
Roberta detalha:
— Magrão é de Santa Cruz, cresceu em Ramos, mas frequentava muito a Maré e tinha uma banda com outra galera de lá.
O grupo foi mudando a formação, até que saiu o vocalista, e eu entrei.
Nasci em Fortaleza, mas cresci Maricá.
Vim para o Rio fazer faculdade, e surgiu a oportunidade de tocar na Maré.
Eu não tinha vivência dentro de comunidade e, para mim, foi natural.
Como cresci em área rural, era próximo do que vivi quando criança.
Depois veio Rodrigo, que cresceu no Alemão; e Ruth, que é da Maré mesmo.
O Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, é o lugar que os uniu.
— Nos encontramos lá, a Maré é nosso lugar comum.
A banda nos juntou e hoje somos família.
Na favela, tínhamos um circuito estabelecido onde tocávamos em bares, eventos de rua...
Depois, começamos a nos inscrever em festivais e tocar em outros lugares da cidade — conta a vocalista.
Manter o grupo
“Se manter enquanto coletivo é difícil, já que hoje em dia muita coisa é voltada ao artista solo.
Em 13 anos, nunca mais mudamos a formação.
E nós somos pessoas completamente diferentes.
Eu comecei no grupo com 21 anos; hoje tenho 36.
Mudamos bastante também, as responsabilidades aumentaram.
Coordenar as quatro pessoas juntas, manter o propósito com desejo e disciplina é o maior desafio”, diz Roberta.
Sustento
“Não nos sustentamos com a banda, então temos nossos trabalhos extras, temos que coordenar nossas vidas e manter a banda viva.
Eu trabalho com edição de vídeo em algumas produtoras.
Magrão é tatuador e artista plástico, do grafite também.
Rodrigo é produtor musical, é o que está mais ligado ao universo da música, e também tem um trabalho com fotografia.
Ruth é veterinária e faz plantão às vezes, é uma loucura conciliar os horários, férias etc.
Estivemos com ela enquanto ela fazia a faculdade, se formando, tudo”, conta a vocalista.
Desejo
“Queria deixar registrado que tenho outros trabalhos, mas, se eu pudesse, viveria de música”, expressa Magrão.