Neguinho da Beija-Flor pode até ter se despedido da Sapucaí no ano passado, ou “passado o microfone para as novas gerações”, como diz, mas se engana quem pensa que a rotina do intérprete se acalmou.
“Os compromissos triplicaram”, brinca, falando sério, em entrevista ao GLOBO por telefone.
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A partir do dia 11, sua história poderá ser vista, ouvida e sentida no palco do Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, com “O Neguinho da Beija-Flor — Musical”, espetáculo dirigido por Luiz Antonio Pilar e escrito por Aydano André Motta, com o ator Izak Dahora (“aprovadíssimo” e “excelente”, segundo o próprio homenageado) no papel principal.
Neguinho assistiu a um único ensaio do musical.
Ele explica o porquê:
— Não tive condições de ver a segunda vez e ficar lá chorando de novo no meio de todo mundo (risos).
A emoção foi muito grande.
Quando soube do musical disse: “Será que mereço isso mesmo?”.
Às vezes me belisco — conta o cantor, antes de tentar imaginar a reação do público com o espetáculo.
— Quando você ganha certa notoriedade, as pessoas acham que você sempre foi aquilo.
Pensam que já nasci “A voz da Avenida”, mas vão poder ver que aquele samba que consagrou a Beija-Flor pela primeira vez no carnaval foi feito por um pretinho que morava num chiqueiro, pegava rã nas valas e só foi ter luz elétrica com 19 anos.
Antes da temporada carioca do musical, de onde vai assistir da plateia, ele ainda sobe ao palco do Teatro Rival, na Cinelândia, nesta sexta-feira (4), onde apresenta o show inédito “Neguinho da Beija-Flor canta sua história”:
— Pela primeira vez vou fazer show contando as histórias de cada música e o que cada momento representa.
O teatro conta a minha história e eu canto ela (risos).
Perguntei: “Será que isso dá certo?”.
Me disseram que sim.
Neguinho também celebra a forte relação com a escola de samba que o consagrou — e que é indissociável da sua própria história.
Ele destaca a coragem que teve de passar o bastão que foi segurado, com louvor, por cinco décadas.
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— Isso é, de fato, inédito no mundo do carnaval.
Ou o intérprete falece, ou é substituído, ou para por ter alguma doença...
fui o único que, com muita dor no coração, parei em plena atividade — comenta, antes de explicar que a Beija-Flor “é família”.
— Se não fosse ela, eu não seria hoje essa pessoa que as pessoas acham que sou (risos).
Ela é “minha vida, meu amor”, como diz meu samba que virou hino da escola.
A partir do próximo ano, no entanto, esse amor vai ser nutrido de outra forma durante o desfile.
É que no último carnaval, o primeiro de Neguinho fora do posto de intérprete, ele desfilou com os baluartes — e se sentiu “péssimo”:
— Passando (na avenida) sem cantar eu não me senti bem.
Não me arrependo, nunca.
Teria feito de novo.
Mas prefiro assistir.
Neguinho da Beija-Flor
Carolina Oliveira/Veromundo Fotografia/Divulgação
Nesse momento de olhar para trás e revisitar a própria história, o cantor de 77 anos se diz tomado por uma imensa gratidão.Viagens constantes a trabalho e demonstrações de carinho de fãs nas ruas, situações que poderiam ser desgastantes, são para ele motivo de celebração.
— Estou me sentindo maravilhosamente bem porque estou fazendo o que gosto e que sempre sonhei.
As únicas coisas que me fazem bem são a minha família e estar no palco.
Quando via Martinho (da Vila), Jamelão e tantos ídolos, meu sonho era chegar perto deles e fazer o que eles faziam — afirma.
— Essa foi a vida que pedi a Deus, mesmo sem imaginar que seria realizado dessa forma (risos), então fico superfeliz.
Não é nem pelo dinheiro.
É a satisfação mesmo de olhar e pensar: “Será que mereço isso tudo? Esse povo todo veio para me ver?”.
Para ele, o lado ruim de estar próximo dos 80 anos (a serem completados daqui a três anos, em 2029), “é ter que se conformar com o tempo passando”:
— Não posso e não tenho direito de pedir mais nada a Deus, ele me deu tudo.
Mas, se pudesse, pediria que a gente vivesse mais tempo (risos).
Daqui a três anos faço 80.
Pediria para voltar a ter 40, 50 (risos).
