Se algumas músicas parecem "doces", outras "amargas" e até "ácidas", talvez não seja apenas uma maneira criativa de descrevê-las.
Um novo estudo investigou como ouvintes associam características sonoras a sabores e encontrou padrões que aparecem em diferentes países, embora a cultura também influencie a maneira como essas sensações são percebidas.
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A pesquisa, disponibilizada como preprint em agosto, reuniu 361 participantes da Argentina, Itália e Japão.
Os voluntários ouviram trechos musicais criados por inteligência artificial a partir de quatro referências gustativas — doce, azedo, amargo e salgado — e avaliaram o que sentiam ao escutá-los, considerando não apenas sabores, mas também emoções e sensações de temperatura.
A proposta parte de uma ideia conhecida como associação entre sentidos: mesmo sem qualquer alimento por perto, determinados sons podem evocar características que normalmente pertencem ao paladar.
É o que acontece quando uma música é descrita como "suave", "quente", "brilhante" ou "áspera".
Nesse caso, a pesquisa levou a experiência um passo além para entender se essas conexões também poderiam ser relacionadas a sabores.
O som pode parecer doce?
Os resultados indicam que existe, de fato, uma relação entre determinadas características musicais e as associações gustativas feitas pelos ouvintes.
As músicas criadas para representar sabores não foram interpretadas exatamente da mesma maneira nos três países, mas alguns padrões permaneceram.
O sabor salgado foi o que apresentou a correspondência mais fraca entre os participantes.
Já as associações com doce e azedo apareceram com maior consistência, sobretudo entre argentinos e italianos.
No Japão, a preferência pelos trechos desenvolvidos para representar os sabores não se repetiu da mesma forma.
Para o DJ e produtor musical brasileiro JESTFLY, a ideia ajuda a explicar por que uma música pode provocar impressões que parecem não ter relação direta com o que está sendo ouvido.
"Uma música pode transmitir sensações que vão muito além do que a gente escuta.
Timbre, frequência, ritmo e harmonia conseguem criar associações que o cérebro relaciona até com outros sentidos", afirma.
A mesma música pode provocar sensações diferentes
A comparação entre os países é uma das partes mais interessantes do estudo.
Os pesquisadores encontraram diferenças nas avaliações feitas pelos participantes, mas também observaram que parte dessa variação estava relacionada à maneira como cada grupo utilizava as escalas de resposta.
Depois que essas diferenças foram consideradas, ainda permaneceram alguns contrastes na forma como os sabores eram relacionados aos sons.
Isso significa que não existe uma espécie de "dicionário universal" em que determinado som corresponda automaticamente a um sabor.
Uma música não é doce ou amarga em sentido literal.
A associação nasce da combinação entre características do áudio, experiências anteriores e referências culturais.
O próprio estudo chama atenção para essa mistura entre elementos que parecem compartilhados e outros que dependem do contexto de quem escuta.
As conexões entre som e paladar, portanto, não seriam totalmente universais nem exclusivamente determinadas pela cultura.
Por que usamos sabores para falar de música?
A relação entre música e outros sentidos não é exatamente nova.
No cotidiano, é comum recorrer a palavras que pertencem a uma experiência sensorial para descrever outra: uma voz pode ser "aveludada", uma música pode soar"quente", uma batida pode ser "seca" e um timbre, "brilhante".
Essas associações fazem parte do que os pesquisadores chamam de correspondências entre sentidos.
Estudos anteriores já haviam encontrado relações entre características musicais e sabores, incluindo associações entre músicas mais suaves e doces e sons mais dissonantes e azedos.
A pesquisa mais recente acrescenta a dimensão cultural e utiliza músicas geradas por inteligência artificial para criar estímulos padronizados.
Com isso, os pesquisadores conseguem comparar como diferentes grupos respondem às mesmas propostas sonoras.
E o que isso diz sobre a experiência de ouvir música?
Mais do que estabelecer uma fórmula para transformar som em sabor, o estudo mostra como a experiência musical pode envolver associações que ultrapassam a audição.
O mesmo trecho pode evocar uma sensação física, uma emoção ou até uma lembrança de gosto, sem que exista qualquer alimento envolvido.
Para JESTFLY, essa possibilidade também faz parte do processo criativo.
"Produzir não é só escolher notas ou acertar frequências.
É construir sensação.
Se uma música consegue parecer doce, fria ou amarga sem ter sabor algum, isso diz muito sobre a quantidade de coisas que o som pode despertar antes mesmo de a gente conseguir explicar", conclui.
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