O Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém, recebe, a partir desta quarta-feira (26), a exposição “Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros”, dedicada à trajetória de retomada territorial dos povos indígenas Katxuyana e Kahyana.
Concebida e narrada pelos próprios indígenas, a mostra reúne artefatos, fotografias, documentos históricos e registros audiovisuais para contar uma história marcada por deslocamentos forçados, resistência e reconexão com os territórios tradicionais.
Desde a década de 1960, grupos e famílias Katxuyana e Kahyana passaram por processos de deslocamento e dispersão.
Junto com eles, muitos de seus pertences também foram levados para longe dos territórios de origem e passaram a integrar acervos de museus.
Mesmo impedidos de permanecer fisicamente em partes de seus territórios tradicionais, os Katxuyana e Kahyana mantiveram vínculos com os lugares, rios, antepassados, conhecimentos e modos próprios de existência.
Para esses povos, o território nunca esteve vazio.
Nele permaneceram sinais e presenças de outros yana, incluindo parentes que vivem em isolamento e integrantes das famílias que resistiram no território.
Nas últimas décadas, os dois povos intensificaram os movimentos de retomada da presença física, política e cosmológica em seus territórios.
O processo de resistência e afirmação territorial teve como um dos marcos recentes a demarcação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, homologada durante a COP30, realizada em 2025, em Belém.
Exposição reúne objetos, fotografias e documentos
A exposição reúne artefatos, fotografias, objetos sagrados, documentos históricos, registros audiovisuais e relatos dos próprios indígenas.
A proposta é promover o reencontro entre pessoas, lugares, memórias e patrimônios que seguiram diferentes caminhos ao longo do tempo.
Esses reencontros evidenciam a continuidade das relações que os Katxuyana e Kahyana mantêm com seus territórios e que são transmitidas entre diferentes gerações.
A mostra é realizada pela Associação Indígena Kaxuyana, Tunayana e Kahyana (AIKATUK), em parceria com o Instituto Iepé, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Universidade Federal Fluminense (UFF).
A iniciativa integra o Ano Cultural Brasil-Reino Unido 2025–26, promovido pelo British Council.
Artefato representa comunicação entre diferentes mundos
Um dos principais elementos da exposição é o txamatxama, artefato plumário de grande importância cosmológica e sociopolítica para os povos Katxuyana e Kahyana.
O objeto é compreendido como um dispositivo de comunicação e diplomacia entre diferentes mundos, capaz de mediar relações entre humanos e outros seres da Terra.
A exposição também propõe uma reflexão sobre o papel dos museus e das coleções etnográficas.
A partir da reconexão entre comunidades indígenas e artefatos preservados em instituições brasileiras e europeias, o projeto busca ampliar o papel dos museus como espaços de diálogo, colaboração e reparação histórica.
“Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros” apresenta as retomadas como movimentos de continuidade.
Mesmo diante do exílio, da dispersão e das violências históricas, os Katxuyana e Kahyana mantiveram suas relações sociais, culturais e territoriais e seguem fortalecendo seus modos próprios de habitar e cuidar do mundo.
A mostra convida o público a conhecer essa trajetória a partir da perspectiva dos próprios povos indígenas e das novas gerações que dão continuidade a essa história.
“Para nós, Katxuyana e Kahyana, essa exposição é uma oportunidade de compartilharmos nossas histórias de resistência e resiliência diante de um processo marcado pela violência e pela tentativa de apagamento de nossas existências”, afirma Angela Kaxuyana, liderança indígena da AIKATUK e uma das principais vozes do movimento de retomada territorial.
“O sentimento de pertencimento e a conexão que mantemos com nossos verdadeiros lugares foram fundamentais para que permanecêssemos vivos como yana.
A história contada nesta exposição busca conectar as gerações, fortalecer nossa memória e compartilhar a importância dos nossos territórios como garantia de vida, existência e continuidade dos nossos povos”, complementa.
Museóloga e pesquisadora do Museu Goeldi, Lúcia van Velthem ressalta a importância da curadoria compartilhada com os povos indígenas e com o Instituto Iepé e fala sobre as peças que fazem parte da coleção do MPEG.
“Na exposição, teremos peças dos Katxuyanas e dos Kahyanas, que são contemporâneas, que eles fazem e utilizam atualmente, e vamos ter peças que pertencem à Coleção Etnográfica do Museu Goeldi, coletadas pelo pesquisador Protásio Frikel na década de 1960”.
Coordenadora substituta de Museologia do MPEG, Karol Gillet salienta que o percurso da exposição foi construído a partir da concepção dos indígenas, com uma proposta de visitação cíclica para conectar o público às histórias de retiradas e de retomadas.
“A exposição foi construída após oficinas realizadas nas aldeias.
O público conhecerá as histórias de perdas, de lutos, mas também de retomadas”.
Ela explica que a exposição possui um projeto de acessibilidade, para atender às pessoas com deficiências (PcDs): “teremos algumas peças táteis, inclusive fotografias, para que as pessoas com deficiências se conectem à exposição, que contará com audiodescrições”, acrescenta.
Serviço: "Exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros"
Visitação pública: de 26 de agosto de 2026 a 30 de abril de 2027 | quarta a domingo, das 9h às 16h
Local: Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, no Centro de Exposições Eduardo Galvão (mezanino).
Avenida Magalhães Barata, 376 - São Brás.
Belém (PA).
Acesso ao parque: R$ 3, com meia-entrada e gratuidades previstas em leis.
