Museu de arte contemporânea surge como contraponto em cidade portuguesa de origem romana; conheça

 

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Mesmo em uma fábrica, há espaço para a arte. O empresário José Teixeira espalhou obras de artistas como José Pedro Croft, Fernanda Fragateiro e José Cabrita Reis no parque industrial da DST (sigla de Domingos da Silva Teixeira, fundador do grupo que atua em áreas como engenharia, saneamento e telecomunicações), em Braga, no norte de Portugal. Ele encomendou peças integradas ao espaço, onde trabalham cerca de quatro mil pessoas. Nos prédios administrativos, concentra-se grande parte da sua coleção, que soma cerca de 1.500 obras.

No comando de uma das companhias mais ricas de Portugal e com uma fortuna de € 356 milhões (R$ 2 bilhões), segundo a revista Forbes, Teixeira diz que não poderia reter a sua coleção apenas para si e a família — nem apenas para os funcionários de seu complexo industrial (que deve abrir para visitas do público no ano que vem). A proposta de criar uma instituição para a cidade, o Muzeu, surgiu daí.

— Esse museu comprova a minha existência social. Ao fazer esse investimento, quero que ele fique para sempre — diz Teixeira. — Tem um pouco de Descartes nisso: penso, logo existo; eu realizo, logo existo.

Vista aérea com Muzeu, criado por José Teixeira em Braga (Portugal), ao centro

Hugo Delgado/Divulgação

Antigo tribunal

A instituição foi estabelecida em um antigo tribunal no Centro Histórico de Braga, que abriga a maior comunidade brasileira no país, com cerca de 15 mil pessoas (depois de a região do Minho, onde fica, fornecer a maior parte dos imigrantes em busca do ouro das Minas Gerais no século XVIII). Projetado pelo arquiteto José Carvalho Araújo, o edifício comporta quatro andares expositivos e preserva elementos arqueológicos, como parte de uma muralha e um poço medieval. Croft, amigo de José Teixeira, foi convidado a fazer a intervenção escultórica em bronze na fachada.

A primeira exposição do Muzeu é focada na coleção de Teixeira, com nomes como Pablo Picasso, Nan Goldin, Richard Long, Candida Höfer, Rui Chafes, Ana Vidigal, André Butzer, Jason Martin, Paula Rego e brasileiros como Caio Reisewitz, Artur Lescher, Mariana Palma e Miguel Rio Branco, que tem uma sala específica para suas fotografias.

Vista de exposição no Muzeu, criado por José Teixeira em Braga (Portugal)

Hugo Delgado/Divulgação

O Muzeu ainda conta com uma sala com a mostra permanente de obras do pintor e escultor alemão Anselm Kiefer, nome do neoexpressionismo alemão que explora ligações entre o nazismo e o holocausto e a história e raízes da cultura alemã em suas obras:

— Teixeira já tinha três peças do Kiefer e essa ideia de que deveria haver alguma coisa que fosse um chamariz, como tem o Guggenheim Bilbao, o MoMA. Três peças não faziam uma sala, decidimos adquirir mais — conta a diretora e curadora do museu, Helena Pereira Mendes.

Pereira Mendes tem uma relação próxima com Teixeira desde 2017, quando entrou na companhia para atuar nas atividades culturais com o empresário:

— É uma criança entusiasmada, uma pessoa que verdadeiramente sente tudo isto com uma intensidade imensa — define a curadora e diretora sobre a relação do empresário com seu acervo.

Integrando essa coleção com peças de interior presentes na primeira exposição do Muzeu e uma grande intervenção no parque industrial, com ruínas de concreto, Fernanda Fragueiro detalha como esse entusiasmo se refletiu na formação do acervo do empresário:

— O que é importante é que não é a aquisição de uma obra, mas de um conjunto significativo. Mesmo as instituições públicas, muitas vezes, compram uma obra e pronto. Neste caso, é algo mais profundo — diferencia Fernanda Fragateiro, que integra o acervo do Muzeu com peças de interior, presentes na exposição, e uma grande intervenção no bosque do campus, que representa ruínas com concreto exposto em diálogo com as atividades da empresa.

Coleção de amizades

O empresário português José Teixeira

Hugo Delgado/Divulgação

Ao longo do tempo, Teixeira desenvolveu uma relação próxima com muitos dos artistas de quem adquiriu obras. Quando se interessa por um trabalho, ele procura adquirir um conjunto de trabalhos do mesmo autor. O empresário conta que começou a sua coleção a partir das amizades. A primeira obra foi adquirida em uma troca com Alberto Péssimo, cenógrafo da Companhia de Teatro de Braga, após ter feito um portão de garagem para ele há cerca de 40 anos. Depois, com a proximidade com o grupo de atores e artistas, mais obras foram sendo adquiridas em escambo:

— (Na companhia de teatro) havia figurinistas que concebiam guarda-roupa, artistas plásticos para os cenários, e eu fornecia uma carpintaria, uma serralharia. Em troca, eles davam obras — lembra o empresário.

Fundada no reinado de Otávio Augusto, o primeiro imperador romano, e sede do Santuário de Bom Jesus do Monte, modelo daquele de Congonhas (MG) onde estão os profetas de Aleijadinho, Braga é uma das cidades mais antigas de Portugal. A expressão “mais velha do que a Sé de Braga” refere-se à primeira arquidiocese lusitana, que começou a ser erguida no século X. Mas tem uma das populações mais jovens de Portugal. O Muzeu será um contraponto da arte contemporânea às outras instituições na cidade que se dedicam ao seu extenso passado e se dedicam a exposições sobre o período romano e a arte barroca, por exemplo.

Como outros empresários e companhias que também têm um braço de incentivo à cultura na área de responsabilidade social, Teixeira afirma que sua iniciativa representa uma forma de devolver parte do que conquistou por meio de sua atividade profissional.

— O meu contrato com o Estado não é suficiente. Tenho aqui (no museu) uma forma de apoiar toda a comunidade, que também é responsável pelo meu êxito. E tenho um outro contrato que é o de “pescar pessoas” para questões do bem, do belo…

* Alan Souza viajou a convite do Muzeu