Musa mirim da Mocidade, de 10 anos, sofre racismo na escola; 'Chamou ela de chata, nojenta e escrava', diz pai da menina

 

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A musa mirim da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel, Sofia Paiva, de 10 anos, foi vítima de racismo na escola ao ser chamada de "escrava" por outro aluno. O caso aconteceu na última quarta-feira. Os pais Diogo de Jesus, mestre-sala da agremiação, e Thainá Paiva tiveram uma reunião com a direção do colégio onde a menina estuda nesta quinta-feira. Eles informaram que irão registrar a ocorrência em uma delegacia especializada na próxima segunda-feira.

Em entrevista ao GLOBO, Diogo contou que no dia que sofreu a ofensa, a filha chegou em casa chorando. Desde então, ela tem manifestado que não quer voltar para a escola.

— Ela disse que um coleguinha de classe chamou ela de chata, nojenta e escrava. Prontamente o professor reuniu os alunos e explicou sobre aquela palavra e falou que aquilo não era certo. Ela não se contentou, foi até a direção e reclamou. A direção chamou o aluno, falou que não era certo e perguntou se ele tinha falado aquilo e ele disse que sim. Depois perguntaram se ele sabia o que significava aquela palavra, ele disse que eram pessoas que trabalhavam sem ganhar dinheiro — conta Diogo.

Eles ainda não registraram o caso na delegacia, mas pretendem fazê-lo na próxima segunda-feira, depois do feriado. Por hora, os pais priorizaram a saúde mental da menina.

— Ela sofreu muito, estava chorando o dia todo. Hoje foi para a casa de uma parente nossa, para brincar e tirar um pouco o foco de tudo isso — conta Diogo. — Ainda estamos tentando digerir a situação. Estamos recebendo um apoio muito grande, mensagens na internet, isso está nos dando forças. O ocorrido nos abalou, principalmente porque aconteceu no ambiente escolar, que ela vai frequentar ainda por muito tempo. Dói muito. Não quero que ela seja mais uma pessoa sofrendo consequências do racismo — desabafa o pai.

Na reunião com a direção, ele foi informado que a escola iria agir imediatamente para lidar com a situação, conversar com os pais do aluno envolvido e então definir os próximos passos sobre o que fazer em relação ao caso. Os pais de Sofia também aguardam uma ata desta reunião para fazer o registro na delegacia. Agora, a expectativa da família é que a escola assuma a responsabilidade de uma educação antirracista.

— O papel da escola é reverter a situação de dentro para fora, tem que conversar com os alunos, acolher o aluno que se referiu a ela dessa forma. O acolhimento não é só para a Sofia, é para os dois, com acompanhamento psicológico para os dois. Se um menino de 10 anos fala isso, é porque ele ouviu isso de alguém. A família dele também precisa se conscientizar e participar dessa reeducação. Tem que haver um projeto antirracista dentro da escola — pontuou Diogo.

A Mocidade Independente de Padre Miguel publicou um texto expressando carinho à Sofia e lamentando pelo ocorrido. Além de outras escolas do Grupo Especial, como Beija-Flor e Imperatriz, uma série de páginas do carnaval carioca também expressaram apoio nas redes sociais.

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Ao contrário do que muitos dos comentários nas redes sociais clamavam, o pai da menina enfatizou a importância de não expulsar o aluno que fez a ofensa racista:

— Tem que acolher, fazer o trabalho reverso. Se expulsar, a gente estará perdendo mais uma pessoa para o racismo. Pode crescer uma criança amargurada, com medo, ressentida por essa exclusão. Ele tem que ser inserido nesse resgate e receber suporte para ser educado de forma antirracista. Eu quero que seja feito o trabalho com os dois, a Sofia e ele — reforça.

Racismo é crime inafiançável e imprescritível no Brasil. A Lei nº 14.532/2023 equiparou a injúria racial ao crime de racismo, com penas de 2 a 5 anos de reclusão. Casos em ambiente escolar devem ser denunciados, e os responsáveis podem responder civilmente pelos atos dos filhos. Além disso, a legislação atual estabelece, desde 2003, a obrigatoriedade do ensino de "história e cultura afro-brasileira" dentro das disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio.