Musa de clipe do Mamonas Assassinas relembra flerte de 1 ano com baixista por telefone: 'Paixão platônica'

 

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Nereide Nogueira só caiu em si depois de ouvir a informação no rádio. Há três décadas, às 6h30 de um domingo, a modelo e atriz foi acordada por familiares que traziam a triste notícia: um acidente aéreo na Serra da Cantareira, ao norte da cidade de São Paulo, havia matado, na noite anterior, todos os integrantes do grupo Mamonas Assassinas. Diante do que o cunhado lhe relatava com delicadeza redobrada, a jovem, de 23 anos, soltou uma gargalhada: "Que piadinha, gente. Os meninos são muito brincalhões mesmo", ela disparou, em referência aos integrantes do quinteto conhecido pelo humor escrachado. A moça tinha um encontro marcado com Samuel Reoli, o baixista da banda, dali a algumas horas — e não seria um encontro qualquer.

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"Nê", apelido da modelo entre amigos, é a intérprete da musa de "Pelados em Santos" no famoso clipe da canção dos Mamonas Assassinas. Em 1995, um ano antes da tragédia fatal, a paulista de São Caetano do Sul havia dado forma, em carne e osso, para a "pitchula" da letra — ou a "mina", que, segundo a obra, "é lindia, mutcho mais do que lindia, very, very beautiful". Quem viveu a infância ou juventude na década de 1990, oh, yes!, oh, no!, certamente tem a imagem cristalizada no cérebro.

Pois bem, nos bastidores de gravação do videoclipe, uma faísca se acendeu entre Nereide e "Samuca", como ela logo o passou a chamar. O artista quis saber detalhes da câmera fotográfica que ela havia levado para o set a fim de registrar lembranças do trabalho. Os dois se aproximaram, trocaram uma longa prosa e compartilharam, por que não?, seus números de telefone. Por mais ou menos um ano, a dupla manteve contato à distância de maneira disciplinada: ligavam-se de duas a três vezes por semana para papear. Sempre, sempre, sempre.

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Em meio às rotineiras chamadas telefônicas, brotou uma "paixão platônica mútua", como repassa Nereide (e aqui vale lembrar: à época, não havia celulares, videochamadas, redes sociais, nada disso). Os dois queriam, e muito, dar chão para o amor em constante flutuação. Mas a agenda profissional dos Mamonas Assassinas, no auge do sucesso, inspirava uma equação complicada — de domingo a domingo, o grupo se desdobrava em apresentações em diferentes estados. Nereide também tinha a rotina atribulada e se dividia entre uma oficina para atores novatos na TV Globo, as gravações do programa "Papa-tudo", na mesma emissora, e a realização de campanhas publicitárias. Até que surgiu uma data compatível para ambos se verem tête-à-tête.

"Nê, a gente (os Mamonas) vai fazer uma turnê na Europa, você sabe... Vou para um show em Brasília agora, e depois gostaria muito que você fosse no churrasco de despedida que estamos organizando antes de sairmos do Brasil. Vai ser lá em Sorocaba", propôs Samuel, numa ligação para Nereide no dia 1º de março de 1996. "Desta vez rola de eu ir, sim, porque estou em São Paulo", festejou a modelo. Pronto, estava tudo, enfim, combinado: na manhã de domingo, o rapaz passaria de carro na casa da jovem para buscá-la. E de lá eles seguiriam para o churrasco.

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Daí a incredulidade de Nereide ao ser sacudida às 6h30 da manhã e avisada, pelos familiares, sobre a queda do avião dos músicos. A moça estava certa de que o fato se tratava de uma "pegadinha", coisa a que o baixista era o maior mestre, como ela rememora. Mas quando o aparelho de rádio preencheu a sala da casa com a notícia — "Não há nenhum sobrevivente", anunciou o locutor —, não havia mais espaço para a graça. A jovem permaneceu petrificada, sem reação, por meia hora.

Daí o fato de ela achar que estava sendo alvo de uma "pegadinha" do músico — mestre em fazer troça com os outros, como Nereide cita — ao ser acordada pelos familiares com a informação sobre a queda do avião em que estavam os Mamonas Assassinas. Quando o rádio preencheu a sala com os detalhes da tragédia que parou e comoveu o país ("Não há nenhum sobrevivente", anunciou o locutor), a atriz e modelo permaneceu petrificada por cerca de meia hora, sem reação.

— Perdi um amigo, perdi uma paixão. Com o Samuel, a ligação era muito forte. Às vezes ele me ligava só para dizer: "Oi, mamônica. Oi, minha musa da hora". Ou então apenas falava: "Tô com saudade. Liguei só para ouvir sua voz" — recorda-se Nereide, ao discorrer, pela primeira vez, sobre a comovente história de amor. — Foi difícil de cair a ficha, sabe? Fiquei muito triste mesmo.

O grupo Mamonas Assassinas, em 1995

Marco Antônio Teixeira/Agência O Globo

Ela não nega que, por algum tempo, fez e refez na mente os caminhos que a vida poderia ter tomado caso o acidente não tivesse acontecido. Um namoro sério teria surgido? Casariam-se, os dois? Como seria a relação, então? As questões rondaram a cabeça da modelo.

— Apesar do jeito maluco dele, Samuel era muito carinhoso. Não sei se o relacionamento iria para frente. Mas a gente iria ficar junto, sim. Pelo telefone, eu percebia que ele estava apaixonado por mim. E eu também estava me apaixonando, sabe? — diz. — Rolava um romance ali, né? Nunca dei um beijo nele. Nada. Mas a gente tinha esse flerte. Era uma paixão platônica. E, pelo andar de nossas conversas, se realmente tivesse rolado o churrasco, a gente ia ficar junto. Mas infelizmente (ela se interrompe)... É um amor que hoje guardo com muito carinho.

'Coisa do destino'

Nereide Nogueira só conhecia uma música dos Mamonas Assassinas no momento em que foi convidada para participar do clipe "Pelados em Santos" ("A canção 'O vira-vira' tocava muito na Rádio Rock, em São Paulo", ela lembra). À época, em 1995, a paulista morava no Rio de Janeiro, pois estava matriculada num curso voltado para atores iniciantes na TV Globo. Numa noite qualquer, num happy hour na casa de uma amiga — que atuava como produtora —, a atriz e modelo pegou a agenda telefônica da bolsa, um caderninho de papel onde também guardava, entre as folhas, algumas fotos.

Foi, então, que uma dessas imagens se soltou da brochura e caiu no chão. Tratava-se do registro de um trabalho que ela havia feito, anos antes, num evento voltado para empresas. Na foto, lá estava Nereide caracterizada de Jessica Rabbit, a personagem sedutora do filme "Uma cilada para Roger Rabbit" (1988), ao lado de Rubinho Barrichello. A amiga se surpreendeu com o clique e disse que estava em busca, que tal?, de uma modelo para gravar um clipe caracterizada justamente de... Jessica Rabbit. Deu no que deu, e o resto é história.

Nereide Nogueira, caracterizada de Jessica Rabbit, e Rubinho Barrichello: foto gerou convite para trabalho em clipe do Mamonas Assassinas

Arquivo pessoal

— Acredito muito em destino. Era para esse trabalho ter acontecido mesmo, né? Se eu não tivesse encontrado essa minha amiga, se a foto não tivesse caído no chão... Imagina! Foi muita coincidência mesmo. Coisa do destino — comenta Nereide, que trabalhou, na década de 1990, como assistente de palco de Gugu Liberato, no SBT, e apresentou o programa "SuperTécnico", na Band, ao lado do jornalista Milton Neves.

Hoje, a paulista atua como "modelo de peles maduras" para marcas de cosméticos, além de também realizar eventos como produtora. Há quatro anos, decidiu parar de tingir os cabelos e assumir os fios grisalhos. Uma "libertação", como diz. Ela vive em Atibaia (SP), no interior do estado, e tem um filho de 16 anos.

— Teve um dia que cheguei para o meu cabeleireiro e falei: "Tira o louro. Não quero mais tinta". Se voltarei a pintar, não sei... Mas estou super feliz assim, com os fios naturais — ressalta ela, aos 53 anos. — Estou me achando bonita, sabe? E o mais importante é isso.

A atriz, produtora e modelo Nereide Nogueira

Arquivo pessoal

Diferentemente de 30 anos atrás, ninguém mais a reconhece na rua espontaneamente pelo clipe dos Mamonas Assassinas. De Samuel Reoli e dos outros quatro integrantes da banda, a feição dos músicos segue intacta exatamente da mesma forma na memória de Nereide.

Vez ou outra, ela dá risadas ao revisitar as fotos que foram reveladas de sua câmera fotográfica no dia da gravação do clipe. Lembra que a modelo e atriz decidiu levar o aparelho pessoal para documentar o trabalho inusitado no set? Numa brecha do trabalho, Samuel surrupiou a máquina da moça e fez fotos hilárias de maneira escondida, sem que ela soubesse. Depois, nas tantas ligações por telefone para a modelo, insistiu para que as imagens fossem logo reveladas. O filme guardava preciosidades.

— Fiquei passada com as fotos. Os meninos da banda pegaram minha câmera e fizeram fotos com a cueca enfiada na bunda e várias outras brincadeiras. Na última imagem, eles aparecem apontando para a câmera com o olhar do tipo: "Te peguei, hein!" — ela se recorda. — Infelizmente nenhum deles viu essas fotos. Eles veriam no tal churrasco em Sorocaba. O Samuel estava ansioso para vê-las. Hoje isso virou uma relíquia de um momento de uma grande realização para todos eles.

Integrantes do Mamonas Assassinas fazem troça de Nereide Nogueira em foto feita com câmera fotográfica da modelo e atriz: relíquia de 1995

Nereide Nogueira/Arquivo pessoal

Registros da gravação do clipe de 'Pelados em Santos', do Mamonas Assassinas

Nereide Nogueira/Arquivo pessoal

Integrantes do Mamonas Assassinas fazem troça de Nereide Nogueira em foto feita com câmera fotográfica da modelo e atriz: relíquia de 1995

Nereide Nogueira/Arquivo pessoal

Nereide Nogueira, aos 53 anos: atriz e modelo estrelou clipe 'Pelados em Santos' do Mamonas Assassinas

Arquivo pessoal

Nereide Nogueira guarda até hoje piteira utilizada no clipe da música 'Pelados em Santos', dos Mamonas Assassinas

Arquivo pessoal