Para Castro, da AEB, levantamento mostra o quanto as exportações são concentradas e, por isso, mais sujeitas a políticas tarifárias protecionistas Leo Pinheiro/Valor A política tarifária do presidente americano, Donald Trump, não teve força para afetar a evolução dos embarques totais brasileiros, mas houve impacto em municípios que têm parte importante da exportação voltada aos Estados Unidos. As exportações brasileiras cresceram US$ 31,8 bilhões em 12 meses até julho, mas as vendas para os EUA recuaram US$ 6,7 bilhões em igual período. O intervalo abarca o primeiro ano a partir da imposição das tarifas americanas mais pesadas que atingiram especificamente as exportações brasileiras, a partir de agosto de 2025. Ao todo, 1.643 municípios tiveram comércio com os EUA nos últimos dois anos, e mais da metade deles (864) teve queda média de 30% no valor exportado no período analisado ante os 12 meses anteriores. Isso representou impacto negativo total de US$ 9,7 bilhões nas economias locais. Na mesma comparação, em 271 cidades os embarques aos americanos foram zerados, ante exportações que chegaram anteriormente a US$ 104 milhões.
Os dados levantados pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) mostram que, mesmo com redirecionamento de boa parte das exportações, o mercado americano é relevante para o dinamismo econômico de parcela importante dos municípios - 30% das cidades brasileiras (1.643) tiveram relações diretas com os EUA nos últimos dois anos. Os cinco produtos com exportações mais afetadas no período analisado foram madeira conífera, outros açúcares de cana, semimanufaturados de ferro/aço, sebo bovino, além de portas e seus caixilhos. Entre os 26 Estados do país, o Espírito Santo é o que tem a maior parcela de cidades que se enquadram nessa relação, com 68% de seus municípios. Rio de Janeiro e São Paulo seguem a lista, com 59% e 54%, respectivamente. O levantamento da CNM destaca a cidade de São João da Barra (RJ) com as maiores perdas na exportação aos EUA no período, sobretudo devido à exportação de combustíveis e óleos minerais e produtos de sua destilação, com perda de receita de exportação de US$ 590 milhões. As cidades do Rio de Janeiro e Santos também sofreram pelos mesmos itens. A exportação de produtos hortículas também sofreu, com destaque para a cidade de Araraquara (SP). O café foi um dos setores mais prejudicados na pauta de exportações. O estudo destaca impacto na cidade de Guaxupé (Minas Gerais). Marcos Matos, diretor-executivo do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), diz que, apesar de hoje Europa e Ásia ocuparem posições de destaque no setor cafeeiro, a parceria comercial com os EUA remonta a décadas e é difícil abrir mão desse mercado. Desde que foram impostas as taxas de 50% sobre o café e seus derivados em agosto do ano passado, diz Matos, o setor “correu contra o tempo” para revertê-las. A pressa se deu pelo medo de que os americanos se adaptassem a outros tipos de café que não o brasileiro, o que faria o mercado nacional perder espaço quando as tarifas fossem revogadas. Em novembro de 2025, uma lista de isenções para o tarifaço americano incluiu o café torrado ou não torrado, o descafeinado ou não descafeinado assim como cascas e películas de café e substitutos do café que contêm o produto. Foram incluídos também extratos, essências e concentrados de café. Após conviverem por mais de um ano com o cenário de taxação, todos os tipos de café tiveram as sobretaxas revogadas em julho de 2026. Segundo relatório do Cecafé, no primeiro mês sem tarifas, a exportação do produto registrou o melhor agosto da história, chegando a 4,16 milhões de sacas. No acumulado de janeiro a agosto, os EUA foram o principal importador do café brasileiro, com 12,6% dos embarques. Em comparação com o mesmo período de 2025, porém, o atual valor é 21,6% menor. Em Minas Gerais houve queda importante nas exportações de ferro fundido. O levantamento da CNM destaca perdas principalmente nas cidades de Sete Lagoas e Ouro Branco, além do município de Serra, no Espírito Santo. O estudo aponta que, de agosto de 2025 a julho de 2026, a perda de exportação chegou a total de US$ 370 milhões nas três cidades. É fundamental promover aproximação entre fornecedores do país e compradores internacionais” Felipe Ramon, analista de negócios internacionais da Fiemg, federação que reúne a indústria mineira, afirma que, apesar de hoje já estar na lista de exceções ao tarifaço, o setor foi impactado devido à sua sensibilidade, o que também afetou a arrecadação dos municípios em que a atividade é desenvolvida. Ramon explica que a dificuldade de diversificar os mercados que recebem o ferro brasileiro torna o setor ainda mais frágil. “Diferentemente das commodities, que são destinadas ao consumo, e podem ser redirecionadas mais facilmente, o processo é diferente para o ferro-gusa porque a gente não consegue instalar novas indústrias de aço pelo mundo, que vão consumi-lo para conseguir fazer o aço. Sem contar que a própria indústria lá nos Estados Unidos já está toda adaptada para receber esse ferro”, diz Ramon. O governo americano poupou o ferro-gusa das taxações em julho deste ano, mas Ramon afirma que as exportações ainda não voltaram ao mesmo ritmo de antes. “O nível das exportações para os EUA ainda está baixo, pois, diante do receio com as tarifas, os compradores acabaram fazendo estoques e alguns deles ainda estão altos.” Diante desse cenário, ele explica que, em setembro, pela primeira vez, a exportação para outros países superou as destinadas aos Estados Unidos. A pesquisa mostra que a participação dos americanos nas exportações brasileiras encolheu de 12,3% em agosto de 2025 para 9,4% em julho deste ano. No período, a receita de exportação aos EUA caiu 16,2%. Em setembro deste ano a exportação aos americanos aumentou 31,9%, mas no acumulado dos nove meses de 2026 ainda há queda de 6,5% ante iguais meses do ano passado. No mesmo período, a exportação total brasileira subiu 10,4%. Segundo a CNM, as cidades de médio porte, em termos de população (443), foram as que mais perderam em termos de valor absoluto de exportação, com uma queda de US$ 3 bilhões (-20,6%). Os municípios de menor porte populacional (1.107) vêm em seguida, com retração de US$ 2,1 bilhões (-22,9%), enquanto os mais populosos (93) demonstraram maior resiliência, com perda de US$ 1,6 bilhão, o que corresponde a uma redução de 9%. Dos 1.135 municípios que registraram impactos negativos nas vendas para os Estados Unidos, seja por zeramento, seja por retração, 657 cidades, o equivalente a 58% do total, também sofreram perda líquida de mercado. De acordo com a CNM, esses municípios registram uma queda de US$ 5,4 bilhões no comércio para os EUA, enquanto no mercado global a retração alcançou US$ 17,7 bilhões. Mesmo com diversos municípios apresentando perdas, algumas cidades, seja pela conjuntura, seja pelo preço de cotações internacionais, obtiveram resultados positivos e aumento nas exportações nos últimos 12 meses. Pindamonhangaba (SP), por exemplo, registrou ganho de US$ 252 milhões, com destaque para exportação de alumínio e suas obras. As cidades de Petrópolis (RJ) e Piracicaba (SP) também tiveram aumento nas vendas, principalmente com reatores nucleres, caldeiras e aparelhos e instrumentos mecânicos. Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, o quadro mostra o quanto as exportações são concentradas e, por isso, estão mais sujeitas a políticas protecionistas, precisando se adaptar ao momento, como ocorreu com as carnes bovinas. No ano passado, lembra, o produto ficou sujeito ao tarifaço imposto pelos EUA em agosto e só saiu da mira da tarifa americana mais gravosa em novembro, quando foi publicada uma nova lista de exceções. Nesse período, o exportador brasileiro conseguiu redirecionar as vendas e o embarque de carnes não caiu. Pelo contrário, dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que de agosto a novembro de 2025, os embarques de carnes bovinas resfriadas e congeladas subiram 52,1%, embora tenham caído 55.3% para os americanos. Já para a China, cresceram 66,3%. Castro lembra que a China foi um dos maiores compradores do item no ano passado. Neste ano, porém, o país asiático impôs cotas que o Brasil já estourou. Ele explica que a diferença para a situação enfrentada com os Estados Unidos é que a política protecionista chinesa não é direcionada somente ao Brasil, como é o caso de algumas tarifas de Trump. Em meio às quedas nas exportações de algumas cidades, Paulo Ziulkoski, presidente da CNM, defende a diversificação comercial, com o objetivo de ampliar o número de empresas exportadoras, incluindo as de pequeno e médio porte. “É fundamental investir no desenvolvimento de capacitações e orientações que indiquem os caminhos para a exportação, além de promover a aproximação entre fornecedores e compradores internacionais”, diz Ziulkoski.
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