IMAGEM: https://www.gettyimages.com.br/detail/foto/cute-baby-boy-sitting-with-father-working-from-imagem-royalty-free/2234841518?phrase=multitasking&searchscope=image%2Cfilm&adppopup=true LEGENDA: Uma pesquisa conduzida por neurocientistas identificou o mecanismo por trás de uma pergunta comum sobre o funcionamento do cérebro: é possível, de fato, fazer duas coisas ao mesmo tempo, ou o que parece multitarefa é apenas uma alternância rápida de atenção entre atividades? Segundo o estudo, publicado no periódico Journal of Cognitive Neuroscience por pesquisadores da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, e destacado pelo site científico ScienceAlert, a resposta depende do grau de treino envolvido na tarefa. Até então, a visão predominante na neurociência era a de que o cérebro não realiza duas tarefas cognitivamente exigentes de forma simultânea, mas alterna entre elas em alta velocidade, criando a ilusão de simultaneidade. Essa alternância acontece porque o córtex pré-frontal, região responsável pelas funções executivas, como planejamento e tomada de decisão, normalmente processa apenas uma tarefa complexa por vez, uma limitação que os pesquisadores chamam de "gargalo frontal". Como o cérebro contorna o gargalo frontal O estudo mostrou que esse gargalo pode ser contornado quando uma tarefa é praticada de forma extensiva. Um exemplo citado pelos próprios autores é o ato de dirigir: no início do aprendizado, a atividade exige concentração total, mas, depois de anos de prática, boa parte das pessoas consegue conversar, ouvir música ou pensar em outros assuntos sem perder o controle do carro. Para investigar o que muda no cérebro nesse processo, os pesquisadores treinaram um grupo de participantes para classificar, em duas categorias, imagens de carros levemente alteradas entre si por um software. O treino foi feito por meio de um aplicativo de celular, em formato de jogo, e envolveu mais de 30 mil tentativas ao longo de cinco a dez semanas. Os cientistas usaram ressonância magnética funcional e eletroencefalograma para registrar a atividade cerebral dos participantes antes e depois desse período de prática. Nas primeiras sessões, a tarefa de classificação ativava principalmente o córtex pré-frontal. Depois de semanas de treino, porém, os pesquisadores identificaram que esse mesmo processamento havia migrado para o córtex temporal, região associada à memória e ao reconhecimento de objetos complexos. Segundo Patrick Cox, principal autor do estudo e hoje professor assistente de psicologia na Universidade Lehigh, esse é o primeiro trabalho a comparar a atividade cerebral antes e depois do treinamento, e não apenas observar cérebros já especializados na tarefa. Ao migrar para o córtex temporal, o processamento das imagens passou a seguir um caminho mais direto até as áreas cerebrais responsáveis por produzir respostas, sem depender do córtex pré-frontal. Na etapa final do experimento, os participantes foram convidados a identificar os carros e, simultaneamente, realizar uma segunda tarefa. Quanto mais o processamento da primeira atividade havia sido transferido para o córtex temporal, melhor era o desempenho das pessoas na tarefa paralela, de acordo com os resultados. Aplicações em medicina e inteligência artificial Maximilian Riesenhuber, autor sênior do estudo e professor de neurociência na Georgetown, afirma que a descoberta representa uma peça a mais na compreensão de como o cérebro aprende. Cox cita um exemplo prático da área médica: um radiologista experiente consegue classificar uma massa em uma radiografia como benigna ou maligna de forma quase automática, sem uma deliberação longa, graças a anos de treinamento acumulado. Os autores também apontam implicações para o estudo de comportamentos compulsivos, já que o mecanismo demonstra que habilidades aprendidas migram para circuitos cerebrais menos acessíveis ao controle consciente. Riesenhuber observa que isso ajuda a explicar por que estratégias como simplesmente "pensar em outra coisa" tendem a falhar no combate a certos hábitos automatizados, uma vez que o comportamento já não está sob controle executivo direto. O achado também interessa ao campo de inteligência artificial. Segundo os pesquisadores, a capacidade humana de transferir uma habilidade já dominada para outra estrutura cerebral, liberando espaço para aprender algo novo, é um tipo de aprendizado contínuo que os modelos de IA atuais ainda não reproduzem. Os próprios autores fazem uma ressalva importante: a possibilidade de multitarefa depende do tipo de tarefa envolvido. Cox exemplifica com a diferença entre caminhar e mascar chiclete ao mesmo tempo, algo seguro e automatizável, e olhar para o celular para digitar uma mensagem enquanto se dirige, que nunca será seguro, porque exige tirar os olhos da rua. Segundo ele, o fator decisivo é treinar circuitos neurais totalmente separados até que se tornem compatíveis entre si. Os próximos passos da equipe envolvem identificar quais sinais neurais disparam essa migração entre regiões do cérebro e quais tipos de tarefas têm potencial para ser processadas em paralelo.
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Multitarefa de verdade: cérebro pode ser treinado para fazer várias atividades ao mesmo tempo, diz pesquisa
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