Multiplicação de geradores: com quedas de luz constantes, Copacabana tem dezenas de equipamentos nas ruas
Na última quarta-feira (17), bastava caminhar por Copacabana para contar ao menos 26 geradores em ruas do bairro. Os equipamentos, instalados diante de prédios residenciais e comerciais, incluindo hotéis, funcionam sem interrupção, produzindo ruído intenso, consumindo combustível e deixando fios expostos pelo chão. A cena, incomum em um dos bairros mais visitados por turistas, evidencia uma crise no fornecimento de energia que moradores classificam como recorrente e longe de ser resolvida.
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Além do transtorno provocado pela falta de luz, condomínios e estabelecimentos relatam gastos extras com a locação de geradores para manter serviços básicos em funcionamento. Elevadores pararam, aparelhos de ar-condicionado não ligam ou desarmam e muitos imóveis operam com carga parcial. Mesmo onde há energia, ela não é suficiente para garantir o funcionamento pleno de equipamentos domésticos e comerciais.
A Light afirma que o fornecimento de energia está normalizado em Copacabana e no Leme. A concessionária esclarece que a ocorrência registrada é pontual, e que equipes seguem atuando para normalizar o fornecimento de energia aos clientes impactados. “Geradores foram utilizados de forma estratégica para apoiar as equipes técnicas durante a atuação e garantir o atendimento aos clientes e permanecerão no local por um período, de forma preventiva”, diz, em nota.
Deborah Barki, síndica do prédio 180 na Rua Barata Ribeiro, conta que domingo uma senhora dormiu na portaria porque os elevadores estavam inoperantes.
— Só conseguimos um gerador na segunda-feira. Estamos dividindo com outro prédio e quatro lojas. Eu não consigo mais dormir. Moro no quarto andar, e o barulho é insuportável, parece que o gerador está dentro da minha casa — relata.
Após uma nova interrupção no fornecimento, pouco mais de um mês depois do apagão que atingiu as regiões do Leme e do Lido, em 4 de janeiro, a Sociedade Amigos de Copacabana (SAC) decidiu formalizar uma representação junto à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) solicitando a abertura de um procedimento para apurar as causas das sucessivas quedas de energia. No último domingo, após relatos de oscilações que começaram por volta das 20h, houve um apagão em parte do bairro às 22h.
— Estamos no verão, em plena alta temporada. O consumo aumenta, os hotéis estão cheios e os estabelecimentos funcionam a todo vapor. A empresa precisa se planejar e investir para atender períodos como esse. É muito fácil atribuir o problema à sobrecarga. É preciso reforçar a rede para que isso não aconteça a cada verão — diz Horácio Magalhães, presidente da SAC.
Mais de cem síndicos integram um grupo de monitoramento criado pela associação. Eles foram os primeiros a alertar para os picos de energia antes da queda total. Desde então, a SAC tem percorrido as ruas para verificar a situação. Na segunda-feira, foram identificados ao menos 15 geradores distribuídos por vias como Barata Ribeiro, Ministro Viveiros de Castro, Ronald de Carvalho, Rodolfo Dantas (onde havia seis equipamentos) e Belford Roxo. Dois dias depois, o número já chegava a 26.
A gerente de uma loja de sorvetes na Rua Barata Ribeiro conta que a luz começou a falhar no sábado e que gastou cerca de mil reais para transportar 60 caixas de cinco litros cada, a fim de evitar prejuízo. Em outra sorveteria, a Kurtos, na Rodolfo Dantas, o problema no fornecimento de eletricidade chegou a causar um incêndio.
— Um funcionário pegou um extintor e conseguiu agir antes que o fogo se espalhasse. A máquina de sorvete queimou e tivemos que fechar por dois dias, bem no meio do carnaval. Definitivamente, o abastecimento não voltou ao normal — diz Márcia Aparecida Bueno, funcionária da Kurtos.
Na floricultura Flora Virgem de Fátima, na Rua Ministro Viveiros de Castro, também houve prejuízo, como atesta a comerciante Cristiane Lopes:
— Eu ia abrir na segunda-feira, mas minha porta elétrica não funcionou. Depois, fiquei com medo de abrir a loja e não conseguir fechá-la. As flores que estavam na geladeira estragaram. A Light fala que é sobrecarga, mas achamos que um transformador estourou na Rua Rodolfo Dantas. Vimos fumaça saindo dele no sábado.
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Na Panificação Atlântica, na mesma rua, que funciona 24 horas, não foi diferente.
— A luz acabou por volta das 22h de domingo e só voltou segunda ao meio-dia. Perdemos todo o turno da madrugada, e todo o pão que tinha sido preparado para assar foi jogado fora — diz o gerente Caio Oliveira.
Luiz Alberto Santos, sócio do Gelo Lopes, também na Viveiros de Castro, diz que o fornecimento de energia não foi normalizado e que seus freezers não estão operando como deveriam:
— A luz começou a piscar no sábado. Estava intermitente, e foi piorando. Nossas câmaras têm tensores que costumam marcar 220 volts, mas estavam marcando apenas 140 volts. No domingo, chegamos a perder R$ 30 mil em mercadoria. Agora, as câmaras marcam apenas dois graus negativos, quando deveriam ser quatro. Isso acontece porque a tensão não chega completa. Já abrimos ocorrência, mas a Light diz que está resolvido, quando sabemos que não está.
Matheus Garcia, sócio do Zagga Pizza Bar, na Rua Ronald de Carvalho, conta que não só a loja física, mas também a dark kitchen da marca foi afetada, e que foi preciso cancelar pedidos de delivery que clientes haviam feito no domingo. No salão, o impacto também foi sentido: o faturamento ficou cerca de 52% abaixo do registrado em outros dias.
— Perdemos cerca de 25 quilos de massa pronta porque a geladeira não conseguiu manter a temperatura; a massa fermentou demais e tivemos que descartar tudo. Também precisei alugar um gerador, que custou quase R$ 3 mil — detalha.
Para os moradores, a presença maciça de geradores e o funcionamento parcial do serviço de energia em muitos prédios indica que o problema persiste.
— Se ainda dependemos de geradores para garantir energia, isso não é normalização — diz Magalhães.
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