Mulheres no poder e com poder, como seria?

 

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“Não seria a hora das mulheres comandarem o mundo? Não sei mais o que fazer, nós homens estamos no comando desde 10.000 antes de Cristo, e não estamos indo muito bem. Então, por favor, mulheres, assumam”. Essas são falas do ator Will Ferrell. Se acontecesse, certamente seria o maior experimento social da história.

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Nas ciências, é fundamental ter um contrafactual para esboçar conclusões empíricas. Teríamos de comparar dois mundos: um comandado por homens (dá para imaginar esse!), e outro (em paralelo) com mulheres no poder e com poder. Importante o “no” e “com” juntos. Estar em posições de comando não garante exercer efetivamente a liderança. Mulheres sabem disso. Nesse experimento, as diferenças entre ambas as realidades nos dariam real noção de como seria.

Não há essa comparação obviamente e ainda estamos longe de uma representatividade equidistante. Segundo a ONU Mulheres, em 2025, aproximadamente 26% dos assentos parlamentares globais eram ocupados por mulheres. No entanto, temos pesquisas de opinião que dão luz a uma visão sobre o tema. Na Europa, 60% dos eleitores acreditam que mais mulheres na política significa melhores decisões. No Brasil, pesquisa do Instituto Update e Ideia apontam na mesma direção.

Atualmente temos 27 países liderados por mulheres. Vamos então observar três lideranças de destaque. Podemos concordar ou não com suas ideias, mas não duvidamos da relevância de cada uma.

Nos últimos 15 anos, a Itália teve uma sucessão frequente de primeiros-ministros. Até a eleição, em 2022, que alçou ao poder o FDI (Fratelli d’Italia) de Giorgia Meloni, o país teve um primeiro-ministro a cada 14 meses. Desde 2022, a popularidade de Meloni segue estável, e muito positiva diante da confusão da política italiana. A Itália consegue agora conviver com um governo conservador (reacionário para alguns e moderado para outros), mas sem a dinâmica de instabilidade e escândalos que marcaram, por exemplo, o período de Silvio Berlusconi. Dificilmente um quadro atual masculino da direita italiana conseguiria equilibrar, por tanto tempo, tal estabilidade.

No Japão, o LDP (Partido Liberal Democrático), após décadas no poder, enfrentava um período histórico de declínio entre 2024 e início de 2025, caracterizado por insatisfação generalizada e queda do ex-primeiro-ministro Shigeru Ishiba. Nesse contexto, Sanae Takaichi conquistou a liderança do LDP em outubro, tornando-se a primeira japonesa nessa posição, e ainda venceu, em seguida, uma eleição nacional histórica. A postura de Taikaichi é extremamente oposta à dos seus antecessores. Ela combina imagem de “Dama de Ferro”, inspirada em Margaret Thatcher, ampliação de diálogo com novos partidos e uma agressiva agenda governamental. Takaichi mobilizou, a níveis históricos, tanto jovens como mulheres nas eleições de fevereiro.

Mobilizar não significa necessariamente ter o poder. E com as mulheres a barra é sempre maior. Para a mexicana e primeira mulher presidente Claudia Sheinbaum não bastou vencer as eleições com 60% dos votos ou ter uma popularidade regularmente positiva. Até hoje, a presidente mexicana sofre com questionamentos, inclusive, do seu próprio partido (Morena). Na política mexicana, há um debate se quem manda é ela ou o ex-presidente López Obrador. Isso nunca ocorreu em governos mexicanos recentes.

Agora imaginem se fosse a republicana e ex-candidata à Presidência Nick Haley (e não Donald Trump) que estivesse na Casa Branca e tivesse liderado duas decisões marcantes desse governo: aumentar tarifas para o mundo inteiro e iniciar um conflito armado no Irã. Para registro, são políticas diametralmente opostas ao que pensa Haley. No entanto, seguramente, o grau de escrutínio de decisões desse impacto seria muito maior.

Portanto, já que não é possível promover esse enorme experimento social da entrega total de poder, segue sendo necessário, e democrático, ter mais mulheres, com poder, participando efetivamente das decisões e incorporando suas perspectivas para todos os temas relevantes da sociedade. A humanidade merece experimentar isso.

*Mauricio Moura é fundador do instituto de pesquisa Ideia