Mulher de 85 anos retorna à França após ficar detida pelo ICE por 16 dias em meio à disputa por herança; entenda
Uma francesa de 85 anos, detida no início de abril pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos), retornou à França nesta sexta-feira, anunciou o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot. A idosa decidiu se mudar para os Estados Unidos em 2025 para se casar com um ex-coronel da Força Aérea americana e veterano da guerra do Vietnã, que faleceu de maneira inesperada em janeiro. Para além da questão migratória, uma disputa por herança está por trás da denúncia, de acordo com uma juíza de sucessões do Alabama.
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Quando foi detida, tendo os pés e as mãos algemados, segundo relatos de vizinhos, a mulher aguardava a oficialização de seu documento de residência permanente. O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos explicou à AFP na terça-feira que a mulher entrou no país em junho de 2025 com um visto de turista que lhe permitia permanecer 90 dias no território, onde continuava "sete meses depois".
— Houve atos de violência que suscitaram nossa preocupação. Mas o essencial é que ela tenha retornado à França — ressaltou Barrot, sem explicar ao que se referia.
A disputa por herança
Há alguns anos, Ross-Mahé retomou o contato com Bill Ross, que conheceu quando era uma jovem secretária e ele estava na França pelo Exército dos Estados Unidos. Mas a história de amor que atravessou continentes teve outro desfecho em janeiro, após a morte de Ross, desencadeando uma disputa acirrada por herança entre seus dois filhos e Ross-Mahé.
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A juíza de sucessões do condado de Calhoun, Shirley A. Millwood, republicana eleita em 2024, afirmou em decisão na sexta-feira que o governo federal deve investigar o caso, “especialmente à luz dos acontecimentos nacionais em curso envolvendo a desconfiança em relação aos agentes federais de segurança e das diversas investigações sobre corrupção dentro do governo”.
Na decisão, a juíza nomeou um administrador independente para o espólio de Ross e determinou temporariamente que os filhos devolvessem as chaves da casa do pai. A juíza escreveu que acredita que o filho mais novo, Tony Ross — ex-policial estadual do Alabama que hoje trabalha em um tribunal federal em Anniston — usou sua posição como funcionário público para provocar a prisão de Ross-Mahé.
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O filho afirmou em tribunal que não pediu aos colegas que a prendessem. No entanto, segundo a juíza, agentes o avisaram um dia antes de que ela seria detida, e ele recebeu uma mensagem confirmando a prisão menos de uma hora depois. Duas horas após a detenção, o outro filho, Gary, foi até a casa do pai e trocou as fechaduras.
Antes de ser presa, Ross-Mahé afirmou em um documento judicial que tentava obter cidadania americana. O Departamento de Segurança Interna informou apenas que ela havia permanecido cerca de quatro meses além do prazo de um visto de 90 dias e foi presa por agentes de imigração.
História de amor com final triste
Segundo um dos filhos de Ross-Mahé, ela conheceu Ross no fim dos anos 1950, quando trabalhava em uma base militar no oeste da França. Ele depois se casou com uma amiga dela e voltou aos Estados Unidos, onde construiu sua vida no Alabama. Ross-Mahé também se casou e teve três filhos.
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Ela, depois de décadas, já viúva, deixou sua vida na França, incluindo a aposentadoria, para viver em Anniston, uma cidade de cerca de 21 mil habitantes. O casal se casou no civil em abril de 2025 e realizou uma cerimônia religiosa no verão, acompanhada online pelos filhos.
A casa onde Ross viveu por quase 50 anos se tornou o lar do casal. Mas, em 24 de janeiro, Ross morreu inesperadamente, aos 85 anos. A disputa pelos bens — incluindo a casa avaliada em cerca de US$ 173 mil (R$ 850 mil, na cotação atual), dois carros e uma conta bancária com cerca de US$ 1.500 (R$ 7,5 mil, na atual cotação) — começou logo depois.
Como não havia testamento, Ross-Mahé teria direito à metade da herança, enquanto os filhos dividiriam a outra metade, segundo a lei do Alabama.
Tony Ross, porém, afirmou que ela teria dito que não queria nada da herança, apenas recursos para voltar à França. Após a morte, os filhos ofereceram US$ 10 mil (R$ 49,7 mil, na cotação atual) para que ela abrisse mão de seus direitos.
Ross-Mahé e a juíza descreveram atitudes mais agressivas. No dia seguinte à morte, os filhos foram à casa e levaram os dois veículos do pai. Eles negaram ter retirado outros bens e acusaram Ross-Mahé de esconder ou se desfazer de itens. Também disseram que ela não queria alguns itens, como armas, e o cachorro de Ross, mas depois os acusou de tê-los levado injustamente.
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Ross-Mahé afirmou que o filho mais velho redirecionou todas as correspondências da casa, fazendo com que ela perdesse um compromisso com autoridades de imigração. Sem acesso à conta bancária do marido, disse não ter dinheiro para despesas básicas. Segundo seu filho, serviços como internet e energia foram cortados.
Em 30 de março, a juíza proibiu temporariamente a venda ou doação de bens do espólio. Dois dias depois, em 1º de abril, agentes de imigração foram até a casa e prenderam Ross-Mahé, que estava apenas de camisola, segundo relato de uma vizinha.
Segundo o filho, ela relatou que, enquanto estava detida, outros prisioneiros cuidaram dela, oferecendo cobertores e a apelidando de “Molly inafundável”, em referência a Margaret Brown, sobrevivente do Titanic.
(Com The New York Times e AFP)
