Mulher baleada por PM em Cidade Tiradentes (SP) morreu por hemorragia interna, diz IML

 

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Baleada durante uma abordagem da Polícia Militar em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, Thawanna da Silva Salmázio morreu por hemorragia interna aguda, conforme o atestado de óbito emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) nesta sexta-feira (10). Segundo o documento, um “agente perfuro contundente” foi a causa da morte.

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Thawanna foi baleada pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira, 21, após uma discussão entre as duas na Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes. O caso ocorreu na madrugada da última sexta-feira (3).

A vítima ficou mais de 30 minutos à espera de socorro e, segundo apuração do G1, a demora no resgate contribuiu diretamente para o agravamento do quadro. O policial Weden Silva Soares, que participava da ocorrência, afirmou à Corregedoria da Polícia Militar que não prestou os primeiros socorros porque havia apenas uma gaze na viatura.

Thawanna morreu devido uma discussão com dois policiais que haviam atingido seu marido, Luciano Gonçalves dos Santos, com o retrovisor da viatura. Imagens obtidas pela TV Globo mostram que, por volta das 3h, o veículo entra em uma rua do bairro e atinge o pedestre. Em seguida, o policial dá ré e inicia uma discussão com o casal.

Menos de um minuto depois, Yasmin dispara contra Thawanna. A policial afirmou que atirou após ter levado um tapa da vítima.

Conforme mostrou O GLOBO, imagens de câmera corporal contradizem o relato dos agentes sobre a discussão que levou ao disparo. Os policiais Weden Silva Soares e Yasmin interromperam o trajeto da viatura após quase se envolverem em um acidente com o casal, que caminhava pela rua.

Segundo as imagens, a viatura entra na via e o retrovisor atinge Luciano. Soares para o veículo, dá ré e questiona o pedestre:

— A rua é lugar para você estar andando? — Diz o policial.

— Não, não, com todo o respeito, vocês que bateram na gente — responde à vítima.

A partir daí, inicia-se uma discussão. O casal afirma que a viatura estava em alta velocidade. Yasmin desce do carro imediatamente e, em seguida, Soares também desembarca.

Os dois policiais se separam, e apenas Soares utiliza câmera corporal. Yasmin não portava o equipamento por ser recém-formada na corporação e estar há cerca de três meses em patrulhamento.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública, a policial começou a trabalhar durante a Operação Verão deste ano e ainda aguardava a liberação de acesso ao equipamento, processo que, segundo a pasta, pode demorar.

A soldado, de 21 anos, foi aprovada no concurso em novembro de 2024. De acordo com a Polícia Militar, o processo de formação dura dois anos, incluindo etapas de formação básica, específica e estágio supervisionado — fase em que Yasmin se encontrava.

Na sequência da discussão, é possível ver Thawanna apontando para a policial e gritando para não ser tocada. Ao mesmo tempo, Soares discute com o marido da vítima, em lados opostos da viatura. Poucos segundos depois, ouve-se o disparo.

— Você atirou nela? Por quê? — Questiona Soares.

Yasmin justifica o tiro alegando ter recebido um tapa, o que não pode ser confirmado pela ausência de imagens.

Em seguida, Soares aciona o socorro enquanto tenta acalmar o marido da vítima. A outros policiais que chegam ao local, ele minimiza o caso e sugere que a reação poderia ser compreensível caso a mulher estivesse avançando contra a colega. Mais tarde, reafirma a avaliação à própria policial:

— Não era para ter atirado, mas, se ela estava indo para cima de você, podia te bater, pegar sua arma. Se ela começa a te bater, o cara ia me segurar.

A vítima permaneceu cerca de 30 minutos no chão até a chegada do socorro. Ela foi levada ao Hospital Santa Marcelina, em Cidade Tiradentes, mas não resistiu. Na mesma noite, Yasmin teve a arma apreendida por outro oficial.

As imagens também mostram contradições em relação ao relato registrado no boletim de ocorrência. Segundo o documento, os policiais afirmaram que faziam patrulhamento quando avistaram um casal andando no meio da rua. Ao se aproximarem, o homem teria se desequilibrado e batido o braço no retrovisor da viatura.

Ainda conforme o registro, houve um desentendimento após o homem supostamente desobedecer à ordem de se afastar. Thawanna, então, teria avançado contra a policial, iniciando um confronto físico — momento em que ocorreu o disparo.

“O indivíduo do sexo masculino se desequilibrou e seu braço direito bateu no retrovisor direito da viatura. De pronto, a equipe retornou para verificar se estava tudo bem com o indivíduo, momento em que este começou a gritar e reclamar com a guarnição”, declarou Soares.

Em depoimento, Yasmin afirmou que o casal apresentava sinais de embriaguez e que a viatura deu ré para averiguar uma “possível ocorrência”.

“Ao se aproximar novamente, constatou-se que ambos os envolvidos apresentavam sinais visíveis de embriaguez”, disse a policial. “A equipe tentou intervir para conter os ânimos e evitar a evolução do conflito.”

Luciano Gonçalves, no entanto, apresentou versão diferente. Ele afirma que a viatura trafegava em alta velocidade e quase atingiu o casal, o que provocou a reação de Thawanna — versão compatível com as imagens da câmera corporal.

Ele também diz que a mulher não teve comportamento agressivo e os agentes utilizaram spray de pimenta durante a abordagem. A gravação não mostra o momento do confronto direto entre Yasmin e a vítima, já que a policial não utilizava câmera corporal.

Nas imagens, é possível ver Luciano indo para a frente de um dos policiais e tirando a camisa. Segundo ele, o gesto era uma tentativa de demonstrar que não representava ameaça.

“O declarante afirma que, temendo ser interpretado como ameaça — inclusive por estar trajando vestimenta camuflada —, retirou sua blusa e sua bolsa, colocando os objetos no chão, com o intuito de demonstrar que não oferecia risco aos policiais”, diz o depoimento.

Ainda segundo Luciano, após o disparo, ele acreditou que a esposa havia sido atingida por uma munição de efeito moral.

Os policiais foram afastados do serviço operacional até a conclusão das investigações, informou a Secretaria da Segurança Pública. O caso é apurado pelas polícias Civil e Militar.

“O conteúdo das câmeras corporais será analisado e encaminhado às autoridades responsáveis, assim como os laudos periciais”, afirmou a pasta, em nota.

Após a morte, moradores da região realizaram protestos nas ruas de Cidade Tiradentes.

O Ministério Público de São Paulo instaurou, na segunda-feira (6), um procedimento para investigar o caso. A apuração está a cargo do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), que analisará as circunstâncias da ocorrência.