Muito além da poeira: o que o rally do Sertões deixa nas cidades depois que a caravana parte - QTU Questões do Universo

Muito além da poeira: o que o rally do Sertões deixa nas cidades depois que a caravana parte

Fonte: Bandeira da fonte

Cláudia Lopes Galvão chegou pouco depois das 5h desta segunda-feira na tenda de atendimento médico e recebeu a senha 00.
Aos 45 anos, ela precisava fazer uma mamografia para retornar ao mastologista, mas o exame estava atrasado havia meses.
Moradora de Cavalcante, no interior de Goiás, teria que percorrer mais de 500 quilômetros para conseguir atendimento fora do município.
Desta vez, foram os médicos que viajaram até ela.
A passagem do Sertões pela cidade levou junto à caravana uma estrutura que pouco tem a ver com carros, motos e cronômetros.
A SAS Brasil montou em Cavalcante uma operação de atendimento médico gratuito com especialistas e exames.
Cláudia passou por dermatologista, psicóloga e ginecologista e, principalmente, conseguiu realizar a mamografia que aguardava.
— Eu era para ter retornado em abril na consulta anual com a mastologista.
Estava me organizando para fazer, mas as coisas ficam pesadas.
Estou saindo daqui com meu exame realizado.
Vocês não sabem a importância que isso tem para nós — contou ao GLOBO.
O problema é geográfico.
Cavalcante dispõe de atendimento básico, mas determinados exames e especialidades obrigam moradores a viajar para centros maiores.
No caso de Cláudia, isso significa arcar não apenas com o procedimento, mas com transporte, alimentação e eventualmente hospedagem.
Cláudia Lopes Galvão, moradora de Cavalcante (GO)
Arquivo Pessoal
— Não é só sair daqui e ir.
Você tem gastos.
Às vezes preciso ficar uma semana em Goiânia.
A especialidade que eu precisava não tinha aqui — explicou.
Saúde acompanha a rota
A história da SAS Brasil com o Sertões começou em 2013.
Inspiradas pelo documentário "Quem se Importa", as idealizadoras do projeto Adriana Mallet e Sabine Zink Bolonhini decidiram unir o trabalho social à paixão por viagens pelas estradas brasileiras.
A primeira estrutura tinha uma tenda de campanha, dois carros e duas motos.
Desde então, a operação cresceu e passou a acompanhar o rali para oferecer principalmente o que falta em municípios mais isolados: atendimento especializado.
Antes da chegada das carretas, a organização conversa com as secretarias municipais de Saúde para identificar demandas reprimidas no SUS e definir quais profissionais e procedimentos serão necessários.
Atendimento SAS Brasil em Cavalcante
Divulgação
A proposta é evitar ações pontuais.
Na oftalmologia pediátrica, por exemplo, o trabalho começa com a triagem nas escolas, passa por consulta e exames e termina, quando necessário, com a entrega dos óculos.
Em procedimentos relacionados ao câncer do colo do útero, pacientes são previamente selecionadas para que a estrutura móvel chegue preparada para realizar intervenções.
— Não adianta ir lá, atender e a criança não ter dinheiro para comprar os óculos.
Ou fazer o exame e ela não conseguir passar pelo médico.
A gente precisa de um conjunto de soluções — explicou Adriana Malet ao GLOBO.
Em determinadas ações, segundo as responsáveis pelo projeto, a SAS consegue atender mais de 90% da demanda reprimida identificada pelo município.
Os casos que precisam continuar no sistema são encaminhados em parceria com a Secretaria de Saúde local.
Mamografia é novidade em 2026
Nesta edição, uma das principais novidades é a realização de mamografias.
O investimento faz parte de uma ampliação do trabalho dedicado à saúde da mulher e permite que pacientes façam exames que não estão disponíveis em suas cidades.
É justamente o caso de Cláudia.
Ela soube da chegada da SAS por uma postagem de uma conhecida nas redes sociais e decidiu não correr o risco de ficar sem atendimento.
— Fiquei tão empolgada que fui a primeira a chegar.
Estou saindo muito feliz, muito satisfeita.
Espero que voltem, porque isso aqui é importante demais.
A intenção agora é ampliar a capacidade de diagnóstico.
Entre os próximos passos estudados pela organização está a realização de mais biópsias dentro das próprias unidades móveis, reduzindo ainda mais a necessidade de deslocamento dos pacientes.
— O Brasil vai continuar gigante e o problema vai continuar lá.
Precisamos de novas soluções para resolver esses problemas — resumiu Sabini Zink Bolonhini.
'Não queremos só levantar poeira'
A saúde é uma das frentes de uma estratégia mais ampla do Sertões para deixar resultados nos municípios depois da passagem dos competidores.
A CEO do evento, Leonora Guedes, costuma resumir o conceito em uma frase: a intenção é não "só levantar poeira" por onde o rali passa.
— A nossa principal corrida não é a corrida de velocidade.
É a corrida pelo legado — afirmou ao GLOBO.
O Instituto Sertões reúne iniciativas sociais e ambientais que acompanham ou são definidas a partir do roteiro da competição.
Além dos atendimentos de saúde, há ações de educação financeira, hortas pedagógicas, projetos de incentivo à leitura e escrita e distribuição de filtros de água em comunidades vulneráveis.
O próprio impacto econômico imediato faz parte dessa equação.
A caravana reúne aproximadamente 2,5 mil pessoas e aumenta temporariamente a demanda por pousadas, restaurantes, postos de combustível, mercados, lavanderias e pequenos comerciantes nas cidades anfitriãs e em seus arredores.
A última equipe da trilha
Há também um legado menos visível, que começa justamente quando o último competidor passa.
Dois veículos do Limpa Trilha percorrem integralmente as especiais atrás da prova para recolher o que ficou pelo caminho.
Operação Limpa Trilha
Divulgação
Pneus, rodas, carenagens, componentes de suspensão e outras peças são encontrados com frequência.
Quando há vazamento de óleo, a equipe realiza o procedimento de retirada.
Danos a cercas, porteiras e mata-burros também são registrados para reparo ou ressarcimento dos proprietários.
— Nosso objetivo é devolver aquele espaço da forma como encontramos, ou até melhor — explicou Maurício Menella, integrante do Limpa Trilha.
As peças que ainda podem ser aproveitadas são levadas ao parque de apoio para serem devolvidas às equipes.
Outros resíduos recebem destinação específica.
Em dias particularmente duros, a caminhonete pode terminar a especial carregada de pneus e componentes quebrados.
É uma operação que fecha o ciclo da passagem do rali: enquanto milhares de pessoas seguem para a próxima cidade, uma pequena equipe permanece para percorrer os últimos quilômetros e verificar o que ficou para trás.