Mudança inédita no oceano ao redor da Antártida acende alerta global para o clima, diz estudo

 

Fonte:


O avanço de massas de água mais quentes em direção à Antártida, confirmado por medições inéditas de longo prazo, levou cientistas a acenderem um alerta sobre mudanças já em curso no sistema climático global. A constatação faz parte de um estudo liderado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, em parceria com a Universidade da Califórnia, divulgado nesta terça-feira, e marca a primeira evidência observacional consistente de um processo até então previsto apenas por modelos climáticos.

Tornados atingem o norte do Texas, deixam ao menos dois mortos e provocam destruição em larga escala

Tremor de magnitude 6,2 sacode ilha de Hokkaido no Japão

Segundo os pesquisadores, dados coletados ao longo de duas décadas por navios e dispositivos autônomos mostram que a chamada “água profunda circumpolar” — uma massa relativamente mais quente — se expandiu e avançou em direção à plataforma continental antártica. Até agora, a ausência de séries históricas contínuas impedia a detecção clara dessa tendência de aquecimento.

Dados inéditos confirmam mudança prevista por modelos

A análise foi possível graças à ampliação da rede global Argo, formada por equipamentos que monitoram continuamente a temperatura e a salinidade dos oceanos. Diferentemente das medições esporádicas feitas por embarcações no passado, os novos dados permitiram identificar, com maior precisão, alterações graduais na circulação oceânica ao redor do continente antártico.

— É preocupante, porque esta água quente pode fluir sob as plataformas de gelo antárticas, derretendo-as por baixo e desestabilizando-as — afirmou Joshua Lanham, autor principal do estudo, em comunicado divulgado pela Universidade de Cambridge.

As plataformas de gelo que circundam a Antártida funcionam como uma barreira natural que contém geleiras e calotas polares. Juntas, essas massas armazenam volume suficiente de água doce para elevar o nível médio do mar em cerca de 58 metros, caso sejam totalmente liberadas.

Os pesquisadores destacam que, no passado, essas formações estavam protegidas por uma camada de água fria, que dificultava o derretimento. Esse cenário, no entanto, parece estar mudando.

— É quase como se alguém tivesse aberto a torneira da água quente — disse Sarah Purkey, uma das autoras principais do estudo.

De acordo com os cientistas, a expansão dessa massa de água mais quente está diretamente relacionada ao aquecimento global. Mais de 90% do calor adicional gerado pela atividade humana é absorvido pelos oceanos, com destaque para o Oceano Antártico, que atua como um dos principais reservatórios térmicos do planeta.

Além do impacto sobre o gelo, a mudança na distribuição de calor pode afetar o funcionamento de correntes oceânicas de escala global. Uma delas é a Atlantic Meridional Overturning Circulation (AMOC), responsável por transportar águas quentes dos trópicos para o Atlântico Norte e influenciar o clima em diversas regiões, incluindo a Europa.

— O Oceano Antártico desempenha um papel fundamental na regulação do armazenamento global de calor e carbono — afirmou Ali Mashayek, um dos autores do estudo. — Alterações nessa região têm implicações mais amplas para todo o sistema climático.

Os modelos climáticos já indicavam que o aumento da temperatura do ar e o aporte de água doce proveniente do degelo poderiam enfraquecer a formação de águas densas e frias, essenciais para manter essa circulação. Agora, segundo os pesquisadores, o fenômeno deixa de ser apenas uma projeção e passa a ser observado diretamente.