Mudança de líderes, mas não de regime político na Venezuela: Chavistas mantêm o poder, e oposição radical é escanteada
Mais de 12 horas após o forte ataque militar dos Estados Unidos a Caracas e outras cidades venezuelanas e a captura do presidente Nicolás Maduro, na tarde de ontem, a vice-presidente Delcy Rodríguez apareceu no canal estatal Venezuelana de Televisão (VTV) ao lado das principais lideranças do regime chavista e afirmou: “Aqui há um governo.”
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Pouco antes, o presidente dos EUA, Donald Trump, dissera que a Casa Branca assumiria a administração da Venezuela durante um período indeterminado, mencionara uma conversa telefônica entre o secretário de Estado, Marco Rubio, e a vice-presidente venezuelana, e apontara que ela “está disposta a fazer o que consideramos necessário para que a Venezuela volte a ser grande”. As duas cenas confirmaram o que pareceu ser o início de uma negociação e deixaram claro que a noite de horror provocou, até agora, uma mudança de lideranças, mas não de regime.
Para completar a equação, ao falar sobre o futuro do país, Trump se referiu de forma negativa à líder opositora María Corina Machado. No sábado, a vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2025, que em todo momento defendeu uma intervenção militar dos EUA em seu país, disse, através de um comunicado, que a oposição estava pronta para assumir o poder. Esse não parece ser, por enquanto, o plano de Trump.
— Acho que seria muito difícil para ela [María Corina] estar à frente do país. Ela não conta com apoio nem respeito dentro de seu país. É uma mulher muito gentil, mas não inspira respeito — declarou o republicano.
Suspeita de negociação
Se para María Corina seria difícil, muito mais para o ex-candidato presidencial Edmundo González Urrutia, um diplomata aposentado. Nenhum dos dois teve o protagonismo esperado ontem. Na mesa de decisões continuam pessoas de confiança de Maduro, e as confusas declarações de Trump não esclareceram o panorama.
Na avaliação de um fonte diplomática americana em Washington, a coletiva do presidente lembrou o momento em que ele disse que transformaria a Faixa de Gaza numa “Riviera no Oriente Médio”. “Trump delira, e, neste caso, quis transmitir a ideia de que Delcy se rendeu. Conheço a vice venezuelana, e me parece difícil acreditar isso. Devem estar negociando”, afirmou a fonte americana. Em Caracas, uma fonte que conhece bem o chavismo resumiu da seguinte maneira o resultado da operação militar americana: “Rubio obteve Maduro, e [Richard] Grenell obteve Delcy”.
O passo a passo do ataque americano à Venezuela
Editoria de Arte/O Globo
Grenell foi enviado de Trump a Caracas e negociou com Maduro e com autoridades do regime, entre elas a vice-presidente. De acordo com comentários que circulam na capital venezuelana, Delcy tem boas relações com empresas petroleiras, e foi quem negociou o último acordo da Chevron com a Venezuela. Manter Delcy no poder é do interesse de Grenell.
Além da vice, também continuaram em seus postos o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino López, o ministro do Interior e Justiça, Diosdado Cabello, e o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, perante quem Delcy, sua irmã, poderia prestar juramento como “presidente temporária” na próxima semana, comentaram fontes venezuelanas.
— Toda transição foi assim. A Espanha saiu de Franco com o franquismo, o Chile de Pinochet com o pinochetismo — argumenta a analista internacional venezuelana Ana María San Juan.
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O primeiro ataque militar americano a um país da América do Sul em 200 anos, lembra o ex-embaixador chileno Jorge Heine, “deixou muitas perguntas , entre elas como ele foi possível”.
— A captura de Maduro foi surpreendente, e muitos nos perguntamos se houve ajuda de militares venezuelanos — aponta Heine.
Diante da variedade de respostas dadas por Trump ontem, o ex-embaixador chileno expressou enormes dúvidas.
— Haverá uma invasão em algum momento? Como vão governar a Venezuela de Washington? Afinal, a democracia importa? — perguntou o ex-embaixador chileno.
Prédio atingido por míssil dos EUA em Caracas
The New York Times
Se houve ou não ajuda de venezuelanos para prender Maduro ninguém sabe, mas as suspeitas são grandes. Na avaliação do embaixador Gelson Fonseca, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), “estamos vendo apenas o primeiro de muitos desfechos”.
— Surpreende que os EUA não tenham aprendido de experiências como a da Líbia. Me pergunto como pretendem governar a Venezuela. — diz Fonseca.
O cenário imediato dependerá de alguns elementos centrais, entre eles a capacidade de coesão do chavismo em momentos críticos, e a negociação entre Trump e o regime pós-Maduro. A oposição mais radical ficou fora da jogada, mas provavelmente mantém seus canais de diálogo com Washington, sobretudo com Rubio. “Todos estão jogando”, conclui a fonte americana.
