Mudança de governo no Chile: Kast assume prometendo 'um antes e um depois' em matéria de combate à violência

 

Fonte:


As últimas palavras públicas de José Antonio Kast antes de ser empossado como presidente do Chile, nesta quarta-feira, foram: “haverá um antes e um depois no Chile a partir de hoje”. Eleito no final de 2025 com uma campanha que teve como uma de suas principais bandeiras o combate à violência, Kast, do conservador Partido Republicano, dedicou suas últimas horas como presidente eleito e primeiras horas como novo presidente do Chile a mostrar esforços para esclarecer e julgar o disparo na cabeça sofrido pelo carabineiro (polícia nacional do país) Javier Figueroa Manquemilla, atualmente internado no CTI com morte cerebral, durante uma operação policial em Puerto Varas, no Sul do país.

Janaína Figueiredo: Lula aposta em boas relações com a direita latino-americana. Presidente da Bolívia irá a Brasília semana que vem

Novo governo: Com posse de Kast, Chile põe fim a eixo político vigente desde Pinochet

No mesmo dia em que foi empossado, Kast enviou a nova ministra de Segurança Pública chilena, María Trinidad Steinert Herrera, a Puerto Varas para acompanhar a família do carabineiro que está entre a vida e a morte.

— Quem ataca um carabineiro ataca o Chile, ataca a todos nós. Contra essas pessoas será aplicado todo o peso da lei. Nesse sentido, haverá um antes e um depois no Chile a partir de hoje — enfatizou Kast, na cidade de Valparaíso, onde está o Congresso Nacional, local onde tradicionalmente são realizadas as posses presidenciais.

Mais tarde, em seu primeiro discurso como presidente na sacada do palácio presidencial em Santiago, o chefe de Estado lançou seu primeiro ataque ao governo de seu antecessor, Gabriel Boric:

— Nos entregaram um país em piores condições das que podíamos imaginar. Com as finanças públicas em problemas, e o crime organizado e o narcotráfico avançaram. Não é desculpa, o Chile merece conhecer a verdade.

Até então o ambiente da posse fora de cordialidade entre o governo que começou nesta quarta-feira e o que terminou — após tensões na reta final da transição. Mas o primeiro discurso de Kast mostrou que foi apenas uma trégua.

— O Chile precisa de um governo de emergência, e isso é o que teremos. Isso é ordem onde há caos — frisou Kast, e acrescentou:

— São adversários os que entraram vulnerando nossas fronteiras para delinquir e transformar nosso território em terra de ninguém. Aos adversários do Chile eu digo que não vamos perdoá-los. Vamos perseguí-los, julgá-los e condená-los. Nossos policiais e nossas Forças Armadas terão todo o apoio do Estado, sobretudo a vontade política, que tanto faltou. Nunca mais um funcionário do Estado enfrentará sozinho a violência.

Direita latino-americana

O novo chefe de Estado do Chile prestou juramente num Congresso lotado, com a presença de presidentes estrangeiros como o boliviano Rodrigo Paz e o argentino Javier Milei, entre outros. De acordo com a imprensa local, a posse de Kast contou com a presença de mais de mil convidados, principalmente lideranças da direita e centro-direita latino-americana

As ausências mais destacadas pela mídia chilena foram a do salvadorenho Nayib Bukele e do secretário de Estado americano, Marco Rubio. O governo de Donald Trump, com o qual Kast está alinhado e do qual diz ser um aliado na região, foi representado pelo subsecretário de Estado Christopher Landau.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva finalmente não foi a Santiago, e o Brasil foi representado pelo chanceler Mauro Vieira. Segundo fontes do Palácio do Planalto, o ministro entregou a Kast uma carta de Lula na qual o chefe de Estado convida o novo presidente do Chile para uma visita de Estado ao Brasil. Na próxima segunda-feira, Lula receberá em Brasília o presidente da Bolívia, mostrando a intenção de seu governo de continuar apostando no que seus assessores internacionais chamam de “regionalismo possível”. Em outras palavras, relações pragmáticas com governos de direita e centro-direita latino-americanos.

Em Valparaíso também estavam convidados especiais de Kast, entre eles o senador Flávio Bolsonaro e a líder opositora venezuelana María Corina Machado, que se conheceram durante a posse e postaram imagens de seu primeiro encontro em suas redes sociais. De acordo com a imprensa local, mais de mil convidados participaram da posse de Kast em Valparaíso pela manhã e no Palácio de la Moneda, em Santiago, à noite.

Aliança transnacional: Ascensão de direita inspirada por Trump na América do Sul fomenta riscos para região

O novo presidente chileno iniciou seu mandato com uma vitória no Parlamento. Por 78 votos contra 76, o deputado Jorge Alessandri, da conservadora União Democrática Independente (UDI), foi eleito presidente da Câmara. A UDI integrou a aliança que elegeu Kast em 2025, e é uma importante peça no novo tabuleiro político chileno.

Kast não terá maioria absoluta no Parlamento, mas seu governo contará com uma bancada de 76 de 155 deputados, e no Senado haverá um empate entre partidos de direita e esquerda. De acordo com pesquisa realizada pela empresa de consultoria Cadem em fevereiro passado, 57% dos chilenos acreditam que o país “irá bem” com Kast na Presidência. O novo chefe de Estado deverá buscar consensos, e uma das incógnitas que paira sobre o Chile é até que ponto Kast aceitará dialogar com setores de centro e centro-esquerda para aprovar as reformas que prometeu em sua campanha.

Em seu primeiro discurso, o novo presidente defendeu um clima de união nacional, "mas sem ignorar nossas diferenças. Por parte da sociedade, a expectativa é, sem dúvida, a melhora em matéria de violência. Na noite de sexta, Kast assinou vários decretos presidenciais, muitos deles em matéria de segurança.

"Temos a oportunidade de começar uma nova era de ordem e liberdade", foi uma das últimas frases do discurso presidencial que encerrou a posse do novo homem forte do Chile.