MPF aciona faculdade de Medicina por compra de cadáveres de pacientes do Hospital Colônia em Minas Gerais - QTU Questões do Universo

MPF aciona faculdade de Medicina por compra de cadáveres de pacientes do Hospital Colônia em Minas Gerais

Fonte: Bandeira da fonte

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação contra a Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais pela compra de cadáveres de pacientes compulsórios do antigo Hospital Colônia de Barbacena (MG) entre 1971 e 1975.
Ao menos 105 corpos teriam sido usados para dissecção e ensino médico, segundo a denúncia.
A universidade, em nota, disse que ainda não tem conhecimento do processo.
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Cada corpo era comercializado por 50 cruzeiros novos e o valor destinado a cobrir custos de conservação e transporte, segundo o MPF.
Além da fundação mantenedora da universidade, o estado de Minas Gerais e a União também foram acionados no processo.
A ação pede a Justiça que se adotem medidas concretas como um pedido formal de desculpas, meios para preservação da memória, educação em direitos humanos e ao pagamento de R$ 13,7 milhões em danos morais coletivos.
Outras instituições de ensino já estiveram envolvidas em casos semelhantes, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que, em abril de 2026, reconheceu formalmente a prática e emitiu um pedido público de desculpas à sociedade e se comprometeu a criar espaços de memória e incluir o tema em seus currículos.
Em maio deste ano a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) admitiu também o recebimento de 169 corpos para atividades de ensino e assinou compromissos de reparação.

A Faculdade de Ciências Médicas, entretanto, não chegou a um consenso com o MPF durante as reuniões administrativas, o que levou ao ajuizamento da ação.

Em nota, a FCMMG disse que sempre atuou em cooperação com o Ministério Público Federal no decorrer das apurações e que "não antecipa conclusões sobre eventos históricos que se encontram sob análise dos órgãos competentes".
A faculdade afirmou ainda que não tem conhecimento da demanda do MPF e que todas as teses de defesa ainda serão apresentas em momento oportuno.
Por fim, a instituição alega que suas atividades são "atualmente desenvolvidas em conformidade com os marcos legais e éticos vigentes" e que pemanece à disposição das autoridades para esclarecimento dos fatos.
O Hospital Colônia de Barbacena
No hospital de onde partiram os cadáveres, eram aglomeradas, sem higiene e expostas ao tempo, pessoas consideradas “indesejadas” para a norma social daquele tempo.
Então, mesmo sem diagnóstico clínico, homossexuais, epiléticos, prostitutas, alcoolistas, pessoas tristes ou qualquer tipo de indivíduo considerado mais “rebelde”, mães solteiras, eram trancafiadas no local sem previsão de saída.

As primeiras imagens que mostravam as pessoas nuas, desnorteadas, andando pelos pátios e bebendo poças d’água que jorravam entre os prédios da instituição remonta o ano de 1961, quando uma reportagem da Revista “O Cruzeiro” chamou o local de “A sucursal do inferno”.
Mais de dez anos depois, em 1979, outra denúncia ocorreu por meio de uma fala do médico italiano Franco Basaglia (1924-1989), que estava em visita ao Brasil, e comparou o local a um “campo de concentração, onde são praticados verdadeiros atentados aos direitos humanos”, conforme reproduziu uma reportagem do GLOBO na época.
A mesma matéria ainda diz que na Colônia estavam internados 1.400 pacientes que eram acompanhados por somente seis psiquiatras, que não davam conta de lidar com os quadros clínicos dos internados.
O número pequeno de especialistas fazia com que não houvesse “nenhum relacionamento entre eles e os doentes”, diz o material.
Todo o controle dos quadros clínicos era feito por meio de remédios.
Só de um tipo de antipsicótico, eram usados 150 mil comprimidos por mês.
No local também eram utilizados eletrochoques e procedimentos de lobotomia, em casos mais severos.
Estima-se que as mortes até os anos 1980 chegaram a 60 mil.
As causas eram as mais diversas, do frio passando por diarreia aos aos maus-tratos.
Parte dessa história voltou à luz em 2013, quando a jornalista Daniela Arbex lançou o livro “O Holocausto Brasileiro - Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”.