MP-RJ avança na investigação da chacina no Alemão e analisa 150 dias de gravações de câmeras policiais
O Ministério Público do Rio de Janeiro espera concluir até o final do mês que vem a fase de depoimentos de todos os policiais que participaram de confrontos na Operação Contenção, do dia 28 de outubro de 2025, nos Complexos do Alemão e da Penha. A ação entrou para a história do Brasil como a mais letal de todos os tempos, com 122 pessoas mortas. O Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (GAESP) trabalha sobre mais de 3.600 horas de filmagens das câmeras das fardas de policiais civis e militares. Até agora, seis PMs já foram denunciados por crimes cometidos na operação, como roubo de peças de carro e de um celular.
Em janeiro, cerca de 100 policiais do Batalhão de Choque e do BOPE prestaram depoimento ao Ministério Público. Também já foram ouvidos os responsáveis pelo comando da ação, entre delegados e oficiais da PM. Familiares das vítimas foram procurados, mas a adesão para se manifestar nas investigações é baixa. O promotor Michel Zoucas explica que o foco do Gaesp com as oitivas é ter uma “compreensão global” do confronto antes de decidir se individualiza investigações específicas sobre as mortes.
"A partir da oitiva desses policiais, a gente vai poder entender melhor o que aconteceu naquele dia e ter uma visão global daquela operação. Diferentemente de outras mortes por uso de força letal por agentes do Estado, ali havia uma situação muito complexa, desde o momento em que um policial ingressa na comunidade, quando ele começa a efetuar disparos, quando começa a ter sua primeira resistência, até o momento em que aquela morte é causada. Por vezes, uma morte foi causada e o policial continuou no terreno. Então, todas essas circunstâncias e particularidades já vêm sendo trazidas nos depoimentos e vão nos permitir definir quais são os próximos passos da investigação."
Não há prazo para o fim das investigações, sobretudo pela complexidade da análise do material obtido pelas câmeras das fardas, o equivalente a 150 dias de gravações ininterruptas. Segundo o promotor Michel Zoucas, poderão ser necessárias novas oitivas de policiais após o fim das análises.
"Eventualmente, a gente pode analisar a câmera corporal de um policial militar que fez o patrulhamento de trânsito naquele dia. Pode ser uma câmera que vai nos demandar muito pouco tempo, porque não houve situação de confronto nem situação que justificasse emprego de arma de fogo ou indício de irregularidade. Por outro lado, haverá câmeras que vão registrar confrontos, prisões e o uso de força letal. Essas câmeras vão demandar maior atenção e, naturalmente, esforço e tempo na sua análise."
Duas mortes chamam a atenção dos investigadores: um relatório preliminar feito pelo MP e apresentado ao Supremo Tribunal Federal indica que dois corpos tinham lesões que destoavam dos demais: um com indícios de disparos à curta distância e outro com sinais de decapitação. Relatórios técnicos feitos a partir do trabalho do MP no Instituto Médico Legal chegarão aos promotores nos próximos dias. A apuração do Gaesp cumpre decisão do STF no âmbito da ADPF 635, seguindo parâmetros da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
O coordenador do Gaesp, promotor Fábio Correa, destaca que a investigação sobre a Operação Contenção é complexa e desafiadora.
"Só esses dados, por si só, já indicam a complexidade. Sobretudo por não ter sido possível, por exemplo, reproduzir o cenário através de uma reprodução simulada, diante da realidade peculiar que existe ali, porque demandaria uma nova operação. Então, são circunstâncias que tornam esse trabalho bastante desafiador. O objetivo dentro do processo de investigação é tentar reproduzir, da melhor forma possível, o cenário que se desenvolveu e o que aconteceu naquele dia para que, a partir daí, se possa fazer as análises dos óbitos individualmente, se assim for possível, bem como observar questões à luz do tratamento dado pelas cortes internacionais."
Governo do RJ
Enquanto isso, o governo pediu nesta semana mais 20 dias ao Supremo Tribunal Federal para encaminhar as imagens registradas pelas câmeras na megaoperação de outubro do ano passado. O estado afirmou que precisa de mais tempo para reunir, organizar e analisar todo o material audiovisual. O ministro Alexandre de Moraes determinou, no último dia 4, que o estado envie todo o material disponível para transcrição e perícia. A manifestação foi feita no âmbito da ADPF 635, a ação no STF que discute desde 2020 as operações policiais no Rio, da qual o ministro é o atual relator.
