MP pede esclarecimentos à CBF sobre ligação da família Feijó a supostas irregularidades na federação alagoana
O Ministério Público de Alagoas enviou um ofício à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 19 de maio, um dia depois da convocação da seleção brasileira, pedindo esclarecimentos sobre supostas irregularidades envolvendo a Federação Alagoana de Futebol (FAF) e institutos privados ligados à entidade e a dirigentes da família Feijó.
O documento, obtido pelo blog, foi assinado pelo promotor Anderson Cláudio de Almeida Barbosa, da 58ª Promotoria de Justiça da Capital, e encaminhado ao presidente da CBF, Samir Xaud. O MP solicita informações sobre relações da CBF com os institutos IFPP e IFAGP, além de eventuais auditorias, repasses financeiros e mecanismos de fiscalização sobre a FAF.
Dirigente se posiciona
A investigação teve origem em denúncia anônima recebida pela Ouvidoria do MP de Alagoas, que apontaria uma suposta “concentração familiar de poder” na FAF desde 2008, inicialmente sob o comando de Gustavo Feijó, diretor de seleções da CBF, e, posteriormente, de Felipe Feijó, seu filho e atual presidente da federação alagoana. Gustavo Feijó foi encontrado e se posicionou:
- Esse procedimento é com a federação, do qual meu filho tem CPF, eu tenho 12 anos afastado. Se tiver alguma coisa contra mim, eu respondo. Me dá estranheza citar o diretor de seleções. Eu não tenho a ver com os atos de uma entidade que eu larguei há 12 anos. É meu filho, mas não respondo por ele. Isso é do ano passado, deste ano. Na minha época nunca recebi. Pra mim não chegou nada, nenhuma notificação - explicou o dirigente da CBF.
- Quando existe denúncia, isso é um procedimento de praxe. Uma notícia de fato, que as pessoas envolvidas na notícia precisam dar esclarecimentos. Se o promotor achar que há indícios de safadeza, abre o inquérito. Foi aberto o procedimento. A denúncia fala do meu nome, mas é orquestrado. Cita meu nome por que eu sou pai de Felipe. Não por que eu fiz parte, assinei algum documento. Cita por que tem raiva por que o Feijó tem força política no estado - completou Gustavo Feijó.
Segundo a representação, haveria suspeitas de utilização de institutos privados para operacionalização de recursos públicos e privados ligados à federação. Entre as alegações apresentadas ao MP estariam: possível uso de recursos públicos sem transparência adequada; movimentações financeiras incompatíveis com as finalidades declaradas dos institutos; empréstimos feitos pelo próprio presidente da federação à entidade; pagamentos a empresa ligada à irmã do dirigente; ausência de prestação de contas detalhada; e pressão sobre clubes filiados para assinatura de documentos relacionados à captação de recursos.
O material encaminhado ao MP também afirmaria que o IFPP teria permanecido inativo por anos e sido reativado em 2024 para receber R$ 1,5 milhão em verbas públicas, com movimentações descritas como incompatíveis com a finalidade da entidade. Ao analisar o caso, o promotor Anderson Cláudio de Almeida Barbosa afirmou que a denúncia apresenta “elementos minimamente individualizados e circunstanciados, aptos a justificar a adoção de diligências preliminares de natureza investigatória”.
Possível uso de verbas públicas
O despacho destaca ainda que os fatos narrados “podem guardar relação com delitos envolvendo desvio de recursos, falsidade documental, associação criminosa, lavagem de capitais e outros ilícitos correlatos”. Apesar disso, o MP estadual afirmou que, até o momento, não há elementos suficientes para deslocar o caso para a esfera federal, por ausência de comprovação direta de uso de verbas da União.
- A CBF, por exemplo, não pode receber dinheiro público, o estatuto não permite. As federações nordestinas, quase todas, sobrevivem com dinheiro do governo. Os clubes de Alagoas recebem da Prefeitura, se não não sobrevivem. A cota de TV não deixa sobreviver. As federações menores buscam patrocínio com o governo. Que pode pagar através de agência, de institutos, que o Governo Federal faz em tudo que é canto. Alagoas pegava dinheiro das emendas pra pagar arbitragem, quadro móvel, tudo isso na época do Felipe (Feijó). Esses recursos servem pra pagar as despesas do futebol. E tem que prestar conta. Tem em Sergipe, Maranhão, Piauí, Alagoas. Se o governo não dá dinheiro, não tem futebol - explicou Gustavo Feijó.
No ofício enviado à CBF, o Ministério Público questiona se a entidade possui conhecimento formal sobre os institutos IFPP e IFAGP, se houve repasses financeiros ou programas de apoio à FAF nos últimos cinco anos e se a confederação identificou inconsistências nas prestações de contas da federação alagoana entre 2023 e 2025. O MP também pediu cópias de auditorias, relatórios, comunicações internas e documentos eventualmente relacionados à federação e aos institutos citados, e deu prazo de 20 dias para uma resposta. A CBF foi procurada, mas não se posicionou.
