Mortes no Jacarezinho: segunda operação mais letal da história do Rio faz cinco anos sem culpados nem indenizações
Caio da Silva Figueiredo, de 16 anos, era alto e dono de um chute forte. Talentoso com a bola, o jovem, fã do jogador português Cristiano Ronaldo, costumava disputar partidas por um time da Baixada Fluminense. Descrito pela família como educado e brincalhão, ele queria ser atleta profissional de futebol e cursar Educação Física em uma universidade. No dia 6 de maio de 2021, os sonhos do adolescente foram destruídos por dois tiros, em meio a uma operação policial que deixou 28 mortos no Jacarezinho, na Zona Norte do Rio.
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A lista das vítimas que perderam a vida na comunidade, apontada na época como um dos principais redutos do Comando Vermelho (CV), inclui ainda um policial.
Operação Jacarezinho foto arquivo 2021
Fabiano Rocha/Agência O Globo
O agente foi assassinado por um disparo na cabeça ao tentar retirar uma barricada. Considerada a segunda mais letal da história, superada apenas por outra ação policial, ocorrida em outubro de 2025 e que deixou 122 mortos, a Operação Exceptis foi deflagrada pela Polícia Civil após uma investigação revelar o aliciamento de crianças e adolescentes para ações criminosas, como assassinatos, roubos e até sequestros de composições ferroviárias.
A ação causou intenso tiroteio, durou cerca de nove horas e chegou a atingir a circulação de trens e do metrô. Neste último, dois passageiros chegaram a ser atingidos por estilhaços de tiros quando estavam em vagões.
Nesta quarta-feira, faz cinco anos que o caso ocorreu . Passados um total de 1.825 dias, a Justiça ainda não apontou culpados. Até agora, ninguém foi julgado e condenado pelas mortes na favela. Em apenas um dos casos, o da morte de Omar Pereira da Silva, dois policiais respondem pelas acusações de homicídio e fraude processual. Em um primeiro momento, eles teriam declarado que houve um confronto em um beco, causando o ferimento em Omar. Há relatos, no entanto, dando conta que a vítima teria sido morta dentro de uma casa. E que estaria desarmada, apesar de uma arma ter sido apresentada pelos agentes.
Pelo menos 16 famílias procuraram a Justiça para afirmar que parentes teriam sido executados durante a ação policial no Jacarezinho. Todos são representados pelos advogados Maria Isabel Tancredo e João Tancredo.
— No caso do Omar, os policiais retiraram o corpo do local do crime e apresentaram uma arma. Omar estava desarmado e não apresentou resistência. Em todos os casos, o que se verificou foi a execução das vítimas pelas forças policiais. Em alguns, verificou-se que as vítimas já estavam rendidas ou presas em determinadas residências, e a polícia entra e as executa. Em outros, percebemos que as vítimas estavam na rua, indo para o trabalho ou tentando retornar para casa, e foram atingidas por disparos das forças policiais. Uma das vítimas foi deixar a esposa no ponto de ônibus e, ao retornar para casa — inclusive com o cachorro, que jamais foi encontrado —, foi alvejada por disparos — disse a advogada Maria Isabel Tancredo.
Já nas varas de Fazenda Pública, há ações com pedidos de indenização ainda tramitando no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ). Até agora, segundo os advogados, nenhuma família recebeu qualquer quantia do Estado.
Uma das ações indenizatórias é movida pela família do estudante Caio. Morador de um município da Região Metropolitana do Rio, o jovem estava na comunidade havia um mês, na casa de uma suposta namorada. Dez dias antes da ação policial, ele havia visitado os familiares que moram em outro município da Região Metropolitana.
— Caio foi executado pelos policiais. Foi uma vítima do Estado. Ele não tinha qualquer antecedente. Se foi considerado suspeito, deveria ter sido detido. Eles o condenaram à morte — disse um familiar do rapaz.
Procurada, a Polícia Civil disse que os policiais agiram em legítima defesa e que o Judiciário já se manifestou, promovendo o arquivamento de 12 dos 13 inquéritos. Abaixo, a íntegra da nota enviada:
"Em relação à operação realizada no Jacarezinho, em maio de 2021, a Polícia Civil destaca que o Judiciário já se manifestou de forma inequívoca sobre o caso, concluindo que os policiais agiram em legítima defesa, e promoveu o arquivamento de 12 dos 13 inquéritos instaurados, após análise técnica, criteriosa e independente dos fatos.
O último inquérito ainda irá para o Tribunal do Júri, onde os policiais podem ser inocentados."
