Mortes de profissionais da imprensa batem recorde em 2025; Israel foi responsável por dois terços dos casos, diz ONG

 

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O número de mortes de profissionais da imprensa bateu recorde em 2025, de acordo com levantamento do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), divulgado nesta quarta-feira. O estudo aponta que das 129 mortes registradas no ano passado, 86 foram atribuídas a Israel. O número de baixas na imprensa foi o maior desde o início dos registros do CPJ, em 1992.

— Jornalistas estão sendo assassinados em números recordes em um momento em que o acesso à informação é mais importante do que nunca — disse Jodie Ginsberg, CEO do CPJ, criado em 1981 para defender a liberdade de imprensa e os jornalistas e liderado por um conselho composto por membros da imprensa e da sociedade civil.

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De acordo com a organização, a maior parte das mortes atribuídas a Israel ocorreu na Faixa de Gaza, 60% do total, onde apesar de um cessar-fogo estar em vigor, confrontos e bombardeios ocorrem com temerária frequência.

“Embora a cobertura de guerras seja inerentemente perigosa, Israel mudou o paradigma ao atacar jornalistas de forma deliberada e ilegal”, afirma o relatório.

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Os militares israelenses são acusados pelas mortes de 70 profissionais da imprensa, e a CPJ lembra que “o assassinato deliberado de jornalistas por qualquer força militar, que tem a obrigação de proteger civis segundo o direito internacional, constitui um crime de guerra”.

“No contexto do crescente conflito mundial, o desrespeito de Israel pela vida dos jornalistas — e pelas leis internacionais destinadas a protegê-los — não tem paralelo. Israel já matou mais jornalistas do que qualquer outro governo desde que o CPJ começou a coletar dados em 1992, tornando a guerra Israel-Gaza (que engloba as mortes em Gaza, bem como os ataques letais no Líbano, Iêmen e Irã) a mais sangrenta já registrada para jornalistas”. diz o relatório.

Com frequência, autoridades militares israelenses acusam profissionais da imprensa de serem militantes do Hamas em Gaza, um argumento que, dentro de sua lógica, justificaria os assassinatos. Foi o caso do correspondente da rede al-Jazeera Anas al-Sharif, apontado como agente do grupo palestino e ameaçado pelo porta-voz militar de Israel Avichay Aderee — em 10 de agosto, ele e outros seis colegas foram mortos em um ataque do lado de fora do Hospital al-Shifa, na Cidade de Gaza.

No mesmo mês, cinco jornalistas morreram em um bombardeio contra o Hospital Nasser, também na Faixa de Gaza, que deixou outros quinze mortos. Uma investigação da agência Reuters, empregadora de um dos profissionais mortos, apontou que o alvo era uma câmera posicionada há meses no local, responsável por transmitir imagens ao vivo.

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As ações não se restringiram a Gaza. Em setembro, 31 jornalistas e produtores morreram em bombardeios israelenses contra jornais estatais no Iêmen, no segundo maior ataque contra profissionais da imprensa já registrado pelo CPJ. Na ocasião, as Forças Armadas israelenses disseram que os alvos eram “militares” e “responsáveis por distribuir e disseminar mensagens de propaganda nos meios de comunicação”.

— Ninguém é responsabilizado por esse número recorde de jornalistas mortos — disse, em declarações ao jornal israelense Haaretz, Carlos Martínez de la Serna, diretor de programas do CPJ. — Não vemos justiça nesses casos em todos os países, e muito poucos casos são transparentes. No geral, a contínua falha dos líderes governamentais em responsabilizar os agressores cria as condições para mais assassinatos, inclusive em países que não estão em guerra, como o México ou as Filipinas.

As Forças Armadas israelenses afirmaram, em comunicado ao Haaretz, que "não têm jornalistas como alvo intencional", que operam "exclusivamente contra alvos militares, em conformidade com o direito internacional", e que "qualquer ação tomada contra jornalistas foi estritamente resultado de suas atividades militares, e por nenhum outro motivo".

"O relatório se baseia em afirmações genéricas, dados de fontes não divulgadas e conclusões predeterminadas, sem levar em conta as complexidades do combate ou os esforços das IDF para mitigar danos a não combatentes", conclui o texto.

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Em um mundo de conflitos de grande porte, o CPJ aponta que o número de jornalistas mortos por drones deu um salto em 2025: 39 vítimas. Em 2023, foram dois casos. No ano passado, 28 mortes foram atribuídas a drones de Israel, cinco às chamadas Forças de Ação Rápida, envolvidas na guerra civil no Sudão, e quatro à Rússia, em meio à invasão da Ucrânia. Outras duas mortes ainda em investigação estão ligadas a drones da Turquia e dos houthis no Iêmen.

Além da guerra, o crime organizado e autoridades corruptas vêem o jornalismo como um inimigo mortal. No México, as seis mortes de profissionais da imprensa no ano passado seguem sem solução. O caso mais conhecido foi o de Calletano de Jesús Guerrero, editor-executivo de um jornal que denunciava a atuação do crime organizado no estado do México, na região central do país. Ele estava sob proteção policial desde 2014, e foi assassinado em janeiro do ano passado. Casos semelhantes foram registrados nas Filipinas, Índia, Nepal, Bangladesh, Peru, Colômbia, Guatemala e Paquistão.

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Na Arábia Saudita, Turki al-Jasser, um colunista condenado por traição, colaboração com estrangeiros, financiamento ao terrorismo e por ameaçar a segurança nacional foi executado em junho após sete anos preso— as acusações foram questionadas por organizações de defesa dos direitos humanos e consideradas frágeis. Esta foi a primeira morte documentada de um jornalista saudita desde o assassinato e o esquartejamento de Jamal Khashoggi em 2018, no consulado do país em Istambul.

— Ataques à imprensa são um forte indicador de ataques a outras liberdades, e muito mais precisa ser feito para prevenir esses assassinatos e punir os perpetradores. Todos corremos risco quando jornalistas são mortos por reportarem as notícias — apontou Ginsberg.